Às ruas. E para lutar

 

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(com a colaboração valiosa de Luiz Carlos Pinto, doutor em Sociologia pela UFPE e professor de Comunicação da Unicap)

É uma contradição a vitória de tantos parlamentares conservadores, reacionários, religiosos, ultradireitistas e militares no início de outubro e, 20 dias depois, a vitória de uma presidente impulsionada pelas ruas em festa?

Parece ser, mas para tudo na vida há uma explicação, principalmente em política. Já que todo mundo se mete a comentarista de política ou especialista em fenômenos eleitorais, em arvoro a tentar fazer o mesmo, mas alerto aos desavisados: o meu olhar é o de um quarentão que já foi militante de esquerda na mais tenra idade, que já integrou o secretariado de um município administrado pelo PCdoB, permanecendo pobre de marre-dê-cê, e que vai votar de vermelho.

Dito isso, se quiser continuar, é por sua conta e risco. Não tenho compromisso algum com a isenção. Nem com a modéstia.

Vamos, portanto, à minha interpretação dos fatos.

A eleição de bispos, capitães, pastores e apresentadores de rádio talvez seja o reverso da medalha do fenômeno que levou milhões de militantes sem partido e eleitores de esquerda a abraçar a candidatura de Dilma e carregá-las nos braços por conta própria.

Sim, o Brasil está ávido por mais mudanças. Por mudanças mais profundas, daquelas que irritem ainda mais os reacionários de sempre. As pessoas querem mais. E quando a esquerda não ocupa esse espaço como deveria ocupar, quando abandona os movimentos sociais para institucionalizar-se em ministérios, grupos de trabalho ou empresas de estatais, os espaços de mobilização social ficam vazios. Por pouco tempo.

Aí não tem jeito, o vazio é ocupado rapidamente pela extrema-direita, pelos vendedores de soluções fáceis, pelos valentões que prometem resolver tudo no braço, na marra e com uso da força. Não sou eu quem digo isso. Vladimir Safatle diz a mesma coisa. A história idem.

Dias depois, a parte da população (a maioria, como agora está cabalmente demonstrado) que deseja e acredita nas mudanças à esquerda – mudanças que tornem o Brasil ainda mais democrático, mais plural, mais justo e com menos desigualdade – resolveu se mexer e assumir, de uma vez por todo, que é esse governo erra, é lento, mas é o nosso governo.

Foi lindo e deu um recado claro para a presidente petista: virar à direita seria um estelionato, como bem disse Mário Magalhães em seu blog no Uol, ecoando Luiz Carlos Pinto, que em sua página Loco por ti América criou uma bela imagem ao pedir que o “PT volte para casa”.

É verdade, é preciso fazer a curva à esquerda e só aí seguir em frente. Mas o governo não conseguirá fazer isso sozinho. A esquerda brasileira precisa retomar seu contato com os movimentos sociais, precisa voltar às ruas para lutar, não só para pedir votos.

O abandono das ruas deu no que deu em 2013. As antigas bandeiras da esquerda por mais saúde para todos e educação de qualidade foram conduzidas por uma massa amorfa, um rio imenso que não desaguou em lugar algum. Pior: foi represado pela mídia e pelos oportunistas de sempre.

“Esquerda brasileira” é um termo muito vago, impreciso. Serei claro: o PT, o PCdoB, o PDT (não se espantem, os velhos trabalhistas fazem falta) precisam reestabelecer as pontes com as lutas da sociedade. Tanto as velhas quanto as novas lutas. O PSOL já começa a ocupar esse espaço vazio com relativa competência – apesar da oscilação entre o discurso trotskista vintage de Luciana Genro, ao sul, e um aparente oportunismo de Randolfe Rodrigues, ao norte. Deixo pra lá os sectários partidos obreiros ou trotskistas como PSTU, isolados, caricaturais e autocondenados a viver na década de 40 do século XX.

Não estou falando de algo fácil de fazer ou de acontecer.

O PT terá mais dificuldades. Pelo que me contam alguns amigos petistas, a democracia interna do partido desce pelo ralo todos os dias, sufocando o trabalho de base em favor dos projetos pessoais dos caciques de todos os portes. A boa notícia é que os Cândidos Vaccarezzas, Joões da Costa e Mozarts Sales foram derrotados. Acho difícil mas talvez quem ficou perceba o que isso quer dizer e se dispunha a fazer diferente.

Os comunistas do PCdoB saíram mal das urnas. Esses eu conheço de perto e arrisco um palpite: a distância da sociedade e o excesso de intimidade com os políticos tradicionais e com os gatos e ratos das grandes coalizões fizeram mal à identidade do velho partido. Eles, no entanto, tem gente com experiência e capacidade para construir pontes com os movimentos sociais ou com as novas forças de esquerda emergentes, como o PSOL. Só não sei dizer se desistirão de atravessar as pontes dinamitadas pelo PSB.

Para estar a altura de responder às novas demandas da sociedade, as velhas formas de atuar são pra lá de inadequadas. O movimento comunitário se transformou num balcão de venda de votos por antigas lideranças que agora são cabos eleitorais corruptos; o movimento estudantil é a porta de entrada para jovens carreiristas e ambiciosos de olho numa vaga de deputado, vereador ou qualquer coisa que os tire do anonimato; o movimento sindical, por natureza, não consegue ir além da mesquinha luta por salários.

Independente dos partidos, a sociedade continua a se organizar em grupos, comitês e associações que lutam por direitos urbanos, pela democratização da comunicação, por direitos igualitários para todos os gêneros, pela descriminalização das drogas.

O problema é que os maiores partidos de esquerda sequer tornam públicas suas posições sobre questões polêmicas. Por quê? Por medo da repercussão eleitoral. Uma frouxidão que não condiz com a história de lutas na América Latina.

SAMSUNG CAMERA PICTURESNo Uruguai, por exemplo, a resistência contra a redução da maioridade penal nasceu no movimento estudantil e foi encampada como bandeira de lutas pelos partidos de esquerda. A foto ao lado é de um ato do Partido Comunista Uruguaio (cuja sigla é a simpática PCU) a favor da legalização da maconha, do casamento igualitário e contra a redução da idade penal (“No a la Baja”, um slogan onipresente nas ruas de Montevidéu nos dias que antecederam ao referendo).

Nesses novos tempos a “esquerda brasileira” talvez tenha de fazer uma terapia genética. Explico: em seu DNA está a marca de aparelhismo, a necessidade de ocupar espaços e controlar as estruturas das organizações na qual passam a atuar.

Acredito que isso nasceu dos tempos duros da clandestinidade, quando, sem poder se expressar pela própria legenda, usavam as entidades para conquistar visibilidade e defender o que dizia o programa do partido. De onde veio a doença não sei, só sei que é um câncer. Os cidadãos independentes ou “desorganizados”, como eles dizem, saem correndo.

Sou capaz de apostar que a cultura aparelhista ajuda a explicar (ao menos em parte) a ojeriza aos partidos demonstrada pelos participantes das jornadas de junho de 2013.

Este texto já está com cara de ensaio. Falta pouco.

Voltar às ruas, em minha imodesta opinião, é talvez a única fórmula para garantir os avanços dos governos Lula e Dilma. E de se contrapor ao histerismo da classe média paulista, dos políticos de direita, da chantagem de muitos governistas e de boa parte da mídia, que se comporta do jeito que sempre foi: pronta para preparar e legitimar um golpe. Para entender o que estou dizendo, procure na internet o noticiário dos anos 60 e compare, veja como se parecem. Até as frases são as mesmas.

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Bom dia, camaradas

bom diaA experiência de ler autores africanos de língua portuguesa é como provar uma feijoada acrescida de ingredientes que não fazem parte da receita original, mas com o dom de transformar o prato sem deixar dúvidas que continua sendo uma feijoada sensacional.

Ler os romances ou contos escritos em português por angolanos e moçambicanos é o mesmo que comer essa hipotética feijoada renovada, diferente de qualquer outra, porém intensa como qualquer feijoada.

É mais ou menos isso o que sinto sempre que leio a prosa de Mia Couto, Agualusa, Pepetela, Luandino Vieira, Lobo Antunes e, a partir de agora, Ondjaki também. Ondjaki é o apelido literário de um rapaz chamado Ndalu de Almeida, cujo romance Bom dia, camaradas acaba de ser relançado no Brasil pela Companhia das Letras. A língua portuguesa deles é a mesma que falamos, mas com uns ingredientes diferentes, palavras e sintaxe que a renovam e a tornam ainda mais interessante. E bonita.

O romance é simples como as manhãs na casa do menino, o narrador que se acorda cedo, troca poucas palavras com o doce cozinheiro camarada Antônio, espreguiça-se no jardim, corre para pegar abacates no chão antes de suas irmãs, tira onda com o espanhol dos camaradas professores cubanos, fica nervoso antes das provas.

Entre alegrias e gargalhadas diárias, o narrador vive a tristeza de uma parte da sua vida que está perto de chegar ao fim para que outra comece. Tal qual seu país.

ondjakiO voz do narrador é impecável. Sem forçar a barra para parecer mais real, sem explicar em demasia, Ondjaki (foto) toca com maestria uma narrativa cuja maior força parece estar exatamente na falta de força. Ou na delicadeza.

O autoritarismo dos camaradas do governo e da polícia aparece, mas nunca em tom de denúncia ou amargura, mas por fazer parte da vida das crianças de Luanda. A guerra, ora distante ora próxima, também está ali nas redações escolares, nas histórias do tio soldado ou nas akás, como o mortífero fuzil russo AK-47 é chamado carinhosamente por quase fazer parte da família.

Se a literatura de Pepetela escancara o abismo social entre os miseráveis moradores dos musseques de Luanda e os oportunistas que souberam fazer dinheiro no socialismo real, Bom dia, camaradas nos traz o que está no meio, a vida acontecendo entre as duas bordas do abismo.

Depois de penar com O caso Neruda e com a urgência de tantos trabalhos, ler Ondjaki foi o mesmo que sentir “nas pernas e nas bochechas” as gotas de chuva que entram pela janela do quarto do menino.

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O caso Neruda

O_CASO_NERUDA__1309622598PSe comecei um livro, vou até o fim. Não sou homem de deixar livro pela metade. Nunca abandono uma leitura. Frases feitas, boas para causar efeito, contudo agora completamente vazias de verdade.

Não posso garantir que nunca tinha largado um livro pelo meio do caminho, o certo mesmo é que realmente não lembro qual foi a última vez que havia feito isso. Ou melhor, não lembrava. Agora, eu sei exatamente a data e o título: 11 de abril de 2014, dia em que desisti de continuar lendo O caso Neruda, do chileno Roberto Ampuero.

Não que seja um livro difícil, hermético, complexo demais. Deixei de lado porque o livro é ruim. Simples assim.

Talvez eu esteja ficando muito exigente como leitor, mas o fato é que depois de passar semanas cevando o romance, olhando para sua capa, lendo e relendo as orelhas, mergulhei na leitura. Ou melhor tentei, mas não dá para ir fundo. A água está sempre na altura dos tornozelos, por mais que o leitor avance, não sai do lugar.

Durante as primeiras 100 páginas aproximadamente, fui levando, na esperança de ser envolvido pela prosa de Ampuero, muito elogiado por Samarone por seu volume de memórias políticas Nossos anos verde oliva.

Em nenhum momento, o detetive cubano Cayetano Brulé, protagonista de outros romances policiais do autor, convence como o homem sem pátria, sem lugar na Terra, levado para Valparaíso por um mocinha rica e metida a revolucionária às custas do papai rico. Na noite em que ele flagra a namorada arrumando para uma viagem surpresa a Cuba, sem nem ao menos avisar que iria treinar para ser guerrilheira na terra do namorado, é como se ele a encontrasse por acaso no supermercado.

Imagine um sujeito desempregado, levado pela namorada para um País distante, largado por lá da noite para o dia, para continuar vivendo sozinho, deslocado e sem amigos, em uma casa cujo aluguel é pago pelo sogro que ele desconhece. Qualquer um ficaria com raiva, ódio ou afundaria em depressão. Qualquer um não, Brulé não está nem aí, sempre imune a emoções reais.

Suportei pouco mais de cem páginas graças a descrição do Chile nos meses que antecederam ao golpe de 1973. O melhor do livro é a crônica de um país dividido, com os sinais do golpe em gestação todos os dias nas ruas e a esquerda expropriando fábricas loucamente e se armando de paus para enfrentar tanques.

Pena que isso seja pouco para sustentar uma narrativa pretensiosa, cujo eixo é o interesse de Pablo Neruda, sabendo que vai morrer, contratar não se sabe porquê  o desempregado Brulé para uma misteriosa investigação no México e, depois, em Cuba. Depois disso, não sei e nem quero saber, parei por aí.

Até determinado ponto, estava colocando a culpa da prosa capenga no tradutor, mesmo sabendo que é quase impossível se perder tanto do espanhol para o português. Exatamente na página 107, absolvi o tradutor, pois um erro grosseiro na narrativa, coisa de redação de menino pequeno, saltou do papel ficou ululando na minha frente. Não dava para fingir que não vi.

O problema é que, na história de Ampuero, Neruda pede que o detetive viaje ao México para encontrar um médico Ángel Bracamonte. Só revela esse nome e sem dar maiores detalhes de suas intenções. Pois não é que, do nada, Brulé especula em primeira pessoa sobre o amor do poeta por Beatriz de Bracamonte, que até então não tinha sido mencionada em lugar algum. Fiz o tira-teima, voltei atrás, li novamente dezenas de parágrafos. Nada.

ampueroMesmo assim, segui em frente, vai ver o autor omitiu determinados diálogos usando alguma técnica literária mais moderna, dessas que um leitor comum não consegue captar nem apreender. Vá esperança, mais à frente, eis que surge pela primeira vez o nome de Beatriz, amor secreto de Neruda. O protagonista espanta-se com um fato que ele mesmo pensou como algo que já sabia de cor e salteado pouco antes. Se ele estranhou, imagine eu.

Não é só isso, infelizmente. Os diálogos são toscos, primários. O ritmo próprio de uma investigação, onde o passado e os fatos se revelam aos poucos, é completamente inexistente. O leitor, assim como o personagem principal, recebe tudo de mão beijada, sem esforço algum, com alguma vantagem para Brulé, que por ser fictício não precisa suportar a prosa rasa e o estilo paupérrimo de Ampuero (foto).

As incongruências são muitas, anotei as que fui encontrando até a página 186, quando um erro de data me fez saltar fora. Uma delas: uma mocinha mexicana, funcionária de uma entidade médica daquele país, se dispõe a ajudar Brulé em sua busca pelo doutor Bracamonte, mas adverte que seria difícil fazer contato com uma conterrânea dele, mulher riquíssima, “pois no México os magnatas são como estrelas de Hollywood, vivem atrás de muros altos, cercados de guarda-costas”. No capítulo seguinte, lá está o investigador no maior conversê com a tal magnata, como se fosse mágica, sem circunstâncias ou explicações.

Juro que tem coisa pior, beirando o ridículo. Se alguém já leu e souber o final, por favor conte aqui nos comentários, eu é que não vou correr atrás disso.

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A máquina do bem e do mal

amáquinaDemorei demais a conhecer Rodolfo Walsh. Depois de Operação Massacre e Variações em vermelho sei o quanto perdi tempo enquanto não lia seus contos e suas novelas policiais. Não fosse Samarone, que desde cedo, vive mergulhado nas histórias e nos dramas da repressão militar nos países do Cone Sul, teria permanecido na ignorância. Devo essa.

Ainda bem que uma editora, a decentíssima 34, está publicando tudo dele em português. O último a sair foi A máquina do bem e do mal, uma coletânea de contos arrumados no volume em ordem cronológica, desde sua estreia com ‘As três noites de Isaías Bloom’ – quando tinha ralos 23 anos, em 1950 – até pouco antes de se dedicar à política. Mais precisamente à guerrilha montonera.

Para quem se arrisca a seguir as recomendações desse blog, quem avisa amigo é: não pulem o prefácio. Primeiro porque é de Ricardo Piglia, outro argentino bom de pena – esse eu conheço desde os tempos da faculdade, mais uma vez graças a um amigo mais lido que eu, Paulo Goethe. Segundo porque o prefácio é uma aula. Fosse publicado sozinho, em forma de folheto, já estaria de bom tamanho.

Piglia faz uma advertência crucial para o que está porvir nas próximas páginas. Para ele, na literatura de Walsh nada é o que parece ser à primeira vista. Mais ou menos como na vida. É preciso ir a fundo para se conhecer outras verdades. O Jornal Nacional que o diga. O primeiro conto – publicado também numa versão mais “madura” escrita 15 anos depois – é um bom exemplo disso. A propósito, gostei da versão “imatura” mesmo.

Walsh respeita profundamente o leitor, não facilita as coisas para seu ninguém. Essa é outra conclusão que Piglia compartilha no prefácio. Esse respeito se expressa tanto na forma de narrar, na qual ele desafia o leitor a se antecipar, quanto nas elipses, ou seja, naquilo que não está necessariamente escrito, mas que quem lê sabe que está ali, dito e não dito ao mesmo tempo. Eu mesmo, que não sou tão sabido assim, me senti muito à vontade, por exemplo, no segundo conto, o violento Os caçadores de lontras.

O livro é dividido em três partes, da iniciação à fase de amadurecimento literário de Walsh, e todos os contos foram publicados originalmente em revistas ou antologias, nenhum em livro específico do autor. Na parte do meio estão os contos do delegado Laurenzi, um dos personagens de sua ficção policial.

O recurso narrativo usado pelo escritor para narrá-los foi bastante incomum (e original, portanto): Laurenzi é um delegado aposentado que enfrenta o tédio contando suas histórias para o narrador no bar onde eles encontram-se quase todos os dias. A ficção policial é pano de fundo para tratar de religião, culpa, solidão e justiça.

Um exemplo do que quero dizer com isso? Eis aqui um trecho do conto ‘A armadilha’, onde o delegado adverte: “…nunca queira chegar ao fundo da verdade, de nenhuma verdade. A verdade é como a cebola: tira-se uma camada, e mais outra, e quando se tira a última, não resta mais nada.”

walshOs textos da maturidade, escritos entre 1964 e 1967, são heterogêneos, talvez por que, aquela altura, Walsh sentia-se à vontade para narrar de várias maneiras, com maior domínio das técnicas e recursos literários.

Dessa fase, dois contos surpreendem porque revelam o quanto a literatura de Walsh aproximava-se do universo da malandragem e do submundo argentino. E, em consequência da literatura de Robert Arlt. Em ‘A mulher proibida’ e ‘A máquina do bem e do mal’ sua escrita se parece mais com a de Arlt ou mesmo com a do brasileiro João Antônio, do que com a sua própria de anos anteriores.

No conto que dá título à coletânea, aliás, há mais humor do que no resto livro todo. Um humor mórbido, é bem verdade, mas bastante escancarado, ao contrário do que aparece aqui e ali nos demais contos, sempre em doses homeopáticas.

A arrumação cronológica desse volume permite vislumbrar claramente que, não fossem a opção radical pela militância política e a morte matada, Walsh teria sido um dos grandes da literatura latino-americana. O que ele fez foi pouco, mas vale muitíssimo a pena.

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O jornalismo segundo Antônio Callado

antonio_calladoComecei assim um texto que escrevi recentemente para a revista Continente sobre a fotobiografia de Antônio Callado que seria lançada semanas depois pela Cepe, a editora estatal de Pernambuco:

“O governo estadual decide remover uma favela inteira. Os moradores, negros, pobres, analfabetos e que não compravam jornais, reagem à ideia de morar a dezenas de quilômetros do local onde viviam. O governador ameaça prender quem resistir. Um padre os apoia.

O jornal mais importante do País passa a cobrir o conflito com isenção, ouvindo todos os atores sociais envolvidos e tomando cuidado para não rotular os favelados como baderneiros. O próprio chefe de redação assume a função de repórter e vai à favela, escuta os moradores, é fotografado sujando os sapatos na lama das ruelas, conversa com o padre e defende abertamente as negociações que acabam com o recuo do governo.

Não, os dois parágrafos acima não são resumo do roteiro de um filme nem a sinopse de um romance. Tudo isso aconteceu mesmo. E no Brasil.

Os tempos eram outros. O jornal era o extinto Correio da Manhã e o chefe de redação chamava-se Antônio Callado.”

Pois bem. Esse mesmo sujeito, alguns anos depois, já na condição de repórter do Jornal do Brasil, procura o dono do jornal e diz: “Quero ir ao Vietnã. Precisamos escrever o que está acontecendo lá”. Não sei se foi exatamente isso,mas se não foi, fica sendo. Nascimento Brito deve ter dito “tudo bem, telefone para a embaixada dos Estados Unidos e veja o que é necessário”.

O problema é que Callado não queria cobrir a guerra como um papagaio amestrado pelos invasores, vendo o que a grande potência querer que ele visse e escrevendo o que a máquina de propaganda queria que ele escrevesse e nada mais. Callado queria acompanhar a guerra do outro lado da fronteira, no Vientã “do Norte”, junto aos demônios comunistas, alvo preferencial das manchetes sensacionalistas e irreais de todo o restante da imprensa ocidental.

Demorou quase um ano para convencer os vietnamitas, mas ele foi.

Em 1968, ficou algumas semanas no Vietnã e voltou com muitas histórias para contar. Histórias de gente comum que teve de ir à guerra, de um grande esforço nacional para levar educação a todas as camadas da população, de uma experiência socialista única. Na série de reportagens especiais publicadas pelo JB – e convenientemente esquecidas nas coletâneas do bom jornalismo nos anos futuros – os demônios comunistas deixavam de ser uma massa informe de soldados do mal para ganhar nome, sexo, rosto, profissão, voz e sonhos.

vietn-do-norteesqueleto-na-lagoa-verde-antonio-calladoNa década de 1970, Callado juntou as reportagens, escreveu um texto para arrematar e publicou em livro, junto com uma série anterior sobre a expedição para tentar encontrar o corpo do coronel Fawcett, o aventureiro inglês que sumiu enquanto procurava o eldorado no interior do Mato Grosso.

Para encontrar esse livro – Vietnã do Norte: advertência aos agressores – só nos sebos, mas a série de reportagens foi reeditada anos mais tarde no livro Antônio Callado Repórter (para comprar clique aqui). Nesta edição, o material sobre a guerra é acompanhado dos lendários Tempos de Arraes, publicada no JB e que ajudou a transformar o então governador de Pernambuco em personagem nacional.

Mesmo que você não tenha feito nem queira fazer do jornalismo seu ganha-pão, vale a pena saber como é possível contar histórias de outra maneira, com paixão e intensidade. E como a tomada de posição explícita – desde o título, ou melhor, desde a decisão de relatar os fatos a partir daquele local – não compromete a qualidade e o estilo, aliás, é muito mais rico e honesto do que a imparcialidade fajuta das manchetes e das matérias insossas da mídia contemporânea.

Callado não é apenas um exemplo de coragem. Era um mestre do estilo a tal ponto que Nélson Rodrigues dizia que ele era o único inglês da vida real. Como amostra do sua prosa saborosa, me basta uma linha: “O Vietnã é a prova de que o homem valerá sempre mais do que as invenções do homem”.

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Tão longo o amor tão longa a vida: um início desconsertante

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O Caótico vai mudar porque tem de mudar

Só não sei ainda exatamente como, mas este blog precisa de novos ares. Já não tenho tanto tempo para ler e, depois, engatar um daqueles textos longos com minhas impressões e opiniões. Desde dezembro, já tracei pelo menos uns sete ou oito títulos e não tive como escrever nada.

Pra ser sincero, não é só falta de tempo. Há uma pá de blogs, sites ou revistas virtuais com resenhas críticas muito melhor fundamentadas que as minhas.

Por mais que eu me defenda repetindo que sou apenas um leitor sem pretensões de crítico literário ou quaisquer conhecimentos teóricos, isso não cola mais como defesa antecipada para justificar textos tão verborrágicos quanto carentes de fundamentos. Diria que os últimos textos – e meu próprio mecanismo de construção – já não tinham (se é que um dia tiveram) o frescor da emoção da leitura sem conseguir alcançar a consistência de um crítico literário.

Quem quiser crítica de verdade, é melhor procurar o Rascunho, o Todoprosa de Sérgio Rodrigues ou recorrer ao bom Cristiano Ramos. O Caótico perde de goleada para todos esses, apesar de, segundo dizem Samarone ou Arsênio, fazer uns golzinhos de honra vez em quando.

Por enquanto penso em continuar com a pena solta para os textos de minha própria lavra, como nas narrativas dos tempos de repórter (que também poderia chamar de memórias precoces) e crônicas ou perfis sobre o que vejo e escuto por aí, estas mais carregadas de política do que poética. De poesia, aliás, ando escasso há décadas.

A experiência da leitura permaneceria presente em outro formato, coisa rápida, notas curtas no decorrer da própria leitura, como se estivesse comentando com um amigo os achados de um romance ou de um autor até então desconhecido. Já andei xeretando na internet, não encontrei nada igual ao que estou pensando, mesmo que ainda não tenha certeza do que estou realmente querendo fazer.

Só falta descobrir como será isso na prática. Quando eu conseguir – se conseguir – espero que o blog não fique tanto tempo sem atualização.

 

 

 

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O rio que não passa

convite lançamento

O primeiro título que imaginamos para este livro foi Um rio de poesia, uma alusão clara, direta e totalmente desprovida de imaginação ao Pajeú e sua tradição de poesia clássica, metrificada, rimada, improvisada ou de bancada. Na primeira fase da primeira resposta à primeira pergunta durante a primeira entrevista, o título mudou. Felizmente.

Pouco depois de Dedé Monteiro receber um prêmio pela melhor vídeo-poesia na Fliporto, perguntei o que o Pajeú representava para sua poesia e sua vida. Uma pergunta óbvia, admito, feita para quebrar o gelo e dar o pontapé inicial na conversa. Dedé começou assim:

- O Pajeú é o rio que não passa.

Uma frase com dois ou três significados a escolher. Uma frase quase poema. Na hora, decidi mudar o título. A fotógrafa e cineasta Tuca Siqueira, a poetisa Cida Pedrosa e o coordenador do projeto, Alexandre Sávio Ramos, toparam. O que não é de espantar, pois a cada viagem de pesquisa pra entrevistar os poetas pelo Pajeú abaixo, de Brejinho a Floresta, fiquei martelando essa tecla.

Demorou uma eternidade de quase três anos desde a última com o surpreendente João Birico na zona rural de Floresta, mas conseguimos imprimir o livro. O financiamento do Funcultura só previa dinheiro para a pesquisa. Zero para impressão. Mas essa é outra história que envolve emendas ao orçamento, empenhos e Fundarpe. Nada muito saboroso para se contar ou se ler.

Quinta-feira, dia 23 de janeiro, depois de amanhã portanto, lançaremos O rio que não passa no Gabinete Português de Leitura, na rua do Imperador, com direito a coquetel e recital a partir das 19h. Não tenho dúvidas que o lançamento vai acabar virando uma homenagem a Zé de Mariano, poeta de Tabira, morto no início do mês.

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Balada da Praia dos Cães

Balada_da_Praia_dos_CaesFoi coincidência, nada programado, mas dias antes de Madrugada Suja li outro romance português com uma pegada ainda mais política, travestido de ficção policial. Balada da Praia dos Cães narrado em terceira pessoa, mas sob a ótica de um investigador de homicídios da polícia judiciária nos anos pesadíssimos da ditadura de Antônio Salazar.

Mergulhar na linguagem de Balada, escrito numa linguagem castiça do Portugal dos anos 60, repleta de expressões da época e muito distante do português falado por aqui. Trechos como “… (o homem é de arrasto e segue à maré) e como nisto de viagens à bolina quem no manda são as brisas deixou-se levar na corrente” tornaram lenta e trabalhosa a travessia desse livro, um dos melhores de José Cardoso Pires. Em compensação, ficou fácil fácil encarar a narrativa contemporâneo de Miguel Sousa Tavares.

Deu trabalho, é bem verdade, foi cansativo em vários momentos, mas ler uma obra em nosso idioma como se fosse em língua estrangeira foi como estar dentro da cabeça de pessoas de outra época e outro lugar. E, além do mais, a história é muito bem contada. E isso é o melhor de tudo. Leia mais »

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Madrugada Suja

madrugada-sujaHá certa estranheza em ler um autor pela primeira vez. É delicioso não conhecer os artifícios, as manhas e estratégias de um escritor e, mesmo assim, se deixar levar linha a linha, página a página pelo universo que o sujeito criou ou enredar-se todo na mente dos seus personagens. Já embarquei tarde da noite num barco que me levou a uma cidade que, a não ser pelo nome, me era completamente desconhecida. Não havia lua e, do convés, não dava nem para tentar adivinhar as margens e as curvas do rio que subia Pará adentro. São emoções parecidas.

Quando embarquei em Madrugada Suja não havia lido Equador nem Rio das Flores, que aqui no Brasil são os livros mais conhecidos do português Miguel Sousa Tavares. A sensação de tatear no escuro ou tentar adivinhar as curvas do rio não durou muito. Duas dezenas de páginas, no máximo.

Logo, tudo se ilumina. Há luz, cores e afeto rumo ao imprevisível. A viagem com destino incerto prossegue, mas a essa altura já confiava em Tavares, mesmo sem ter tanta intimidade com sua prosa. E a leitura vira prazer, tanto faz o desfecho – destino. Leia mais »

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