Pedro e Paula

Helder Macedo era o nome do autor estampado na capa. E isso não me dizia nada. Nem calculo quantas vezes adiei a leitura, tanto desinteresse amarelou e manchou as páginas do romance.

Uma das frequentes rearrumações nas estantes do alto do corredor colocou o livro na minha alça de mira. Era quase impossível sair da cozinha e dobrar à direita no corredor sem perceber o laranja berrante de sua lombada, espremida entre tantas outras de cores pastéis. Um dia, estiquei o pescoço para recordar seu título: Pedro e Paula. No outro, prometi que iria lê-lo. Um dia. Não sei quando.

Ano novo, vida nova, hora de ver se o português Helder é bom de bola. É, agora posso garantir. Desprezar a leitura de Pedro e Paula foi um erro grosseiro de um sujeito metido a sabe-tudo, porém profundamente ignorante das letras de além-mar. Havia uma pequena jóia de celulose em casa e eu não sabia. Leia Mais »

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Uma mente brilhante e as muitas formas de narrar

por José Neves Cabral, um dos primeiros amigos que fiz na redações da vida, que generosamente colocou à disposição dos leitores do Caótico um texto de sua lavra, elaborado enquanto cursava uma pós-graduação em Jornalismo. 

O filme Uma Mente Brilhante baseado na biografia do matemático americano John Nash é um ótimo exemplo de como a história pode ser utilizada pelo cinema para retratar um episódio, uma época, mesmo que “maquiada” para potencializar o drama do protagonista. Neste caso, acredito sem fazer juízo de valor, a ficção se apropria de um fato real (a Guerra Fria) para dar mais força narrativa ao enredo. Neste filme, o cinema ultrapassa a fronteira da realidade para oferecer um prato mais apetitoso ao público, sem, no entanto, perder a essência do drama real.
Na história que nos é apresentada, John Nash (interpretado por Russell Crowe) é este herói, enquanto o mal é a esquizofrenia paranóica, doença que o persegue durante todo o enredo e é derrotada pela racionalidade do matemático.

Baseado na biografia de John Nash escrita pela jornalista Sylvia Nasar, professora de Jornalismo da Columbia University, o drama se desenrola no período mais forte da Guerra Fria – tempo marcado pela ameaça de um conflito nuclear entre Estados Unidos e a antiga União Soviética, entre as décadas de 50 e 80.  Leia Mais »

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O poeta inseguro e o leitor voraz

Samarone Lima é um escriba com razoável experiência acumulada, causa e conseqüência de quatro livros publicados. A prosa não o intimida. Ao contrário, ele sente-se seguro entre parágrafos, orações intercaladas e períodos extensos. Com a poesia é diferente. O escritor autoconfiante é um poeta tímido, inseguro.

Há anos, mantêm dois blogs, no Estuário estão suas crônicas e um público cativo. Quemerospoemas.blogspot.com é quase clandestino. Se ele não o esconde, pelo menos não o divulga. Na falta de alguém capaz de pesar e repesar seus versos, de afirmar com sinceridade o que dava ou não para ser publicado, um livro de poesias parecia um projeto impossível.

Arsênio Meira Júnior lê poesia desde criança. Sua mãe, uma jovem cheia de sonhos dos anos 60, o apresentou a Drummond, Maiakovski, Vinícius e, principalmente, Ferreira Gullar. Adolescente, sonhava em escrever, escrever e escrever sem parar. Quase cursou Jornalismo, mas o pragmatismo falou mais alto aos 17 anos e decidiu pelo Direito, herdando, além do nome, parte da credibilidade construída pelo pai, Leia Mais »

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Ilusões perdidas

por Dimas Lins

Tenho me tornado um desses leitores assíduos dos clássicos da literatura mundial. Comecei tarde, é bem verdade, mas consegui, por fim, reunir uma lista de livros de grandes escritores e me propus a lê-los com a atenção que a esta altura de minha vida me permito fazê-lo. Já não sou um jovem e debutante leitor, por isso, não tenho pressa. Percebi que é preciso saborear as páginas de um bom livro, como se saboreia um bom vinho, e observar, para satisfazer curiosidades pessoais, os aspectos que envolvem a criação, o contexto da época em que se passa a narrativa, além de capturar detalhes da vida e obra de seu autor.

Os clássicos abriram para mim novas perspectivas e contribuíram na criação de alguns escritos pessoais, pois endossaram o meu foco na alma humana. Tenho cá pra mim que os grandes romancistas tinham como matéria-prima o infortúnio e, ainda que eu tenha o hábito de também me utilizar da mesma substância em alguns de meus contos – mantidas, evidentemente, as devidas proporções – sinto uma comoção e um inexplicável desejo de um final feliz para as personagens centrais desses autores, embora compreenda que tal querer, se de algum modo fosse satisfeito, provavelmente não daria aos seus livros a condição que os elevou a categoria dos clássicos.

Ilusões Perdidas, do romancista francês Honoré de Balzac, é um desses livros que expõe a ambição desmedida, a miséria, a corrupção social, o interesse pessoal acima dos interesses coletivos e a prevalência do dinheiro sobre os valores morais. É um perfeito retrato social de sua época e um estudo de costumes da França do século XIX, cuja construção só foi possível, porque duas das principais personagens, Lucien Chardon de Rubempré e David Séchard, dividem entre si experiências vividas pelo próprio Balzac que, como o primeiro foi poeta e escritor e, como o segundo, investiu na carreira de editor e impressor de livros. Leia Mais »

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Preconceito linguistico – o que é, como se faz

por Paulo Sérgio Araújo

Prestem bem atenção às fotos que estão na capa e no verso do livro “Preconceito Linguístico – O que é, como se faz”, publicado pela Edições Loyola e já em sua 54ª edição 2011, de Marcos Bagno. São as mesmas pessoas, com 30 anos de diferença entre as fotos. Como vocês descreveriam o casal e o filho ali estampados? Volto ao assunto no final do texto

 

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Inicio expondo minha ignorância na ciência da Pedagogia, Letras e afins. Minha intervenção é de um leigo que procura respostas, jamais querendo me contrapor a um doutor em Língua Portuguesa, como é o autor.

O livro foi publicado a primeira vez em 1999 e, pelo número de edições, já se vê que nem de longe é um assunto novo. Eu mesmo já tinha lido artigos de Marcos Bagno na “extinta” Caros Amigos (extinta para mim, pois o que antes era uma grande revista com viés de esquerda, com a morte do editor Sérgio de Souza em 2008, tornou-se um panfleto ideológico pró-governos autodenominados de esquerda – pelo menos até enquanto tive estômago para ler o periódico) e que suas posições sempre me pareceram um tanto de destilar de ódio e pedantismo.

Normalmente, o alvo principal era Pasquale Cipro Neto, um dos mais conhecidos “professores de Português” no Brasil, pelas suas aparições na mídia. Quais os motivos, imaginava eu, de alguém ser classificado como pernicioso por Marcos Bagno apenas por dizer que determinada construção só poderia ser aceita no linguajar cotidiano e não na linguagem formal? Qual seria o pecado de ensinar que “me empreste seu caderno” não seria correto do ponto de vista da gramática formal, que exige “empreste-me seu caderno?”. Leia Mais »

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Trapo

Ler uma obra da maturidade de um autor e, logo em seguida, um dos livros do início de sua carreira pode ser uma ótima experiência de aprendizado para um autodidata como eu. Foi isso que descobri enquanto imergia nas páginas de Trapo, romance que levou a crítica literária brasileira a ficar de olho em Cristovão Tezza na segunda metade dos anos 80.

Comecei a leitura de Trapo assim que publiquei o texto sobre O filho eterno, livro com o qual ele ganhou os prêmios literários mais relevantes e consolidou seu nome na literatura brasileira deste início de século. Com a leitura de um encangado no outro, deu para perceber claramente as virtudes aperfeiçoadas com o tempo e os defeitos, eliminados depois de parágrafos e mais parágrafos de polimento.

Reconheci nesse livro de Tezza alguns elementos de Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño e de certa literatura argentina, principalmente textos de Ricardo Piglia lidos há duas décadas por indicação de Paulo Goethe. A figura do jovem poeta descabelado, suicida aos vinte e poucos anos por alguma razão misteriosa, é quase uma lenda na noite curitibana. Trapo é tido e havido como gênio, mesmo que seus escritos jamais tenham sido lidos ou publicados. Leia Mais »

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Promessas de fim de ano

Os resultados de 2011 foram animadores. Entre as promessas que fiz – ou imagino ter feito – ao apagar das luzes do ano passado, pelo menos duas consegui tornar realidade. Um ano depois, fazem parte do meu cotidiano. Ou melhor, são o meu cotidiano. E vem a calhar para me livrar do lugar-comum de escrever sobre as juras que se faz nesses dias festivos e esquecidas logo ao amanhecer de 2 de janeiro.

E olhe que não foram promessazinhas bestas e sim coisas sérias, compromissos que mudam a vida, difíceis de realizar por causa das invisíveis correntes que nos prendem às sombras do medo ou à viscosidade do hábito.

Com taxas de colesterol e triglicerídeos alcançando patamares ameaçadores em setembro de 2010, percebi que ao dava mais para adiar o enfrentamento da preguiça e da própria má-vontade. Comecei a superar o sedentarismo ainda nos meses finais daquele ano, mas foi durante esse ano que realmente levei a sério a esteira e o treinamento para pernas, braços, costas e peito, a famosa e maldita musculação. Só de outubro para cá foram mais de 170 quilômetros de corrida. Leia Mais »

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Como se fosse ontem (VI)

Uma pobre mulher com dificuldades para andar assaltada nas escadarias de uma estação de metrô. Na falta de alguma coisa de valor, os desalmados ladrões roubam suas muletas. Se uma informação chegar às redações hoje, com o século XXI já entrando em anos, com certeza seria embalada como chamada nos portais, manchete secundárias nos jornais, chamadinha no Jornal Hoje, invadiria as páginas dos revoltados nas redes sociais e mereceria berros indignados de Datena. Na manhã seguinte, Ana Hickmann tentaria explicar o absurdo e Ana Maria Braga esticaria a corda para arrancar lágrimas das senhoras telespectadoras.

Se hoje tal violência seria notícia, no início da década de 90 também. E era o tipo de drama urbano que o Diário Popular não deixava passar de maneira nenhuma.

Quando cheguei à redação, a pauta já estava separada para mim. Leia Mais »

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O filho eterno

Afundei na rede sob o peso de uma bigorna imaginária. E ainda estava na página 27 do livro. Mais uma página, mais outra e outra, agora mais devagar para não me distrair, para não deixar escapar uma vírgula sequer.

A respiração sempre pesada. A custo, avancei até o final do capítulo. Mais adiante não consegui ir. Pelo menos não naquela noite.

Abandonei o livro e a rede com a falta de ar de quem acaba de levar um soco no pé da barriga, na boca do estômago. Só retomei a leitura no dia seguinte e não a larguei mais. Leia Mais »

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José Dumont e a desgraça que não descansa

por Laércio Portela

Deraldo comeu o pão que o diabo amassou. Imigrante nordestino na São Paulo do final dos anos 70 e início dos 80, ele viu cruzar pelo seu caminho todos os tipos de desassossego e patifaria.

A sucessão dos personagens define uma época: o empresário-explorador americano; o trabalhador pelego e alcaguete; o mestre de obras travestido de capitão do mato; o fiscal sacana; a madame oca, metida a requintada; a moçada alienada; o “coronel” matreiro e preconceituoso, político de mil mandatos; a polícia e sua incompetência e grosseria seletivas; e até a imprensa, aquela que não quer ouvir, mas sabe gritar.

Não há meio termo quando um homem é triturado pela vida.

Deraldo virou suco” pelas lentes do cineasta mineiro João Batista de Andrade e o corpo franzino/cara dura do paraibano José Dumont. Numa época de arrocho salarial, inflação galopante e ditadura militar, ele deixou o Nordeste, com a sua economia estagnada e sem futuro, e foi conhecer de perto o progresso. Pagou todos os pedágios… E sobreviveu. Leia Mais »

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