por Arsênio Meira Júnior
De Mário Quintana, Paulo Mendes Campos reconheceu que, por amar tanto a poesia do colega gaúcho, os versos nem precisariam estar “impressos em tinta e papel: eu os carrego de cor, e às vezes brotam em mim como se fosse meus”.
Aclamado pelo público, pouco conceito angariou pela crítica (o que demonstra o grau de estupidez da dita-cuja), talvez porque tenha sido o poeta das reticências ou pouco inclinado aos temas dito profundos ou pseudo-profundos, ou ainda, desligado das panelinhas literárias, onde os medíocres se deleitam com seus achados embusteiros e calhordas.
Mário Quintana era um homem avesso a ênfases – no escrever, no falar, no proceder. Mas escreveu sobre temas banais e não-banais e conseguia extrair de todos os cálices uma dimensão mais ampla, transformando essas vivências em metáforas com entonações simples e significados belíssimos, todos providas de uma substância que só é acessível para pessoas com imenso grau de sensibilidade.
O livro 80 anos de Poesia, uma seleção que abrange poemas pinçados de todos os seus livros, em bem apanhada edição da editora Global, nos remete à conclusão de que em termos de tema e tom, predominam recortes pungentes de cenas urbanas em registros irônicos ou sutis, enquanto em termos formais domina o prosaísmo coloquial de extração modernista, com exceção dos seus deliciosos sonetos, tão ao gosto de um neo-simbolismo mais abonador do que depauperado.
Queiram ou não queiram os críticos, não faltam méritos a Quintana. A possibilidade da hecatombe nuclear, como não podia deixar de ser, sensibilizou a Quintana, gerando vários poemas. Poesia é emoção inteligente, ou inteligência emocionada.
Mas não se trata aqui, bem entendido, de exigir que o poeta só se refira a grandes temas ou episódios, menosprezando os outros – uma formiga trazendo o frêmito da vida à página em branco era um poema para Quintana, quanto um mosquito fazendo sombra de lira em outra, era também material poético para Vinicius – pois ao público e ao leitor interessam muitos temas, abordagens e formas.
Em Quintana, uma das surpresas é a exclusão voluntária a que o poeta se submeteu, como se isso pudesse atrapalhar a sua poesia ou como se ele não estivesse preparado para abordar poeticamente assuntos mais complexos, superando, assim, a província com a qual vivia e conviva extraindo dela também forte aparato para sua poesia.
Eu nada entendo da questão social.
Eu faço parte dela, simplesmente…
E sei apenas do meu próprio mal,
Que não é bem o mal de toda gente,
Nem é deste Planeta… Por sinal
Que o mundo se lhe mostra indiferente!
E o meu Anjo da Guarda, ele somente,
É quem lê os meus versos afinal…
E enquanto o mundo em torno se esbarronda,
Vivo regendo estranhas contradanças
No meu vago País de Trebizonda…
Entre os Loucos, os Mortos e as Crianças,
É lá que eu canto, numa eterna ronda,
Nossos comuns desejos e esperanças!
Ele tinha o gosto pela matéria simples da vida, traço que marcaria toda a trajetória do grande poeta gaúcho.
A poesia de Quintana é a humanidade posta em verso.
Daí seu humor não apresentar o traço racional, intelectualizado (o que talvez explique a birra da “crítica), e que traduz uma visão chapliniana do mundo, não distanciada da que teria o homem comum.
Em permanente “estado poético” Quintana não escolhia assunto: todos lhe serviam, tudo era lirismo poético na sua percepção feiticeira.
E, convém não esquecer que é de sua lavra uma das mais belas, gigantes e suscitas definições do relacionamento amoroso: “O amor é quando a gente mora um no outro”.
Ao fazer poesia como quem respira, Quintana não se situa, como poeta, acima dos demais ou fora do mundo.
Ao contrário, sendo um entre outros (“Eu nada entendo da questão social./ Eu faço parte dela, simplesmente…”), como dirá, ele se dilui no contexto geral.
Assim, o social, em Quintana, não está designado pelo poema: é o poema. Portanto, mesmo que tenha tentado excluir-se dos temas sociais, ele não conseguiu.
Em determinado dia, Quintana declarou: “Pertencer a uma escola poética é o mesmo que embarcar num barco que pode ir ao fundo, quando esta escola sair da moda. O melhor é cada um no seu barquinho, e talvez alguns consigam chegar à outra margem. Isto é: à posteridade”.
Ele, com seu barco imenso de poemas, não precisou da crítica e conseguiu chegar do outro lado da margem.
Clique aqui para ler um poema de Quintana nos Trechos Arretados
Dedico este texto a Inácio França, Léa Cavalcanti e Magna Santos, amantes da boa literatura

16 Comentários
Muito bem analisado Inácio. Quintana. Poeta para sempre. Tenho esse exemplar. Recomendo. Abraços
Não fui eu quem analisei não, foi Arsênio…
De qualquer forma, muito bom.
Abraços,
Arsênio, muito obrigada. Obrigada por esta lembrança e pela presença sempre atenciosa naquele canto despretensioso, onde deixo minhas palavras. Na verdade, tenho um gosto pela poesia, por achá-la imprescindível. Creio que eu não seja exatamente amante, busco ser ‘amiga’, sobretudo, deles – os queridos poetas – tão necessários à saúde da nossa humanidade. Os amantes sempre têm algo de passional, de “feroz” no seu sentir. Ando em busca mesmo da serenidade, talvez a que alcançou Quintana, pois foi também amigo da simplicidade. E acredito muito que este é um caminho seguro.
Não tenho propriedade para falar sobre poesia, por isto mesmo, é bom demais ler estas palavras sobre este poeta que amo e com o qual preciso aprender tanto. Quintana tinha um humor maravilhoso, por vezes tão afiado como uma lâmina. Penso que seu amor pela liberdade, reflete no fato de não se deixar incluir em nenhum estilo, deixando-o também capaz de dizer o que pensava sem pudores. Assim, ele falava de Deus com a mesma propriedade com que dizia o que pensava sobre as pessoas. E desse modo ía vivendo…como passarinho, considerando porém:
“Esta vida é uma estranha hospedaria,
De onde se parte quase sempre às tontas,
Pois nunca as nossas malas estão prontas,
E a nossa conta nunca está em dia”.
Mais uma vez, obrigada, Arsênio.
Abração!
Magna
Pra variar, muito bom reler alguns versos de Quintana e uma análise bacana aqui no Caótico.
Valeu.
Ah, o velho Quintana e sua Poesia maior do que tudo. Valeu Arsenio !
Foi realmente uma excelente contratação, o Arsênio. Espero que ele esteja recebendo em dia, porque está trabalhando mais que o dono da empresa.
Samarone
Noturno
Aquela última janela acesa
No casario
Sou eu…
__________
De Mario Quintana.
Não é lindo?
E ainda tem forma e cor.
Lea
Li Voltaire traduzido por Mario Quintana.
Me emocionei e adorei.
Agora já não sei se foi culpa do autor ou do tradutor.
Lea
Para Magna: obrigado e você tem autoridade para falar sobre poesia sim. E a palavra amante pode siginificar, inclusive, calmaria ou persistência, sem necessariamente a passionalidade, pois o próprio Quintana decretou: “só em linguagem amorosa agrada
a mesma coisa cem mil vezes dita.”
Lea, mandei um e-mail pra você.
A todos e a Sama, o agradecimento pela leitura. Quintana Merece.
Arsênio, meu amigo, você está coberto de razão, aliás, de razão e de poemas (perdão pela redundância). Amante também é quem ama, não é? Pois então sou.
Aquela história que falei no ‘Quemeros’ do homem que come poemas… O que vou mais dizer? Nada. Tenho pra mim que falo demais. Melhor mesmo calar. Porém, para não perder o costume, vou deixando aqui algo que acabo de descobrir neste mundo virtual: um site sobre escritores (http://www.releituras.com/mquintana_bio.asp). Pra variar, mais beleza, e que beleza!
Abração!
Magna
ESPERANÇA (Mário Quintana)
Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…
Por isso é que eu digo: tem propriedade pra falar de Poesia, a nossa Magna. E do que bem entender.
O releituras é show de bola.
Mando estes breves poemas pra você e para o blog, do saudoso Cacaso.
Um dos herois da poesia marginal. Que pra variar, partiu cedo.
Abraços
“Descartes
Não há
no mundo nada
mais bem
distribuído do que a
razão: até quem não tem
tem um pouquinho”
“Lar doce lar
(para Maurício Maestro)
Minha pátria é minha infância:
por isso vivo no exílio”
Que lindo Magna.
E lembrei que na passagem de 2009 para 2010 fiz uma brincadeira, me vesti de verde e repetia para todos que estava vestida de esperança, como ela (a esperança) era a última que morria ao mesmo tempo era a primeira que nascia. Celebrava assim o nascimento de um novo ano, comparado ao de uma criança, repletos de esperança.
E agora você me apresenta essa bela poesia, que certamente vou utilizar na passagem deste ano para o próximo. Obrigada.
Lea
Valeu Arsênio.
Arsênio, não vou mais teimar com você, degustador de poesia. Estes poemas…geniais! Obrigada, de novo.
Lea, agradeçamos a Quintana. Quando me deparei com este poema, fiquei de boca aberta e olhos marejados, minto, chorei mesmo. Sou um “prato de papa”, não tem jeito…se Deus quiser, não terei jeito. Sinceramente, fico sempre impressionada com a capacidade dos poetas em enxergar o que não enxergamos, em dizer o que precisamos, o que, na verdade, a humanidade precisa. Deus é Pai.
Este poema vai ficar guardado junto comigo, vou colocá-lo no meu mural e lê-lo de quando em vez. Quem sabe na passagem deste ano, seremos duas vestidas de verde ou, se quisermos todos, seremos mais. Só me vai faltar os olhos verdes, mas lentes de contato coloridas eu me recuso a usar.
Beijos em vocês!
Magna
Um dos meus filhos, que não gosta muito de ler, aprendeu a gostar de Quintana bem cedo e adora poesia. Quando ele era pequeno eu lia para ele poemas do Quintana. Um que ele adorava era esse: “Era uma vez duas pulguinhas que trabalharam tanto, mas trabalharam tanto, que compraram um cachorro só para elas!”
Genial! Bj em todos.