A inglória peleja do demônio da telinha contra o carnaval de rua

Folia na frente do Palácio - Carnaval 2010Não tem jeito, a TV brasileira foi derrotada mais uma vez pelo carnaval de rua de Pernambuco. E, mais uma vez, a derrota foi feia, goleada de verdade, seis ou sete gols de diferença no Recife. Em Olinda, o resultado foi ainda mais dilatado, pior do que Hungria e El Salvador na Copa de 82, sem direito a gol de honra. Ainda bem.

Como integrante da primeira equipe de governo de Luciana Santos em Olinda, no início desta década que ora se acaba, fui testemunha dos esforços dos executivos da Rede Globo Nordeste para transformar o carnaval de Olinda em um produto midiático, televisivo. O esforço para criar outra estética e outra ética. Afinal, a imagem da multidão se arrastando pelas ladeiras é suja e repetitiva demais para o padrão asséptico, pasteurizado e sem graça da TV brasileira. O carnaval de Olinda é um fato, um acontecimento sem dúvida nenhuma, jamais um produto.

Os executivos fracassaram, esbarraram na saudável teimosia da prefeita comunista e dos carnavalescos tradicionalistas. A Globo já desistiu. Pelo menos, por enquanto.

Sua programação se refugiou numa casa refrigerada e com cenário organizadinho, réplica do próprio estúdio. Tudo sob controle dos seus bons profissionais. A multidão incontrolável, com piadinhas sacanas a toda hora e fantasias inexplicáveis varando a tela limpa da tevê, é um pouco demais para a maior emissora da América Latina aceitar.

A tal Casa do Carnaval é uma metáfora perfeita do papel das Organizações Globo na sociedade brasileira. A Casa é uma ilha da fantasia, um mundo à parte, sem os micróbios da criatividade alheia e do imprevisto. Na bolha, a equipe global tenta reconstruir o mundo à sua imagem e semelhança. O problema é o que o carnaval come solto lá fora, desmentindo a todo momento sua grade de programação. Mais ou menos como a popularidade do presidente Lula, resultado de suas políticas públicas, que contrariam as tentativas do Jornal Nacional de reconstruir o país. Fracassam ambos, o JN e a bolha carnavalesca.

Agora, é a pobre Band que tenta encontrar o caminho da vitória onde a Globo foi derrotada. A vaca da emissora paulistana também está indo para o brejo sem escalas. A motivação dos bandeirantes é outra: acertadamente, o Governo de Pernambuco está investindo na emissora uma nota para garantir a transmissão ao vivo e visibilidade para o carnaval pernambucano.

A motivação é diferente, mas o desafio é o mesmo: embalar o carnaval de rua em produto. Dá até pena.

Este ano puxei o freio de mão na folia. Pulei, mas não exagerei coisa de quem passou dos 40 e fica com os pés doendo. Daí, deu para assistir um pouco de carnaval televisivo, na Band inclusive. O resultado é uma coisa sem graça. Os shows do Marco Zero são uma concessão, algo mais próximo daquilo que as TVs estão acostumadas a colocar no ar. Mas a emissora não passa nem perto da realidade das ruas do bairro, com blocos e mais blocos diferentes desfilando a toda hora, pessoas se divertindo, crianças brincando.

A Band é salva por um repórter inteligente que, ao menos aparentemente, respeita seus entrevistados. O desempenho dos demais é constrangedor, visivelmente não conseguem compreender as diferenças de sotaque e de cultura. A atitude desse pessoal é similar a dos colonizadores britânicos, dispostos a capturar seres exóticos para mostrar a Rainha Vitória. A realeza aqui é a egoísta, alienada e provinciana classe média paulistana, uma turma que conheço dos meus anos em Sampa. Gente que lê Veja e acha uma grande coisa.

Aposto que, sem a grana do Governo do Estado, a Band já teria abandonado sua aventura olindense com o rabo entre as pernas.

Pelo andar da carruagem, os produtores de TV ainda vão passar anos repetindo o mantra de que “o carnaval de Olinda é muito diferente, muito criativo, mas não rende imagens” e “não é bom para a TV”. Significa que não será embalado para produto. O mais curioso é que há uma contradição nisso: um evento de massa indigesto para um meio de comunicação de massa.

O motivo da minha satisfação é que, quando a TV transforma alguma coisa feita pelo povo em mercadoria, transforma tudo que está ao redor. Para servir com ilustração, vou contar uma historinha que escutei na terça-feira de carnaval da boca do meu amigo Edson, carioca de Marechal Hermes e portelense. Edson e sua mulher Ivete, passista da Salgueiro na juventude. O casal não suporta mais o desfile das escolas de samba e decidiram conhecer o carnaval de Olinda.

Edson contou o que sabe e o que já ouviu falar dos bastidores da escolha de um samba-enredo no Rio. É uma coisa grotesca, que nada tem a ver com arte ou folia e sim com corrupção. Para ter o direito de colocar seu samba para concorrer, só isso, um compositor precisa gastar quase R$ 100 mil, grana para comprar dezenas de mesas na quadra da escola nos dias do concurso, para molhar a mão dos músicos e evitar que a bateria atravesse seu samba, comprar jurados.

Quem não tem o dinheiro, arruma patrocinadores que exigem a inclusão do nome de um filho, sobrinho ou do próprio diretor da empresa como parceiro na autoria do samba. Em algumas escolas, o presidente exige que o vencedor pague metade dos direitos autorais que a gravadora Som Livre repassa para a Liga das Escolas de Samba.

Na opinião de Edson, o dinheiro da TV transformou tudo e todos em mercadoria. Em Olinda e no Recife, ainda não conseguiram.

E acho é pouco.

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15 Comentários

  1. Publicado 18 de fevereiro de 2010 em 9:36 | Permalink

    Inácio,

    Concordo com cada vírgula q vc disse. Repeti argumentos desse texto durante todo o carnaval. Ouvi dizer que as cabeças de rede aperrearam os produtores locais para achar “gente bonita” no nosso carnaval. Ora, a gente não é “gente bonita”. A gente não é galeguinho, a gente não tem os dentes de propaganda de comercial de pasta de dente. O carnaval da gente é bom justamente porque é uma merda.

    Agora uma curiosidade que eu acho que é direito de todo mundo saber. Quanto se pagou à Band pela cobertura do carnaval?

  2. Publicado 18 de fevereiro de 2010 em 12:16 | Permalink

    Fantástico o comentário de Ivan e melhor ainda a publicação A inglória peleja do demônio da telinha contra o carnaval de rua.
    Depois de 18 anos saindo na condição de maestro da banda de PENTE, em olinda, a dois sem colocar o bloco na rua, recesso, descobri o que mais importunava os meus músicos de pente e a mim, era a parada para entrar ao vivo, momento que desconcentrava todos e ainda davam pitacos de como proceder perdendo o ritmo e muito mais coisas

  3. Alexandre Magno
    Publicado 18 de fevereiro de 2010 em 12:57 | Permalink

    Esse é o Inácio! Parabéns pelo artigo e pela resistência olidense! Ainda volto a me divertir nesse carnaval porreta, mesmo que os meus pés sangrem! Eita, mãe!

  4. Diana Moura
    Publicado 18 de fevereiro de 2010 em 15:52 | Permalink

    Hum… O Carnaval de Pernambuco é livre e caótico demais para a televisão. Ainda bem! E vai divulgar mais para quê? A verdade é que as prefeituras do Recife e de Olinda não oferecem uma infra-estrutura decente para a quantidade de pessoas que já comparecem à folia. Os banheiros públicos estavam péssimos * sem descrição * na terça-feira.
    Cena grotesca? Um repórter da Band (SP) acompanhado por dois seguranças no Bairro do Recife, antes da meia-noite, no RecBeat. Não entendi a cena até agora. Onde eles pensam que estavam? Eles imaginavam que alguém ia roubar a câmara e sair correndo no meio da multidão?

  5. Publicado 18 de fevereiro de 2010 em 16:59 | Permalink
  6. Lea Cavalcanti
    Publicado 18 de fevereiro de 2010 em 18:23 | Permalink

    Gente

    Boa mesmo é a cobertura do Bacalhau do Batata:
    - Quem acha que o frevo acabou?…
    - Na quarta-feira de cinzas o Batata…
    - Batata era um garçon…
    - Com certeza…
    - É com você fulano…

    Se vocês não viram, não percam no ano que vem, mesmo que seja uma gravação de 2001, é muito engraçado… dá pra brincar de dublagem.

    lea

  7. Publicado 18 de fevereiro de 2010 em 18:46 | Permalink

    Lea, faltou “A irreverência do carnaval pernambucano”

  8. Publicado 19 de fevereiro de 2010 em 10:15 | Permalink

    Ei Léa vc bateu em cheio na chatice cavernosa das repetições televisivas.
    Eu coletei algumas centenas de repetições e vou criar um blog só pra divulga-las
    e sacanear com o pessoal que digita todo-o-ano este tipo de clichês.
    Nas não vamos nos esquecer das doses cavalares de Madeira do Rosarinho, Voltei Recife, Diabo Louro e por aí vai…
    Capiba, por ex, é como uma feijoada. É muito bom; mas coma ela todo dia….
    Aproveito pra perguntar se algume consegue cantar um frevo com menos de 15 anos de idade.
    Alguém ouviu falar em Arsenal do Frevo do Getúlio???????
    Fui

  9. Lea Cavalcanti
    Publicado 19 de fevereiro de 2010 em 12:24 | Permalink

    Ivan, Paulo e pessoas

    Pra ser sincera acho que não vivo sem Madeira do Rosarinho, carnaval sem Madeira deve dar um nó no peito… sei não, é melhor não arriscar, embora eu ache um saco ouvir. Bom mesmo é reclamar.
    A versão de Ivan é excelente, poderemos cantá-la nos próximos anos, assim a gente finge que não está cantando mas está. Perfeito. Com toda a “irreverência do carnaval pernambucano”.
    Paulo, se você sentir saudades de Capiba, sintonize a 99.9 na FM.
    (em câmera lenta e quase inouvível) – Com… vocês …mestre… capiba…, com… evocação… nº…. 322…. Páááán.

    lea

  10. samarone
    Publicado 20 de fevereiro de 2010 em 12:52 | Permalink

    França, na veia novamente. Clap, clap, clap.
    Assisti uns trechos da cobertura da TVU. Amigo, um negócio para rir e chorar ao mesmo tempo, igual ao que fazia minha avó Zeneuda.
    Samarone.

  11. Roberta Rego
    Publicado 21 de fevereiro de 2010 em 13:02 | Permalink

    Só por curiosidade: como vocês fariam se tivessem a missão de mostrar na tv o Carnaval de Olinda? Me parece que pra Carnaval basta imagem e sobre som do barulho da rua. Mas será que ficaria bom? Todo ano eu me pego pensando nisso, não tenho resposta.

  12. Publicado 21 de fevereiro de 2010 em 13:47 | Permalink

    Luciano do Valle tentou criar um “corredor da folia” em Olinda, onde os blocos desfilariam com regularidade e constância, para que não houvesse brechas nas transmissões. Já imaginaram?! Sai um bloco… Viria um organizador e diria: “Agora vocês. Tem 15 minutos, heim!”.

    Quanto ao comentário de Ivanzinho, discordo no seguinte ponto: há gente bonita. Eu mesmo fui filmado umas duas vezes…

  13. Publicado 22 de fevereiro de 2010 em 15:27 | Permalink

    Cá pra nós… ainda bem que eles não se metem a gravar nosso carnaval de rua. Porra! Ia atrapalhar a passagem da folia!!!

  14. Geórgia Araújo
    Publicado 22 de fevereiro de 2010 em 21:18 | Permalink

    Acho que nenhuma emissora de televisão vai conseguir passar a energia do carnaval de Olinda de verdade. Essa emoção é sentida lá nas ladeiras, debaixo do calor, no meio das pessoas, ao som dos instrumentos. A resistência é importante, mas devemos ficar atentos também para outra questão: esse ano, muito mais do que em anos anteriores, vi pequenos carros de som “acompanhando” alguns blocos. O que acontece? Na frente das câmeras da tv, eles param, fazem um pequeno show, impedem o trânsito das pessoas e de outros blocos e só depois se deslocam.
    Além disso, nos famosos encontros de blocos tão comuns nas ladeiras de Olinda, os carros de som “abafam” os instrumentos de sopro e a concorrência deixa de ser leal.
    Tenho saudade do tempo em que havia competição entre os músicos ou mesmo quando duas orquestras de frevo, sem ensaio prévio, se juntavam para tocar uma música juntas, na Sé, na Ribeira ou na frente da Prefeitura.

  15. Julio Vila Nova
    Publicado 6 de março de 2010 em 1:28 | Permalink

    Inácio, lamentei só ter lido agora o texto. Muito bom demais!!! Peço a permissão para encaminhar (vou começar mandando para o pessoal do Interblocos, que faz circular a informação entre a turma que faz o carnaval). Certeira a análise…carnaval da gente é pra ver com os olhos, a alma e os poros, sem porra de lente televisiva. O triste é saber que toda gente de fora fica pensando que o carnaval daqui é o Marco Zero e só. O bom é saber da surpresa de quem vem e vê que é muito mais!
    A conversa toda me lembrou que beleza mesmo é a criatividade das agremiações, começando pelos nomes, assim como “A Minha Cobra”, “Ou Esfola…ou Arrebenta”, “cachorro do Homem do Miúdo”, “Duvidosa do Fundão”, “enfiando Nasce”, “Formiga Sabe que Roça Come”, “O Tolete”, “Lavou, tá Novo Zerado”, “Levem MInha Cunhada”, “Me Segura Senão eu Caio” (estreou este ano, troça formada em sua maioria por pessoas com alguma deficiência física), “Mulher na Vara”, “Me Dê seu Bichinho que Eu Cuido”, “Nem Sempre Lily Toca Flauta”, “O Bode Quer Gozar”, “O Cachorro que Lambeu o Seu”, “O Cupidão”, “Só Sai Pingando”, “Urso do Cu Brilhoso”, “Vamos todos pro mesmo buraco” etc. etc. etc. etc.

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