Multidões de Quixotes

protestonasruas

O que fazer quando o Poder Público passa décadas investindo trilhões para facilitar o trânsito das pessoas que só saem de casa em seus carrões de vidros fechados, mas as lideranças políticas que, no passado poderiam brigar contra isso agora só pensam em fazer acordos com empreiteiras para construir avenidas, viadutos e anéis viários e dizem que isso é desenvolvimento?

Nesse caso, é preciso ir às ruas.

O que fazer quando os milhões de pessoas espremem-se em ônibus que passam horas nos engarrafamentos provocados pelos carrões de vidros fechados, mas o prefeito que outrora poderia lutar contra isso, recusa-se a subsidiar o transporte público ou desagradar os donos dos carrões?

É hora de ir às ruas.

O que fazer quando bandidos com a bíblia nas mãos berram contra a liberdade de amar, contra os direitos das mulheres e tenta impor à sociedade as regras da fé alheia e aqueles que poderiam enfrentá-los estão mais preocupados em não perder o “voto conservador” e minutos de horário eleitoral? Leia mais »

5 comentários - Enviar por email - Imprimir

Cidadania, um projeto em construção

por Laércio Portela

cidadaniaA marcha lenta mas consistente rumo à tolerância e ao respeito às diferenças – com a mudança progressiva das mentalidades e da legislação – ou um caminho de avanços e recuos que, na prática, tem aprofundado o preconceito e a desigualdade entre os brasileiros? Para onde caminha o sentido de cidadania no nosso país? Fazer essas perguntas é mais fácil do que respondê-las.

O exercício, porém, pode nos ajudar a encarar o problema de frente.  Sem as máscaras que as propagandas de todo tipo (política, governamental, de consumo, religiosa) e o entretenimento nos impõem. Sem nos deixar levar também por aqueles que interditam o debate. Para quem o silêncio é a forma mais sofisticada de defender privilégios.

Pequenas pílulas de reflexão podem ser encontradas no livro Cidadania, um Projeto em Construção – Minorias, Justiça e Direitos,  publicado pelo selo Claro Enigma, do grupo editorial Companhia das Letras. Organizada pelos cientistas sociais André Botelho e Lilia Moritz Schwarcz, a publicação traz 11 artigos sobre justiça, religião, racismo, segurança pública, política de gênero, homossexualidade e povos tradicionais da Amazônia, entre outros temas. Leia mais »

3 comentários - Enviar por email - Imprimir

Espalitando, de Paulo Bono

O blogueiro baiano, flamenguista e gordo (é muito defeito para uma pessoa só), Paulo Bono, vai lançar na próxima semana seu primeiro livro, Espalitando. Minha modesta pessoa escreveu o prefácio e ajudou um tiquinho na seleção dos textos. Sinceramente, recomendo o evento para todos que estiverem em Salvador no dia 4 de junho. E recomendo o livro a todos de qualquer lugar e a qualquer tempo.

Paulo Bono é bom todo, apesar de ser baiano, flamenguista, gordo. E publicitário.

Como meu tempo está curto por esses dias, reproduzo o prefácio de minha lavra:

convite Paulo BonoNão acredite em tudo que Paulo Bono diz. A frase “isso não é literatura” no alto do seu blog é descaradamente mentirosa. Aposto que ele a colocou por não se levar a sério, para não se cobrar nem se sentir cobrado. Basta a impressão de um livro para emprestar ares de perenidade ao que parecia ser uma brincadeira. Publicado, ele está exposto, o enunciado de quatro palavras já não poderá esconder o escritor atrás do disfarce de blogueiro.

Nos contos quase crônicas – ou crônicas quase contos – desse livro, o leitor não irá encontrar o equilíbrio que o discurso midiático e o formato jornalístico disseminado transformaram em padrão para as narrativas. Paulo escreve com a febre e o tesão dos apaixonados. O que ele faz é, sim, literatura, por mais que tente negar.

Sua linguagem é o idioma visceral e mal educado das ruas, da gente que não aceita a polidez, a assepsia e a falta de molho com que se fala nos capítulos das novelas, nas revistas semanais e nas reuniões de gente que se considera respeitável. Um jeito de falar português conhecido por todos, disponível a todos, porém invisível nos espaços públicos, oficiais ou não, reais ou virtuais. Leia mais »

1 comentário - Enviar por email - Imprimir

Marighella

Marighella.capa_.MarioMagalhãesRecebi e-mails avisos, releases e convites para uma oficina aqui em Recife sobre como escrever biografias. O minicurso acontecerá por esses dias e o ‘professor’ será o escritor Fernando Morais. Como ele é um bambambã do assunto, os organizadores vão cobrar a bagatela de R$ 250,00. Nada contra um sujeito que escreveu Olga, Chatô e o ótimo Corações Sujos, mas, como acredito que ler coisas boas é a melhor receita para aprender a escrever bem,  dispenso o convite.

E apresento uma sugestão para os interessados aos apredizes ou candidatos a aprendizes: leiam com atenção da primeira à última página Marighella o guerrilheiro que incendiou o mundo.

Da “primeira à última página” não é modo de dizer. Além de fazer um trabalho minucioso, responsável e, visivelmente, apaixonado, o jornalista foi de uma generosidade e honestidade ímpares: em anexos ao final do livro, as notas detalham exatamente como, onde ou com quem ele obteve e verificou cada informação.

Leia mais »

Deixe o seu comentário - Enviar por email - Imprimir

Avante, Siba!

por Samarone Lima

siba-avantePeço licença ao Caótico, do amigo Inácio França. Vou escrever algumas linhas não sobre um livro, como é tradição por aqui, mas de um CD, recém lançado, do cantor e compositor Siba.

O disco se chama Avante. Tem 11 músicas, todas de autoria dele. É um timaço.

Mas gostaria de destacar a poesia de Siba.

Vejamos esta pequena jóia:

 

Um verso preso é um tiro

Que a arma não disparou

Pois o gatilho emperrou

E o tambor não deu o giro

Se escuta só o suspiro

De alguém que escapa assombrado

E o atirador, frustrado

Remói a raiva no dente

Sentindo o mesmo que sente

Alguém que foi baleado.

(Um verso preso)

Leia mais »

Deixe o seu comentário - Enviar por email - Imprimir

O crítico, o escritor e Tangolomango

Raimundo CarreroA internet possibilitou uma intensa e rara discussão entre um dos mais celebrados escritores brasileiros, Raimundo Carrero, e o jornalista, professor de Comunicação e crítico literário Cristiano Ramos. O debate durou  um dia, quase 25 horas. Foi o bastante, mas espero que seja o primeiro de muitos – não necessariamente entre os dois – estimulado por críticas honestas.

Quem bateu o centro foi Cristiano, rosto bastante conhecido dos tempos de apresentador do Opinião Pernambuco do canal 11, programa em que jamais tentou aparecer mais que os entrevistados. Em sua coluna sobre literatura no portal Leia Já ele escreveu sua crítica ao novo livro de Raimundo, Tangolomango.

Em um ambiente onde imperam resumos de livro, releases de editoras publicados como se fossem resenhas, amigos que elogiam amigos hoje para receber elogios amanhã nas páginas de jornais e de uma ou outra revista, Cristiano teve a honestidade de expressar com clareza que não gostou o livro. E disse o porquê. Leia mais »

8 comentários - Enviar por email - Imprimir

Para ler como um escritor

para_lerO método utilizado por Francine Prose em seu Para ler como um escritor não é novo, mas ainda é pouco conhecido entre frequentadores e professores de oficinas de criação literária no Brasil. Não é para menos.

Em vários momentos do livro, a autora, que já foi professora de literatura e ministrou suas próprias oficinas, assegura que ler um bom livro é mais útil para quem pretende escrever do que todos os cursos e oficinas que existem por aí.

Prose utiliza os recursos e conceitos de uma escola chamada new criticism. Em linhas gerais, propõe a leitura de um texto literário com foco naquilo que está escrito, sem considerar contexto social, circunstâncias políticas ou o próprio ambiente do autor. Numa conversa recente, botei o assunto no papo e Raimundo Carrero foi taxativo: “É um negócio reacionário da porra”. Leia mais »

2 comentários - Enviar por email - Imprimir

A jornada do Araripe e a inveja do blogueiro

Carroça do EncantadoO pessoal da empresa que está cuidando da comunicação do SESC manda um e-mail e um pedido para que eu publique algumas linhas sobre a programação da Jornada Literária Chapada do Araripe. Publico sim, Nilton, não tem problema nenhum, pode mandar. Fotos? Sim, mande porque eu tô com preguiça de procurar. Foi o que respondi sem sinceridade e cheio de inveja.

Mal sabia o assessor de imprensa do quanto gostaria de ver meu nome na programação.

As jornadas literárias do SESC são uma delícia e deixam um rastro de inquietação e beleza nas cidades por onde passam, cumprindo um papel que o poder público não cumpre por falta de vontade e criatividade. Em outubro passado fiz a mediação de duas mesas, incluindo a de abertura da Jornada Literária do Sertão, que, curiosamente, aconteceu em Buíque, no agreste. Leia mais »

4 comentários - Enviar por email - Imprimir

Como se fosse ontem (quinze)

FOTOS AÉREAS DO PAÇO MUNICIPAL DE SÃO BERNARDO DO CAMPOJamais havia dado a uma mãe a notícia que seu filho havia sido assassinado. Reinaldo Seriacopi também não. Mas sempre há uma primeira vez para tudo.

O plantão do final de semana como repórter do Diário Popular me levou a São Bernardo do Campo. Para chegar lá, antes passei por Diadema. Quatro rapazes foram assassinados numa avenida escura na divisa entre as duas cidades, talvez na Serraria, talvez num bairro chamado Casa Grande. A essa altura, isso não faz muito diferença para a narrativa. É que sou apegado demais a detalhes.

Os moleques, todos novinhos, com mais ou menos 17 ou 18 anos, já estavam varados de balas quando alguém achou estranho um carro com as luzes apagadas e uma das portas abertas, parado no maior breu. Todos tinham documentos, era gente que estudava e trabalhava. Um deles porém costumava comprar um baseadozinho inocente ou, quem sabe, também um pozinho branco que compartilhava generosamente com o resto da turma. Leia mais »

7 comentários - Enviar por email - Imprimir

Correr

correr-echenoz-jean-1154-2880659-GQuando corro não penso em nada. Talvez o que aconteça não seja exatamente isso. Talvez pense em muitas coisas, mas tudo bem fragmentado, pedacinhos de recordações, sentimentos, certezas, dúvidas, medos, tudo tão pequeno e misturado que é impossível juntar. O cérebro deve ir jogando tudo fora, afinal quando se corre o mais importante é dar o próximo passo, e o próximo, e o próximo.

Ao final dos cinco quilômetros, o máximo a que me proponho, a mente está descansada, mais leve, pronta para lidar melhor com o que virá.

Talvez isso ajude a explicar Emil Zatopek. Na novela Correr, do francês Jean Echenoz, Zatopek bateu perna primeiro para diminuir o peso que era viver sob o poder dos nazistas, depois para suportar ou resistir ao socialismo real.

Na ficção ou na história, o tcheco era sorridente, alegre e solidário. Ler isso me remeteu ao entorno da linha de chegada das corridas de rua, onde o que não falta é gente suada abrindo largos sorrisos e interessada nas condições físicas ou no tempo dos outros, amigos ou simples conhecidos. Leia mais »

1 comentário - Enviar por email - Imprimir