A Divina Comédia: o Paraíso

Uma anedota antiquíssima dá conta de que o inferno é melhor do que o céu, pois enquanto o primeiro está cheio de mulher safada, cachaceiro e putaria. O segundo, por sua vez, é um tédio, com suas beatas, anjinhos tabacudos e orações nos três expedientes. Por motivos diferentes, a piada pode ser aplicada à Divina Comédia.

Os 33 cantos do Paraíso são impregnados de misticismo e dos conceitos teológicos e astronômicos que se tinha na Idade Média. O que é uma coisa óbvia, afinal o poema foi escrito há mais de 700 anos. O problema é que, tanto tempo depois, é cansativo decifrar as rebuscadas descrições e metáforas que Dante criou para localizar a posição das almas no céu e a grandiosidade das coisas divinas.

É verdade que já estava com a cabeça cansada depois de atravessar os milhares de versos do Inferno e do Purgatório, mas não dá para descartar a possibilidade de que este que vos escreve não possuir bagagem e inteligência suficientes para entender com tranqüilidade os primeiros 13 cantos do Paraíso. A dificuldade foi tanta que, em muitos trechos, era necessário ler três ou quatro vezes os tercetos para entender o que o poeta quis dizer.

Separei esse exemplo de versos complicados:

“que a divina Justiça, que me inspira

lhe concedeu na mão desse que eu digo,

a glória da vindita de Sua ira.”

Anotei ao lado: “não entendi porra nenhuma”.

As coisas melhoram quando Dante passa a fazer o que sabia melhor: denunciar o papado e a alta hierarquia católica. É quando ele deita e rola. E a leitura fica mais interessante, flui com muito mais facilidade. Sua fé em Jesus Cristo e Deus não é acrítica. Dante não era burro e usava seu talento como arma numa luta incansável contra os poderosos que destruíam a integridade daquilo em que ele tanto acreditava.

Superadas as dificuldades dos primeiros cantos, encontrei estrofes de muita beleza e riqueza a partir do canto XIV. Coisas como:

“E, como quando o crepúsculo gera,

No céu sereno, novas aparências

Que alternam nossa vista em falsa ou vera”

O tradutor

A edição que li (edição de bolso da Editora 34, publicada em 2009) possui centenas de notas de pé de página que são fundamentais para a compreensão dos contextos referidos por Dante. Todas as notas são de autoria do tradutor Ítalo Eugênio Mauro. Aliás, o trabalho desse engenheiro paulista, filho de italianos, é impressionante.

Pelo que li no texto publicado nas páginas finais da edição de bolso e no Dicionário de Tradutores, Ítalo era apaixonado pela Comédia desde criança. Seus pais a recitavam e, adolescente, ele sabia declamá-la de cor e salteado. Nas décadas de 80 e 90, passou  15 anos debruçado sobre o poema, traduzindo diretamente do italiano para o português, obedecendo à métrica e às rimas originais.

Durante a leitura, inúmeras vezes minha mente abandonava as palavras impressas à minha frente e tentava imaginar o velho Ítalo no frio paulistano, catando palavras em dezenas de dicionários e trabalhando os versos para garantir a fidelidade aos versos imortais. Foram 15 anos nesse exaustivo trabalho intelectual.

O mais curioso é que ele nem pretendia publicá-la. Não tinha contato algum o mercado editorial, não era do ramo. Até que o editor Aloysio Leite, da 34, tomou conhecimento do seu trabalho e o publicou em 1998 (ao lado). Em 2000, aos 91 anos de idade, Ítalo ganhou o Prêmio Jabuti de tradução. Foi o mais velho premiado com o Jabuti.

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2 Comentários

  1. Arsenio Meira Junior
    Publicado 24 de junho de 2010 em 13:15 | Permalink

    Inácio, eu li a Divina Comédia com tradução de Hernâni Donato.
    Sou fissurado em poesia, mais até do que em prosa. E a tradução de Donato é em prosa. Li o Paraíso em poesia do mesmo tradutor que você citou em seu artigo.

    Seu post, de maneira jocosa e séria, abordou bem um livro intragável para alguns, e magnifíco para tantos.

    E a anotação: “não entendi porra nenhuma” significa justamente que você vai entender um dia, mas por obra de uma nova releitura ou então algum amigo seu há de explicar-lhe, pois eu igualmente não entendi bulhufas o terceto que você citou.

    Toquei, como dizíamos jogando dominó.

    Mas, tenho breve notas caóticas a respeito do tema.

    Sob a perspectiva do cristianismo de Dante, Cristianismo puro, (daí sua Ira contra as autoridades constituídas da igreja, que desde aquela época cometiam mais pecados que criminosos fichados e detidos), nos permite ver que ele deu vazão ao final kitsch inaugurado pela Ressurreição.

    Os gregos eram trágicos, Os judeus nunca souberem bem o que Jeová ia aprontar: se despejar-lhes a ira ou ou algum milagre em suas cabeças.

    Com o Cristianismo, que está presente em toda a obra Dantesca, parece-me mais uma advertência do tipo: aprendam a receber o legado da vida eterna em estado de êxtase permanente. E tratem de evitar a feitura de alguma merda grande por aqui, e se não souberem pedir perdão…

    Em contraponto, Murilo Mendes, poeta arraigadamente preso ao catolicismo, mas digno de firar entre os dez mais do Modernismo Brasileiro, deu uma lição de humanidade em o MAU SAMARITANO, e um rápido poema, Murilo escreveu tomos e tomos sobre o ser humano, o poema ecoa e ficou marcado pra mim como um exemplo integral de nossa inevitável falibilidade:

    O MAU SAMARITANO

    Quantas vezes tenho passado perto de um doente,
    Perto de um louco, de um triste, de um miserável,
    Sem lhes dar uma palavra de consolo.
    Eu bem sei que minha vida é ligada à dos outros,
    Que outros precisam de mim que preciso de Deus
    Quantas criaturas terão esperado de mim
    Apenas um olhar – que eu recusei.

    Abraços e Bom São João pra você e sau família.

  2. Arsenio Meira Junior
    Publicado 28 de junho de 2010 em 23:30 | Permalink

    Nesse prolongado feriado, em contraponto ao Paraíso de Dante, reli “Crime e Castigo” do nosso Dostoiévski. A esposa ficou parada em Eça – “Os Maias”…

    Mas voltando: O personagem principal, Raskolnikof, dando racionalidade ao seu ato homicida é bem mais contundente, revolucionário, do que muita página de Lacan, Freud e etc. Vai além da mera justificativa do crime. Põe a moralidade numa latrina, e as convenções vão igualmente para o ralo. Não se tem notícia de qualquer criminalista ou sociólogo que tenha escrito antes o que Fiodor entendeu. Nem Ferri, nem ninguém.

    Raskolnikof inaugurou o capítulo do homem moderno, ou seja, aquele que calcula o próprio destino. Ainda que nem tuda saia como planejado (o que dá ensejo ao outro assassinato que ele perpetra.)

    Esse desdobramento produz no leitor bem posto uma consciência trágica daquilo que chamaos destino, de que o alheio sempre pode ser interpor entre nós, combatendo as sandices do nosso intelecto.

    A parte chata é quando Dostoiévski cede ao sentimentalismo. Lá pras tantas, entra em cena Sonya, e o duo remorso x redenção toma conta do livro, que à parte esse breve interregno folhetinesco, é imortal.

    Ainda há os IRMÃOS KARAMAZOV…

    Esse Russo vale por um Painel de 300 anos de Literatura. Sozinho.

Um Trackback

  1. Por Links de sexta - 17ª edição | 365 dias em 25 de junho de 2010 às 8:40

    [...] Literatura – A Divina Comédia: o Paraíso [...]

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