A parabólica do seu Inácio

Imagem018O que eu vejo da janela do quarto de hotel não me empolga. O casario do centro de Imperatriz é irregular, ocupado por um porrilhão de pequenas lojas com letreiros extravagantes nas fachadas, e pontilhado por pequenos edifícios cuja arquitetura tenta imitar os prédios das capitais. Lamento informar, mas a segunda maior cidade do Maranhão não é nada bonita. O hotel, porém, é uma potência, confortável, café-da-manhã com umas 76.345 opções e internet Uai-Fai em todos os quartos.

Era quase meia-noite quando cheguei ontem, morto de cansado, e não sei se vai dar tempo de perambular pela cidade. Cansado ainda estou, por isso resolvi escrever. Mas não vou torrar a paciência de ninguém fazendo um diário de viagem, o Caótico não foi criado para esse tipo de coisa. Além do mais, estou aqui esperando o carro que irá me levar a Araguaína para encontrar meus filhos, um item da minha agenda que me reserva emoções que não pretendo compartilhar com muita gente.

Fiz questão de começar pela minha localização geográfica para contar que, há exatamente uma semana, estava em Poção, na nascente do rio Capibaribe, há quase 300 quilômetros do Recife, na última viagem de pesquisa de história oral e memória das comunidades às margens do rio. A experiência de mobilidade que ora estou vivendo me lembrou a experiência de outro Inácio (foto), um agricultor e trabalhador rural que vive no sítio Lagoa do Angu, a 500 metros da cacimba que dá o pontapé-inicial no Capibaribe dos pernambucanos.

Esse outro Inácio, chama-se Inácio José Bezerra. As histórias que ele contou vão estar no livro que, por enquanto, tem o título Um rio de gente. Ele tem quase 70 anos e só conhece três cidades: Poção, Pesqueira e São Paulo, onde passou uns dias visitando um irmão. Foi e voltou rapidinho. Não gostou nada. Nem o Recife ele conhece e nunca viu o fio de água que passa por trás de seu roçado transformado num rio caudaloso, largo e podre.

Acontece que o xará tem uma parabólica instalada no terreiro na frente de casa. No final da nossa conversa, que durou quase duas horas e foi bastante atrapalhada pelo cunhado tão embriagado que não conseguia articular uma única sílaba, alguém perguntou – não lembro se foi o produtor Alexandre ou a historiadora Jakeline – o que ele mais gostava de ver na TV.

A resposta veio na hora, sem vacilos, e nos surpreendeu: “Toda quinta eu vejo o programa daquele cabra que tem uma Rural velha e bota os meninos pra tocar música. É muito bonito, dou valor demais. Gosto muito daquele cabra com o bigodão vermelho e o arame no ouvido”. Por “arame no ouvido”, entenda-se “brinco na orelha”.

rogerGraças à parabólica, tão demonizada por quem acha que entende de cultura, um agricultor quase setentão, apegado ao seu lugar, se identifica com Roger de Renor (foto), um produtor de cultura, cultuado pelo pessoal “cabeça” da capital, mas que conhece as manhas e os atalhos para promover quem faz música com personalidade e se comunicar com todo mundo.

Com o celular, gravamos um videozinho de alguns segundos no qual seu Inácio mandou um abraço para o bigodudo de arame no ouvido. De volta ao Recife, peguei o telefone de Roger (pronuncia-se Rogê) com Ivanzinho, do blog Bodega e do programa PE no Chão, e contei a história para o próprio Roger. Ele ficou emocionado, pediu a gravação para dar algum destino a tirou suas próprias conclusões: “Porra velho, isso prova que a parabólica pode destruir a identidade cultural das comunidades do interior, mas também pode fazer com que as pessoas se enxerguem e construam uma nova identidade. Basta que tenha gente interessada em produzir conteúdo capaz de se comunicar com essas pessoas”. Foi mais ou menos isso que falou e acho importante compartilhar essa ideia.

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4 Comentários

  1. Ana Beatriz
    Publicado 27 de setembro de 2009 em 11:18 | Permalink

    Quem é que não gosta de Rogê? Quanto ao cunhado embriagado, deixa ele!

  2. Geórgia Araújo
    Publicado 27 de setembro de 2009 em 11:21 | Permalink

    Sabe o que seria legal mesmo, colocar esses dois para terem uma boa conversa pessoalmente!

  3. Alesson Gois
    Publicado 30 de setembro de 2009 em 9:49 | Permalink

    Verdade, Inácio! Uma baita e feliz surpresa! E como a Geórgia aí falou, imagine o que sairia dessa conversa pessoal!

    Um grande abraço!

  4. Clara
    Publicado 19 de outubro de 2009 em 22:50 | Permalink

    oi Inácio,
    Sou daquelas que, na minha ingenuidade maldosa, acredita que a ambiguidade entre o construir e o destruir, a linha tênue que separa uma coisa da outra, pode fazer as coisas mudarem. Não sei se para pior ou melhor. Depende de tanta coisa, até da memória e da saúde do cunhado de Seu Inácio.

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