A Divina Comédia: o Inferno

Acabo de sair do inferno. O famosíssimo Inferno de Dante Aliguieri.

Em tudo que li ou ouvi falar sobre A Divina Comédia há referências sobre o sentimento de angústia que toma conta quem conheceu os horrores do inferno imaginado pelo poeta. Realmente, a viagem pelas valas, círculos, penhascos, fossos e rios infernais não são exatamente um domingo no parque, mas também não é coisa para ficar tão horrorizado assim.

A verdade é que me diverti bastante com os castigos que atormentam os pecadores de Dante, a maioria gente que o poeta conheceu em sua Florença natal ou nas cidades vizinhas. Gente que ele não gostava, seus inimigos do partido adversário – os gibelinos – ou do seu próprio grupo político, os guelfos. Dante se vingou botando esse povo todo  no inferno e revelando seus podres em versos. Um sacana genial do tal do Dante.

A edição da Comédia que estou lendo é a da Editora 34, que parece ser a melhor tradução em português. O tradutor, Ítalo Eugênio Mauro, ganhou um Jabuti por conta desse trabalho há 10 anos.

E, para quem pretende ler a obra, duas recomendações: a) ignore as edições em prosa, a Comédia original é um enorme poema; b) não pule o prefácio e a introdução, inclusive um diagrama que ajuda a visualizar o Inferno como uma  espiral que acaba no buraco onde está Lúcifer, o manda-chuva (ilustração abaixo). Aliás, na imaginação de Dante, o dito-cujo não vive numa caldeira fervente, mas numa caverna gelada.

Mesmo com tanta ajuda, a leitura só começou a fluir tranquilamente mais ou menos do Canto VII em diante– são 34 cantos que compõem o Inferno. Minha maior dificuldade foi a ordem no qual cada verso é escrito. Por exemplo: “vela de mar vira eu jamais tamanha” e não ‘eu jamais vira tamanha vela de mar’, como diríamos no século XXI. Mas é questão de costume, quando me habituei, a coisa ficou divertida.

Para se manter o mais próximo possível do original, o tradutor também teve que recorrer a um vocabulário muito rico, com muitas palavras de pouco uso no português coloquial. Recorri 58 vezes ao pai-dos-burros para encontrar o significado de palavras como “infida” (infiel), “mesta” (que causa tristeza) e de outras 56.

A criatividade Dante Alighieri era imensa. Os castigos que ele inventou para cada uma das cateogorias de pecados têm uma lógica muito inteligente, como se fossem um reflexo invertido e doloroso da vida pecaminosa na Terra.

Os adivinhos, considerados pecadores pela igreja porque essa era uma prática aos oráculos e pitonistas da tradição Greco-romana, eram obrigados a passar a eternidade andando sem parar com a cabeça torcida, olhando sempre para trás. Ou seja, sem poder, jamais, olhar para a frente, para o futuro. Os gastadores e os unha-de-fome pagavam seus pecados no mesmo local e seus castigos eram complementares. Ironia fina do autor.

A atmosfera do Inferno é tenebrosa mesmo, com monstros horríveis – alguns deles copiados até hoje por Hollywood -, mas é apenas cenário para o sarcasmo de Dante, que debocha dos seus conterrâneos e contemporâneos de forma tão impiedosa quanto duradoura. Setecentos anos depois, cá estou tomando conhecimento das pilantragens dos fiorentinos do século XIII. Como no trecho abaixo:

“Alegra-te, Florença, que és tão grande

Que as asas bates por terra e por mar,

E pelo Inferno o teu nome se expande!

.

Entre os ladrões, cinco pude encontrar

Teus filhos, o que, a mim se traz vergonha

Nem com grande honra te deixa escapar”

Sabe-se lá como, mas o fato é que Dante tinha a exata noção que escrevia uma obra-prima a ser lembrada no futuro. Durante a viagem pelo Inferno, guiado pelo poeta latino Virgílio, ele promete àqueles personagem que encontra pelo caminho a garantia de que suas versões daquilo que viveram seriam reconhecidas pela posteridade. Isto, caso eles lhe contassem suas respectivas histórias. Desde a Idade Média, os homens já buscavam a fama.

Com artifícios como esse, o poeta compõe a crônica do seu tempo, interpretando e analisando aos fatos do seu tempo, como as raízes da riqueza do Vaticano, para ficar só em um exemplo.

O mais genial é o poder de síntese, a concisão com que Dante conta tudo isso no formato que ele mesmo criou: estrofes de três versos, onde o primeiro rima com o terceiro, enquanto o segundo rima com o primeiro verso da estrofe seguinte. E assim sucessivamente. Dá para ter ideia do esforço e do talento do tradutor, para manter as rimas e a métrica originais em outro idioma.

Agora, depois de ler mais uma aventura de Maigret para mudar um pouco de ares, estou preparado para subir a montanha do purgatório.

Sobre o poeta

Dante Alighieri nasceu em 1265, em Florença, e morreu em 1321, em Ravena, logo depois de concluir o Paraíso, a terceira parte da Comédia, que só receberia o adjetivo “divina” uns dois séculos depois. O poeta casou por acerto dos pais, com uma mulher chamada Gemma, mas ele era doido mesmo por Beatrice. O detalhe é que ele conheceu a sua musa eterna com nove anos de idade, quando ela tinha apenas oito. A fixação do sujeito era tão marcante que sua filha Antonia virou freira e, no convento, adotou o nome de… Beatrice.

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5 Comentários

  1. Publicado 15 de abril de 2010 em 21:00 | Permalink

    Aos interessados:

    quem irá receber e comentar o livro DELACROIX ESCAPA DAS CHAMAS é:

    Antônio Lino Jr e Lilian Alcântara. Fiz o sorteio e fotografei tudinho.

    Entrarei em contato por e-mail para solicitar os endereços.

  2. Publicado 16 de abril de 2010 em 3:50 | Permalink

    Fiquei muito feliz com o sorteio. Ah, A Divina Comédia é um dos livros que pretendo ler ainda, mas não num futuro próximo pois a fila está bem grandinha…

  3. Publicado 16 de abril de 2010 em 15:24 | Permalink

    Sofri mesmo foi com as notas de rodapé. Sei que elas são importantes para entender o contexto do poema. Mas, nossa!! É chato demais parar a cada estrofe para ler o rodapé…

  4. Samarone
    Publicado 16 de abril de 2010 em 17:21 | Permalink

    São duas alegrias que tenho em 2010. Li a Divina Comédia de cabo a rabo, achando deslumbrante, e agora vou terminando o segundo volume do Dom Quixote, letamente, saborosamente. Depois vou mergulhar no “Demônios” de Dostoievsky.
    Saludos,
    Samarone

  5. Samarone
    Publicado 16 de abril de 2010 em 17:21 | Permalink

    lentamente, pois.
    sama

2 Trackbacks

  1. [...] verdade que já estava com a cabeça cansada depois de atravessar os milhares de versos do Inferno e do Purgatório, mas não dá para descartar a possibilidade de que este que vos escreve não [...]

  2. [...] por Macedo.Fiquei me perguntando: será que o pós-modernismo nasceu no século XIV? Afinal, na Divina Comédia Dante também confundia narrador e autor, além de ter recorrido a uma personagem histórica, o [...]

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