A máquina do bem e do mal

amáquinaDemorei demais a conhecer Rodolfo Walsh. Depois de Operação Massacre e Variações em vermelho sei o quanto perdi tempo enquanto não lia seus contos e suas novelas policiais. Não fosse Samarone, que desde cedo, vive mergulhado nas histórias e nos dramas da repressão militar nos países do Cone Sul, teria permanecido na ignorância. Devo essa.

Ainda bem que uma editora, a decentíssima 34, está publicando tudo dele em português. O último a sair foi A máquina do bem e do mal, uma coletânea de contos arrumados no volume em ordem cronológica, desde sua estreia com ‘As três noites de Isaías Bloom’ – quando tinha ralos 23 anos, em 1950 – até pouco antes de se dedicar à política. Mais precisamente à guerrilha montonera.

Para quem se arrisca a seguir as recomendações desse blog, quem avisa amigo é: não pulem o prefácio. Primeiro porque é de Ricardo Piglia, outro argentino bom de pena – esse eu conheço desde os tempos da faculdade, mais uma vez graças a um amigo mais lido que eu, Paulo Goethe. Segundo porque o prefácio é uma aula. Fosse publicado sozinho, em forma de folheto, já estaria de bom tamanho.

Piglia faz uma advertência crucial para o que está porvir nas próximas páginas. Para ele, na literatura de Walsh nada é o que parece ser à primeira vista. Mais ou menos como na vida. É preciso ir a fundo para se conhecer outras verdades. O Jornal Nacional que o diga. O primeiro conto – publicado também numa versão mais “madura” escrita 15 anos depois – é um bom exemplo disso. A propósito, gostei da versão “imatura” mesmo.

Walsh respeita profundamente o leitor, não facilita as coisas para seu ninguém. Essa é outra conclusão que Piglia compartilha no prefácio. Esse respeito se expressa tanto na forma de narrar, na qual ele desafia o leitor a se antecipar, quanto nas elipses, ou seja, naquilo que não está necessariamente escrito, mas que quem lê sabe que está ali, dito e não dito ao mesmo tempo. Eu mesmo, que não sou tão sabido assim, me senti muito à vontade, por exemplo, no segundo conto, o violento Os caçadores de lontras.

O livro é dividido em três partes, da iniciação à fase de amadurecimento literário de Walsh, e todos os contos foram publicados originalmente em revistas ou antologias, nenhum em livro específico do autor. Na parte do meio estão os contos do delegado Laurenzi, um dos personagens de sua ficção policial.

O recurso narrativo usado pelo escritor para narrá-los foi bastante incomum (e original, portanto): Laurenzi é um delegado aposentado que enfrenta o tédio contando suas histórias para o narrador no bar onde eles encontram-se quase todos os dias. A ficção policial é pano de fundo para tratar de religião, culpa, solidão e justiça.

Um exemplo do que quero dizer com isso? Eis aqui um trecho do conto ‘A armadilha’, onde o delegado adverte: “…nunca queira chegar ao fundo da verdade, de nenhuma verdade. A verdade é como a cebola: tira-se uma camada, e mais outra, e quando se tira a última, não resta mais nada.”

walshOs textos da maturidade, escritos entre 1964 e 1967, são heterogêneos, talvez por que, aquela altura, Walsh sentia-se à vontade para narrar de várias maneiras, com maior domínio das técnicas e recursos literários.

Dessa fase, dois contos surpreendem porque revelam o quanto a literatura de Walsh aproximava-se do universo da malandragem e do submundo argentino. E, em consequência da literatura de Robert Arlt. Em ‘A mulher proibida’ e ‘A máquina do bem e do mal’ sua escrita se parece mais com a de Arlt ou mesmo com a do brasileiro João Antônio, do que com a sua própria de anos anteriores.

No conto que dá título à coletânea, aliás, há mais humor do que no resto livro todo. Um humor mórbido, é bem verdade, mas bastante escancarado, ao contrário do que aparece aqui e ali nos demais contos, sempre em doses homeopáticas.

A arrumação cronológica desse volume permite vislumbrar claramente que, não fossem a opção radical pela militância política e a morte matada, Walsh teria sido um dos grandes da literatura latino-americana. O que ele fez foi pouco, mas vale muitíssimo a pena.

Para comprar A maquina do bem e do mal na Livraria Cultura, clique aqui.

Deixe o seu comentário - Enviar por email - Imprimir

O jornalismo segundo Antônio Callado

antonio_calladoComecei assim um texto que escrevi recentemente para a revista Continente sobre a fotobiografia de Antônio Callado que seria lançada semanas depois pela Cepe, a editora estatal de Pernambuco:

“O governo estadual decide remover uma favela inteira. Os moradores, negros, pobres, analfabetos e que não compravam jornais, reagem à ideia de morar a dezenas de quilômetros do local onde viviam. O governador ameaça prender quem resistir. Um padre os apoia.

O jornal mais importante do País passa a cobrir o conflito com isenção, ouvindo todos os atores sociais envolvidos e tomando cuidado para não rotular os favelados como baderneiros. O próprio chefe de redação assume a função de repórter e vai à favela, escuta os moradores, é fotografado sujando os sapatos na lama das ruelas, conversa com o padre e defende abertamente as negociações que acabam com o recuo do governo.

Não, os dois parágrafos acima não são resumo do roteiro de um filme nem a sinopse de um romance. Tudo isso aconteceu mesmo. E no Brasil.

Os tempos eram outros. O jornal era o extinto Correio da Manhã e o chefe de redação chamava-se Antônio Callado.”

Pois bem. Esse mesmo sujeito, alguns anos depois, já na condição de repórter do Jornal do Brasil, procura o dono do jornal e diz: “Quero ir ao Vietnã. Precisamos escrever o que está acontecendo lá”. Não sei se foi exatamente isso,mas se não foi, fica sendo. Nascimento Brito deve ter dito “tudo bem, telefone para a embaixada dos Estados Unidos e veja o que é necessário”.

O problema é que Callado não queria cobrir a guerra como um papagaio amestrado pelos invasores, vendo o que a grande potência querer que ele visse e escrevendo o que a máquina de propaganda queria que ele escrevesse e nada mais. Callado queria acompanhar a guerra do outro lado da fronteira, no Vientã “do Norte”, junto aos demônios comunistas, alvo preferencial das manchetes sensacionalistas e irreais de todo o restante da imprensa ocidental.

Demorou quase um ano para convencer os vietnamitas, mas ele foi.

Em 1968, ficou algumas semanas no Vietnã e voltou com muitas histórias para contar. Histórias de gente comum que teve de ir à guerra, de um grande esforço nacional para levar educação a todas as camadas da população, de uma experiência socialista única. Na série de reportagens especiais publicadas pelo JB – e convenientemente esquecidas nas coletâneas do bom jornalismo nos anos futuros – os demônios comunistas deixavam de ser uma massa informe de soldados do mal para ganhar nome, sexo, rosto, profissão, voz e sonhos.

vietn-do-norteesqueleto-na-lagoa-verde-antonio-calladoNa década de 1970, Callado juntou as reportagens, escreveu um texto para arrematar e publicou em livro, junto com uma série anterior sobre a expedição para tentar encontrar o corpo do coronel Fawcett, o aventureiro inglês que sumiu enquanto procurava o eldorado no interior do Mato Grosso.

Para encontrar esse livro – Vietnã do Norte: advertência aos agressores – só nos sebos, mas a série de reportagens foi reeditada anos mais tarde no livro Antônio Callado Repórter (para comprar clique aqui). Nesta edição, o material sobre a guerra é acompanhado dos lendários Tempos de Arraes, publicada no JB e que ajudou a transformar o então governador de Pernambuco em personagem nacional.

Mesmo que você não tenha feito nem queira fazer do jornalismo seu ganha-pão, vale a pena saber como é possível contar histórias de outra maneira, com paixão e intensidade. E como a tomada de posição explícita – desde o título, ou melhor, desde a decisão de relatar os fatos a partir daquele local – não compromete a qualidade e o estilo, aliás, é muito mais rico e honesto do que a imparcialidade fajuta das manchetes e das matérias insossas da mídia contemporânea.

Callado não é apenas um exemplo de coragem. Era um mestre do estilo a tal ponto que Nélson Rodrigues dizia que ele era o único inglês da vida real. Como amostra do sua prosa saborosa, me basta uma linha: “O Vietnã é a prova de que o homem valerá sempre mais do que as invenções do homem”.

Deixe o seu comentário - Enviar por email - Imprimir

Tão longo o amor tão longa a vida: um início desconsertante

TAO_LONGO_AMOR_TAO_CURTA_A_VIDA

1 comentário - Enviar por email - Imprimir

O Caótico vai mudar porque tem de mudar

Só não sei ainda exatamente como, mas este blog precisa de novos ares. Já não tenho tanto tempo para ler e, depois, engatar um daqueles textos longos com minhas impressões e opiniões. Desde dezembro, já tracei pelo menos uns sete ou oito títulos e não tive como escrever nada.

Pra ser sincero, não é só falta de tempo. Há uma pá de blogs, sites ou revistas virtuais com resenhas críticas muito melhor fundamentadas que as minhas.

Por mais que eu me defenda repetindo que sou apenas um leitor sem pretensões de crítico literário ou quaisquer conhecimentos teóricos, isso não cola mais como defesa antecipada para justificar textos tão verborrágicos quanto carentes de fundamentos. Diria que os últimos textos – e meu próprio mecanismo de construção – já não tinham (se é que um dia tiveram) o frescor da emoção da leitura sem conseguir alcançar a consistência de um crítico literário.

Quem quiser crítica de verdade, é melhor procurar o Rascunho, o Todoprosa de Sérgio Rodrigues ou recorrer ao bom Cristiano Ramos. O Caótico perde de goleada para todos esses, apesar de, segundo dizem Samarone ou Arsênio, fazer uns golzinhos de honra vez em quando.

Por enquanto penso em continuar com a pena solta para os textos de minha própria lavra, como nas narrativas dos tempos de repórter (que também poderia chamar de memórias precoces) e crônicas ou perfis sobre o que vejo e escuto por aí, estas mais carregadas de política do que poética. De poesia, aliás, ando escasso há décadas.

A experiência da leitura permaneceria presente em outro formato, coisa rápida, notas curtas no decorrer da própria leitura, como se estivesse comentando com um amigo os achados de um romance ou de um autor até então desconhecido. Já andei xeretando na internet, não encontrei nada igual ao que estou pensando, mesmo que ainda não tenha certeza do que estou realmente querendo fazer.

Só falta descobrir como será isso na prática. Quando eu conseguir – se conseguir – espero que o blog não fique tanto tempo sem atualização.

 

 

 

3 comentários - Enviar por email - Imprimir

O rio que não passa

convite lançamento

O primeiro título que imaginamos para este livro foi Um rio de poesia, uma alusão clara, direta e totalmente desprovida de imaginação ao Pajeú e sua tradição de poesia clássica, metrificada, rimada, improvisada ou de bancada. Na primeira fase da primeira resposta à primeira pergunta durante a primeira entrevista, o título mudou. Felizmente.

Pouco depois de Dedé Monteiro receber um prêmio pela melhor vídeo-poesia na Fliporto, perguntei o que o Pajeú representava para sua poesia e sua vida. Uma pergunta óbvia, admito, feita para quebrar o gelo e dar o pontapé inicial na conversa. Dedé começou assim:

- O Pajeú é o rio que não passa.

Uma frase com dois ou três significados a escolher. Uma frase quase poema. Na hora, decidi mudar o título. A fotógrafa e cineasta Tuca Siqueira, a poetisa Cida Pedrosa e o coordenador do projeto, Alexandre Sávio Ramos, toparam. O que não é de espantar, pois a cada viagem de pesquisa pra entrevistar os poetas pelo Pajeú abaixo, de Brejinho a Floresta, fiquei martelando essa tecla.

Demorou uma eternidade de quase três anos desde a última com o surpreendente João Birico na zona rural de Floresta, mas conseguimos imprimir o livro. O financiamento do Funcultura só previa dinheiro para a pesquisa. Zero para impressão. Mas essa é outra história que envolve emendas ao orçamento, empenhos e Fundarpe. Nada muito saboroso para se contar ou se ler.

Quinta-feira, dia 23 de janeiro, depois de amanhã portanto, lançaremos O rio que não passa no Gabinete Português de Leitura, na rua do Imperador, com direito a coquetel e recital a partir das 19h. Não tenho dúvidas que o lançamento vai acabar virando uma homenagem a Zé de Mariano, poeta de Tabira, morto no início do mês.

3 comentários - Enviar por email - Imprimir

Balada da Praia dos Cães

Balada_da_Praia_dos_CaesFoi coincidência, nada programado, mas dias antes de Madrugada Suja li outro romance português com uma pegada ainda mais política, travestido de ficção policial. Balada da Praia dos Cães narrado em terceira pessoa, mas sob a ótica de um investigador de homicídios da polícia judiciária nos anos pesadíssimos da ditadura de Antônio Salazar.

Mergulhar na linguagem de Balada, escrito numa linguagem castiça do Portugal dos anos 60, repleta de expressões da época e muito distante do português falado por aqui. Trechos como “… (o homem é de arrasto e segue à maré) e como nisto de viagens à bolina quem no manda são as brisas deixou-se levar na corrente” tornaram lenta e trabalhosa a travessia desse livro, um dos melhores de José Cardoso Pires. Em compensação, ficou fácil fácil encarar a narrativa contemporâneo de Miguel Sousa Tavares.

Deu trabalho, é bem verdade, foi cansativo em vários momentos, mas ler uma obra em nosso idioma como se fosse em língua estrangeira foi como estar dentro da cabeça de pessoas de outra época e outro lugar. E, além do mais, a história é muito bem contada. E isso é o melhor de tudo. Leia mais »

Deixe o seu comentário - Enviar por email - Imprimir

Madrugada Suja

madrugada-sujaHá certa estranheza em ler um autor pela primeira vez. É delicioso não conhecer os artifícios, as manhas e estratégias de um escritor e, mesmo assim, se deixar levar linha a linha, página a página pelo universo que o sujeito criou ou enredar-se todo na mente dos seus personagens. Já embarquei tarde da noite num barco que me levou a uma cidade que, a não ser pelo nome, me era completamente desconhecida. Não havia lua e, do convés, não dava nem para tentar adivinhar as margens e as curvas do rio que subia Pará adentro. São emoções parecidas.

Quando embarquei em Madrugada Suja não havia lido Equador nem Rio das Flores, que aqui no Brasil são os livros mais conhecidos do português Miguel Sousa Tavares. A sensação de tatear no escuro ou tentar adivinhar as curvas do rio não durou muito. Duas dezenas de páginas, no máximo.

Logo, tudo se ilumina. Há luz, cores e afeto rumo ao imprevisível. A viagem com destino incerto prossegue, mas a essa altura já confiava em Tavares, mesmo sem ter tanta intimidade com sua prosa. E a leitura vira prazer, tanto faz o desfecho – destino. Leia mais »

Deixe o seu comentário - Enviar por email - Imprimir

O rei d’além-mar

por Cláudio “Cacau” Machado

Moçambique placaDois meses em Moçambique. No meio daquela temporada de trabalho logo no início do segundo semestre deste ano, havia uma etapa do projeto em Nampula, duas horas vôo ao norte do país.  De lá tive de ir à Ilha de Moçambique para uma série de reuniões e oficinas. Melhor impossível, queria mesmo conhecer a lendária Muipiti, que muito antes da chegada dos portugueses já era ponto de passagem de navegadores árabes e comerciantes indianos.

A Ilha toda é considerada patrimônio mundial pela Unesco, pela sua importância histórica e cultural. Um enclave que foi o mais importante entreposto português durante o período colonial na rota para o oriente.

Depois de Vasco da Gama marcar passaram por lá ilustres como Tomás Antônio Gonzaga, São Francisco Xavier, Camões. A lista é extensa e inclui Gilberto Freyre. Leia mais »

Deixe o seu comentário - Enviar por email - Imprimir

O blog está em pausa. O editor não.

pausa-redondeza_318-26618

Parcos leitores,

Reorganizar a vida não é coisa fácil não. Chega o momento em que tudo que o sujeito anda articulando por meses acaba dando certo. Então, o sujeito tem que dar conta do recado para não se queimar (ou pelo menos escolher com quem pode e deve se queimar) nem deixar os outros na mão.

Estou com muito trabalho, apesar disso continuo lendo, mas sem tempo para escrever sobre. Desde a publicação da última postagem, tracei:

Balada da praia dos cães, de José Cardoso Pires. Livro difícil por causa da linguagem “portuguesa” dos anos 1960, que serviu de aquecimento e preparativo para o que viria a seguir.

Madrugada Suja, livro arretado do português Miguel Sousa Tavares, enviado pela Companhia das Letras.

Yoga para quem não nem aí, de Geoff Dyer. O autor é cult, mas o livro é bonzinho, se muito.

O esqueleto da lagoa verde & Vietnã: advertência aos agressores, duas reportagens de Antônio Callado publicadas numa velha edição da José Olímpio. Mercadoria de primeira qualidade.

Marcas de nascença, romance policial bastante razoável de uma tal Sarah Dunnant.

Tablóide americano, tijolo do corajoso e implacável Jamel Ellroy.

Ou seja: estou em dívida, mas hei de pagá-la. Assim espero. A ausência é coisa de quem faz blog sem receber um tostão por isso.

Deixe o seu comentário - Enviar por email - Imprimir

Leão-de-chácara

Leão-de-chácara.João.AntonioChamar aquilo de sebo seria um evidente exagero. Era, no máximo, um depósito de livros velhos, mofado, desorganizado, com prateleiras onde reinavam os didáticos e as sobras. Comecei o garimpo para tentar encontrar alguma coisa capaz de reluzir naquela minúscula Serra Pelada,. Num lugar assim, o preço compensa a trabalheira achar o que preste.

Folheei a edição capa dura, azul, do Círculo do Livro, de Perus, Malagueta e Bacanaço. O nome do autor me era completamente estranho. Já o título, de tão sonoro e musical, parecia familiar. O que eu lia nos parágrafos aleatórios era, sem tirar nem pôr, exatamente o que via ali perto da esquina da Vitória com a Triunfo: putas derrubadas a preço de bola de goma, cartazes de shows de sexo explícito com ou sem travestis, letreiros de sauna mista nas fachadas dos muquifos.

O lugar mais apropriado do planeta para se ter o primeiro contato com a obra de João Antônio. Leia mais »

1 comentário - Enviar por email - Imprimir