A Divina Comédia: o Purgatório

Passei a infância escutando as possibilidades de ir parar no céu ou no inferno. Em casa ou na escola, era a mesma ladainha. Lembro de uma noite, voltando para casa num dos muitos Fuscas que papai teve, que pensei ter carimbado minha passagem para as profundezas quando, com uma frase categórica, encerrei um debate familiar sobre ir ou não a um aniversário que atrapalharia a ida à igreja no domingo à noite: “Missa é uma merda!”. Tinha uns 11 anos e era um menino sincero, porém desprovido de qualquer senso de oportunidade.

A reação dos meus pais e da minha querida vó Dolores só não me levou à depressão porque, pouco antes, já tinha sido informado a respeito do purgatório. E a proposta me pareceu interessante: não precisaria andar todo certinho, cumprindo infinitas obrigações e pré-requisitos para garantir uma vaga imediata no céu. Com um pecado ou outro, iria ao purgatório, ficaria zanzando por ali para, depois, dar um jeito de subir de divisão.

O problema é que o purgatório não goza de muito prestígio. O imaginário popular, a literatura, o cinema e os textos religiosos são ricos em imagens do inferno e do paraíso. Não faltam, por exemplo, piadas sobre a entrada do céu guardada por São Pedro. Olhando para trás, acho que eu imaginava o purgatório como um vôo quase eterno num boeing lotado, com todas as poltronas do meio ocupadas, aeromoças feiosas servindo suco de maçã ou de pêssego em caixinha. Uma ou outra escala, só para descer o pessoal com os pecados já quitados. Por analogia, o inferno seria uma viagem eterna com oito pessoas suadas, dentro de um Fiat Mille sem ar-condicionado, pelas rodovias de Minas Gerais.

Por causa dessa quase absoluta falta de imagens do Purgatório, iniciei com muita curiosidade a leitura da segunda parte da Comédia, doido para saber como Dante imaginou e construiu sua visão desse lugar de expiação dos pecadores, cujas respectivas almas ainda tinham condição de serem salvas.

Longe de ser especialista no assunto, arrisco o palpite que, ao escrever o purgatório, o poeta estava na ponta dos cascos. O início e a parte central dos 33 cantos, até pertinho do final, têm um ritmo intenso, com Dante afinado, devidamente aquecido pelos anos em que ficou dedicado ao Inferno.

As recorrentes equivalências entre pecado e pena, comumente citadas no Inferno, são ainda mais sutis e sofisticadas no purgatório. Os orgulhosos, por exemplo, tomam lições de humildade obrigados a carregar uma pedra enorme na nuca, de modo que fiquem sempre olhando para o chão.

O miolo da Divina Comédia é repleto de lirismo, com trechos de uma beleza imensa, como neste trecho do canto VIII, quando o poeta/personagem, em sua longa jornada, sente saudades do lugar de origem:

Era já a hora que volve o querer

Do navegante, e induz-lhe o coração

O dia da despedida a reviver

Mais adiante, Dante descreve como seria seu encontro com a amada (mais do que isso, a idolatrada) Beatriz, às portas do céu, no topo da montanha do purgatório. Depois de tanta espera, pouco antes de vê-la, já tremia nas pernas, sentindo do “antigo amor a força imensa”. Todo homem apaixonado sabe o que é isso, mas, no canto XXX, o poeta descreve essas sensações com uma intensidade de arrepiar. A  ilustração abaixo, que peguei emprestada de uma página de um museu britânico, é inspirada quase que linearmente nessas estrofes.

Senti pena de Dante, o personagem de si mesmo. Depois de passar pelo passou descendo até o Inferno e subindo a montanha, a moça ainda caga regras como a mais insuportável e moralista das beatas, condenando o sujeito por ele não ter sido leal com sua memória depois de morta. Ou seja, Dante enxerga como pecado quase tudo o que viveu após a morte da mulher que amava, carregando culpas absurdas. É imperdível, possivelmente os versos mais tocantes que já li.

O problema é o que acontece nos três últimos cantos. A leitura começou a ficar aborrecidíssima depois do encontro com Beatriz.

O cristianismo medieval de Dante, impregnado dos mitos gregos, cheio de medos, visões luminosas e alegorias, marca os versos finais do purgatório. Nessa altura, as notas de pé de página do tradutor foram providenciais. Não fossem elas, eu ainda estava empacado em alguns trechos incompreensíveis.

Tenho pouca paciência para epifanias e deslumbramentos religiosos. Se esse for o tom da terceira e última parte, o Paraíso, sofrerei e terei saudades dos muitos cantos do Purgatório em que ele retrata e queixa-se da instabilidade provocada pelas perpétuas guerras entre as cidades-estado que formavam a península da Itália, com o imperador – que administrava os restos do Império Romano – e o Papa cooptando aliados entre as famílias que lutavam pelo poder em cidades como Siena, Milão, Rimini, Ravena e Florença (uma estimulante cidade onde as mulheres eram todas putas, a julgar pelos versos da Comédia) .

Assim como Dante Alighieri admite no canto XIV, eu também sou muito aferrado às fofocas terrenas.

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3 Comentários

  1. Publicado 14 de maio de 2010 em 2:51 | Permalink

    Quando pequena eu achava o inferno algo impossível, não conseguia imaginar ninguém ruim o suficiente para ser queimado em chamas incessantes. Depois passei a achar que ninguém devia ser julgado se não por ele mesmo… e podes imaginar onde isto deu

  2. Arsenio Meira Junior
    Publicado 21 de junho de 2010 em 22:10 | Permalink

    É o seguinte; o inferno não são somente os outros, como queria Sartre; nem nos cabe isoladamente essa primazia.

    O inferno é axé music em dia de soneto…
    Mas vamos lá.

    Tempos atrás, li o que podia, em prosa e verso (traduções…)
    Traçando um paralelo entre dois gigantes: Dante era Cristão. Shakespeare era ateu, e em “A Tempestade” o que não falta são rajadas de blasfêmia.
    Decerto, muito de Dante datou. Pois medievalismo também apodrece.
    Em contrapartida, Shakespeare é integralmente contemporâneo de todos.
    Alguém certa vez escreveu que Dante tratou de colocar todos os inimigos no purgatório, e para os amigos reservou um lugar no maná dos céus…
    É verdade.

    Mas Dante datou em termos. Uma parte de sua poesia sobreviverá até depois do fim do mundo.

  3. lucilene de angelis
    Publicado 27 de janeiro de 2011 em 14:18 | Permalink

    O fato é que o inferno existe e que seremos julgados independente de qualquer coisa ou opinião sobre isto ou aquilo. Quanto às crianças, é interessante a postura delas, pois aquelas que ainda nao entendem nada sobre o porque ir à Missa todo domingo, devem ficar à vontade mesmo. É direito dos pais formar os filhos e transmitir-lhes a fé e o exemplo. Uma boa dica é mudar de paróquia de vez em quando e até de horário para a criança não cansar.
    Também é interessante mostrar o mundo às crianças e dizer porque se reza, porque se presta culto a Deus e contemplar as coisas criadas provando pela observação da natureza que alguém fez tudo isso e é a esse alguém que se reza.
    Se a criança não quer ir à Missa não deve ser forçada, mas ela tem o direito de pelo menos saber porque vai ao local e para que. Aos poucos com a maturidade e o desenvolvimento pessoal aliado à liberdade dela, ela mesma terá muita paz ao decidir sozinha suas escolhas, o que não acarretará nenhuma omissão aos pais na formaçào cristã que ela recebeu anteriormente.
    Daí, vale a pena conversar muito com os filhos para não se chegar ao ponto de chamar a Santa Missa de merda, pois seria uma grave ofensa a Deus, já que em cada Missa o sacrifício da Cruz é renovado. Ali, é Deus vivo mesmo !
    Deus perdoa tudo mesmo, mas não é bom exagerar ….
    bjs aos eternos poetas.

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