A Grande Guerra pela Civilização

robert-fisk-capaTenho pena de quem tenta entender alguma coisa do que acontece no Oriente Médio acompanhando os telejornais das TVs brasileiras ou matérias publicadas nas revistas semanais ou jornais.

Basta a leitura de um capítulo, qualquer um dos 23 capítulos, do livro A Grande Guerra pela Civilização – A Conquista do Oriente Médio, do inglês Robert Fisk, para ter ideia do estelionato que é praticado diariamente pela imprensa brasileira contra seu público, felizmente a cada dia mais escasso.

Ainda não terminei o livro, um tijolo de 1417 páginas. Cheguei à página 945, agora faltam só 472. Ou seja, já dá para compartilhar um monte de coisas, um monte de descobertas que dão a sensação de ter sido iludido durante anos por manchetes e chamadas.

Li na Internet alguns textos que destacam o fato de Fisk ter entrevistado três vezes Osama Bin Laden.  Outros resenhistas gostam de lembrar quando ele foi espancado por refugiados afegãos em 2003. E, depois, disse que compreendia o sentimento de seus agressores e que talvez fizesse a mesma coisa se fosse um muçulmano diante de um ocidental.

O que me chama atenção em Fisk, porém, é sua postura diante do universo da cultura árabe e do islamismo. Ele tenta enxergar o mundo pelos olhos dos outros, ou seja, sem desumanizá-los ou pré-julgar. Na narrativa de Robert Fisk não há espaço para caricaturas. Ele não tenta folclorizar pessoas tão diferentes daquelas da sua Inglaterra.

Nos capítulos dedicados à Guerra Irã-Iraque, é angustiante tentar, junto com o autor, entender como funciona o espírito e os sentimentos de meninos iranianos de 10, 12 anos que se preparam para morrer como mártires em missões suicidas nos campos minados pelo exército de Saddam Hussein.

Aqui está uma das “descobertas” do leitor: a guerra começou quando o Iraque, apoiado pela auto-intitulada “turminha do bem” (Estados Unidos, Inglaterra, Arábia Saudita…), invadiu o Irã. Eu tinha 12 anos quando essa guerra começou e lembro muito bem de Sérgio Chapelin e Cid Moreira “explicando” que a guerra começou por causa de um  “conflito de fronteiras” na foz de um rio chamado Chat-el-arab. Descubro agora, já quarentão, que nunca houve “conflito de fronteiras” nenhum. Foi agressão mesmo, tentativa de roubar uma porção de outro país e de derrubar o novo governo islâmico dos xiitas do Aiatolá Khomeini.

Os aiatolás tinham derrubado o xá Reza Pahlevi, um imperador puxa-saco do ocidente, que chegou ao poder depois de um golpe de estado organizado pela dupla USA+Reino Unido, incomodados com um governante que insistia em nacionalizar o petróleo iraniano.

As TVs ocidentais, brasileiras inclusive, se juntavam ao esforço para forjar as mentalidades e dar um jeito para a história ser contada do jeito que interessa aos brancos e cristãos.

Recordo também que, depois de alguns anos, a guerra evaporou do noticiário. Sumiu, tomou doril. De vez em quando éramos surpreendidos por alguma notícia da guerra e pensávamos “ôxe, e ainda tem essa guerra?”.

A guerra rolava solta, esquecida pelo ocidente, mas os meninos-mártires mandavam ver nos iraquianos – para orgulho dos seus pais e perplexidade de Fisk, que estava lá, cobrindo tudinho. Sob o silêncio dos ocidentais, Saddam Hussein tentava compensar os estragos jogando gás tóxico nos inimigos, um crime de guerra dos mais abomináveis.

Fisk explica com riqueza de detalhes – incluindo valores de contratos, nomes dos fornecedores e logística para o transporte – como o Ocidente “do bem” abasteceu as indústrias de Saddam com todas as substâncias necessárias para a produção de armas químicas, usadas contra os iranianos e os curdos.

Mais adiante, nos longos capítulos sobre os crimes praticados por Israel contra os palestinos, ficamos sabendo como uma geração de terroristas judeus e mercenários financiados pela colônia judaica nos Estados Unidos, deixaram a Europa no pós-guerra para trucidar as populações palestinas de vilas, bairros, cidades inteiras povoadas há dois milênios para dar lugar ao que seria o Estado de Israel.

Nem sempre sou um sujeito humilde, mas posso dizer que lendo A Grande Guerra pela Civilização pude compreender melhor como o Holocausto Judeu e o Velho Testamento funcionam como justificativa ideológica para justificar os crimes cometidos pelos israelenses.

No momento, estou lendo como foi a volta de Fisk ao Iraque em 1991, no rastro da primeira guerra do Golfo, quando os aliados expulsaram os iraquianos do Kuwait,  numa guerra que a imprensa daqui repetiu até enjoar que foi uma “guerra limpa”, com “poucos mortos” por causa dos “bombardeios cirúrgicos” e das “bombas inteligentes”. Tudo mentira, morreu gente pra cacete na Guerra do Golfo.

Fisk descreve cenas horríveis que viu na estrada sobre a colina de Mutla,  onde milhares de soldados iraquianos em fuga foram queimados vivos pelos aviões americanos e ingleses. Fisk acredita que a opção da Imprensa em não exibir as imagens grotescas das guerras, transformam a carnificina em algo “aceitável” pelo público educado e sensível, que não suportaria ver cadáveres queimando ou crianças degoladas no telejornal da noite.

Também não vi na TV nem li nas revistas semanais que, no finzinho dessa guerra, os “aliados” incentivaram rebeliões xiitas e curdas contra Saddam, mas depois mudaram de ideia e decidiram deixar em paz o ditador do Iraque porque temiam o país se transformasse em outra República Islâmica, que nem o Irã. Então, Saddam aproveitou e reprimiu as rebeliões. Mais de 100 mil pessoas foram assassinadas em menos de dois meses. O título desse capítulo é “Traição”.

Acabo de ler o que escrevi acima. Dá a impressão que Fisk é um sujeito duro, cheio de ódio no coração. Nada disso, além de trabalhar com documentos obtidos por meio de muita investigação e coragem, seu olhar também é doce. Mais acostumado a entrevistar soldados anônimos do que comandantes medalhados, ele permite ao leitor se emocionar com, por exemplo, o sargento americano Nabors, que chora ao contar como uma menininha curda morreu em seus braços. Ou como outro sargento se recusou a obedecer a uma ordem de um diplomata dos Estados Unidos e continuou a atender e socorrer refugiados xiitas que fugiam do exército do Iraque.

O problema da leitura de A Grande Guerra pela Civilização é que poderá transformá-lo num ser anti-social, pois será difícil respeitar aqueles parentes ou amigos que se danam a opinar sobre o Oriente Médio a partir do que lê na Veja ou vê no Jornal Nacional. Recomende o livro. Se não der certo, despreze o sujeito.

Sobre o escritor

Fisk

Robert Fisk, o repórter que eu queria ter sido

Robert Fisk é inglês, filho de um soldado britânico que lutou no front ocidental na I Guerra Mundial e mora em Beirute desde meados da década de 70, quando se tornou correspondente do The Times na região, do qual pediu demissão depois da cobertura da explosão do Airbus da Iran Air lotado de passageiros, bombardeado com dois mísseis pela marinha norte-americana em 1986. Fisk não suportou o esforço dos seus chefes para amenizar as manchetes sobre o crime dos americanos e foi trabalhar para o jornal The Independent.

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8 Comentários

  1. Lea Cavalcanti
    Publicado 3 de julho de 2009 em 16:46 | Permalink

    Depois do seu comentário sobre Robert Fisk (jornalista/escritor que conheço por causa de Zeca que o adora) e fiquei curiosa pra saber como era a ‘cara’ dele. Entrei no Google, escrevi e… eis que aparece um homem branco e sereno. Eu pensava que ele era menos límpido e com uma feição dura, ou pelo menos um pouco agressiva, fruto de uma vida no meio de guerras, onde os homens constroem regras absurdas de dominância e sobrevivência, onde a violência se expressa da maneira mais crua e feia.

    E aí comecei a pensar nas embalagens dos escritores, aliás, meu primeiro pensamento foi se era necessário saber os rostos dos escritores, pois a descoberta de que escritores são humanóides as vezes é frustrante.

    Machado e Eça, por exemplo, nunca existiram de verdade, todo mundo sabe, são semi-deuses (como aqueles do Olimpo) e Platão, Castro Alves e Homero jamais encarnaram.

    Acho também que existem escritores que não deveriam ter rosto ou deveriam trocá-los, Neruda deveria trocar de rosto com Diogo Mainardi, ficariam mais adequados, os dois.

    Há escritores que já nasceram velhos, esses a gente respeita, Millôr, Drummond, Saramago…

    E, com sorte, alguns acertam nas suas fisionomias como Robert Fisk, que tem uma cara ótima; segura e suave.
    ………………………………………
    Ah! Lendo trechos de livros que Zeca lê me deparei com A Face da Guerra de Martha Gellhorn, uma das primeiras, talvez a primeira, jornalista de guerra do sexo feminino; já li duas matérias e adorei. Nos primeiros momentos ela descreve a vida ‘quase’ normal de um país em guerra e o que achei, nesse início, é que o texto jornalístico/crítico dela é suave e feminino (claro!). Estou esperando ele liberar para eu ler (se não for muito triste). Vou pedir pra ele comentar.

  2. samarone
    Publicado 7 de julho de 2009 em 8:21 | Permalink

    França, esquecesse de dizer que o livro pesa uma tonelada, e você não pode ficar levando ele pra todo canto. Ontem cruzei a página 1.142, no capítulo sobre o 11 de setembro. Se intitula “Por quê?”.
    Pelo andar da carruagem, terminarei umas 133 páginas antes de ti, mas demos os descontos, porque nunca consegui terminar “Crime e Castigo”.
    Samarone

  3. samarone
    Publicado 7 de julho de 2009 em 8:24 | Permalink

    Recalculei agorinha: estou boas 142 páginas à frente.
    Samarone

  4. zeca cavalcanti
    Publicado 9 de julho de 2009 em 10:21 | Permalink

    Querido Inácio – QI.
    A Grande Guerra pela Civilização é ótimo. Pra muita coisa, não só pra se entender (um pouco) o Oriente Médio. Indico vivamente pro mesmo fim A Loucura de Churchill, de Christopher Cartherwood (Record, 2006, 305 fls., sendo 27 de bibliografia e 7 de índice remisivo). Relata a criação do OM contemporâneo, pós-1ª Guerra Mundial (precisamente a Grande Guerra pela Civilização), sobretudo a invenção do Iraque, Jordânia e Síria. Relata a mesma guerra, os mesmos impasses e as mesmas questões da guerrra sobretudo norte-americana 80 anos depois no Iraque. Quanto a Robert Fisk, e também sobre o OM, vale muito e muito a leitura de Pobre Nação (Record, 2007), que não tem, claro, quase 1.500 folhas, e sim 962, apenas. Inciciando com o poema de Khalil Gibran que dá origem ou título do livro (“Pobre nação que é cheia de crenças e vazia de religião…”), é uma declaração de amor do autor ao Líbano – sua casa, com o dremático relato de todas as suas (muitas) guerras no século XX. O texto é inteiramente factual e em tempo real, como só os correspondentes de guerra podem escrever. Bonito e trágico. Fisk inteiro. Descobri/ aprendi, QI, que os jornalistas relatam mais vibrantemente A História que os historiadores, que escrevem SOBRE elas. Sobretudo os correspondentes de guerra, como o Robert Fisk, como William L. Shirer (no fantástico Ascenção e Queda do II Reich, Agir, 2008, 2 vols.), como Martha Gellrhorn (textos diverso em A Face da Guerra, que tá com Lea e não lembro editora, edição, etc.) e diversos outros que (d)escreveram sobre a guerra do Vietnan. Todos, invariavelmente, passifistas e anti-governos. Chama atenção a integridade quase esistencial desses caras pra com o jornalismo e a informação. É sobretudo isso que torna Fishk (conf. Pobre Nação) tão admirável. E humano, profundamente.Boa viagem/leitura pr’ocês..

  5. zeca cavalcanti
    Publicado 15 de julho de 2009 em 10:51 | Permalink

    QI.
    Sei que num blog não é comum fazer isso. Ocorre que, toda vez que abro o Caótico, constado vergonhos erros de digitação em meus comentários ao livro. Que me ecomodam muito. Peço então licença pra corrigir que o relato é “dramático”, que os historiadores encrevem “SOBRE ela” (a História), e que o nome correto da jornalista é “Martha Gellhorn”. Obg. (ufa!).

  6. Publicado 24 de março de 2010 em 17:30 | Permalink

    Eu odiei o que eu li,pois eu não encontrei aquilo que eu havia solicitado

  7. Publicado 24 de março de 2010 em 17:30 | Permalink

    eu odieiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

  8. Publicado 25 de março de 2010 em 12:00 | Permalink

    Laís,

    vosmecê odiou o quê? O livro? o blog? a postagem? Não entendi.

2 Trackbacks

  1. Por Fisk, as armas e o medo em 7 de agosto de 2009 às 11:13

    [...] é por causa disso que estou lendo devagar – cheguei agora à página 1.133, quando publiquei a postagem sobre o livro estava na 945. Além das férias escolares de julho terem inviabilizado qualquer tipo de leitura [...]

  2. [...] livro A Grande Guerra pela Civilização, Robert Fisk conta tudo isso e dá detalhes de uma ironia histórica: os oficiais alemães que atuavam como [...]

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