A Trégua

atregua_300Sem rodeios: A Trégua é um dos melhores romances que já li.

Pena que demorei tanto a encontrar a prosa de Mário Benedetti, provavelmente por conta da minha incompetência literária e da opção política-ideológica da mídia e do mercado editorial nacionais , com tantos olhos para o mundo anglo-saxão e irritante hipermetropia que nos torna incapazes de enxergar de perto a América Latina.

Só no ano passado é que li A Trégua, mas no próximo ano, já vai fazer meio século que o uruguaio escreveu a história do viúvo de meia-idade, que criou dois filhos trabalhando num serviço sem graça num escritório mais sem graça ainda, até que o amor de uma moça bem mais jovem lhe proporciona a tal trégua em sua vidinha que se arrasta.

É uma história comum, de um homem comum, escrita sob forma de um reles diário. Não há nenhuma ação mirabolante, suspense ou espetaculares saltos de imaginação, porém os personagens são tão bem construídos que o leitor experimenta os sentimentos e sensações do protagonistas e autor do diário, que se chama Martín Santomé.

Outro elemento que me cativou e me prendeu na leitura, é o ritmo que Benedetti imprimi na história. O tempo passa lentamente antes de Laura Avelanneda entra em sua vida, depois dela, as hesitações, a insegurança e os vacilos, mas também a ternura e o deslumbramento, do coroa apaixonado ditam o ritmo do romance. Poderia até contar o surpreendente final, pois considero que a forma como se conta a história é tão importante quanto a história em si, mas vou manter a curiosidade só para ver se alguém se interessa em correr atrás do livro.

Lembro que li esse livro numa tacada só. Foram uns três dias lendo no ônibus e fazendo questão de comer sozinho num self-service perto do escritório do Unicef para poder aproveitar os minutos do intervalo para o almoço. Recordo que me irritei quando um conhecido me encontrou sozinho no restaurante e resolveu puxar conversa, talvez para me aliviar da aparente solidão.

Depois do ponto final, emoção, lágrimas nos olhos. E a certeza do privilégio de ter lido algo maravilhoso.

A Trégua foi o segundo livro de Benedetti em meu curto currículo. O primeiro havia sido Gracias por el Fuego, que também é um ótimo romance, porém mais tenso e com menos pegada. Centrado na péssima relação entre pai e filho, ambos tem em comum as histórias de pessoas comuns, como qualquer um de nós.

Sobre o escritor

Mario Benedetti

Benedetti: vale a pena descobrir esse homem

Mário Benedetti morreu aos 88 anos no dia 17 de maio deste ano, um domingo. Pouco conhecido no Brasil, era idolatrado em seu país, logo ali ao sul da fronteira do Rio Grande do Sul. Poeta, romancista, contista, ensaísta, Benedetti era mestre e escravo das palavras. Durante a longa noite das ditaduras no Cone Sul, exilou-se na Espanha. Segundo seus amigos, começou desistir da vida em 2006, quando sua esposa Luz morreu. Para ele, foi difícil viver sem luz.

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9 Comentários

  1. Monica Crisostomo
    Publicado 15 de agosto de 2009 em 16:17 | Permalink

    Poxa Inácio, tão bom ler tú.. ler sobre coisas tão simples e emocionantes.. tenho lido bastante ultimamente, depois de uma parada angustiante nos dois últimos anos.. por falta de tempo.. se é que isso é justificativa. Estou mais feliz agora, de volta aos livros, ao mundo lá fora, aqui dentro, o mundo de papel. Bj grande.

  2. Tatiana Portela
    Publicado 17 de agosto de 2009 em 10:46 | Permalink

    Menino!!!! Eu também li a Trégua há pouco tempo e me apaixonei na hora por Mario Benedetti. É um dos melhores estilos que já conheci e infelizmente descobri que quase ninguém o conhece. Mandei buscar o “Cuentos Completos” dele na Argentina. Se quiseres, te empresto.
    bjsss

  3. Geórgia Araújo
    Publicado 17 de agosto de 2009 em 11:00 | Permalink

    Parabéns! Adoro o que você escreve e como você faz isso. Beijos…

  4. Publicado 17 de agosto de 2009 em 15:37 | Permalink

    Pô Inácio, se tú se considera imcompetente literário, eu me esenti pior ainda, pois só descobri Benedetti, quando descobri Samarone, imagina o tamanho da minha imcompetência.
    E, confesso, aqui no caótico ando descobrindo muitos outros autores.
    Abraços,

  5. Publicado 17 de agosto de 2009 em 22:02 | Permalink

    Lembro que li no Caderno de Saramago a notícia de que Benedetti não ia bem. Na ocasião, Saramago escreveu:

    “Que era em verdade Mario Benedetti, que havia sido ele em toda a sua vida, muito mais que as múltiplas profissões exercidas? Poeta.”

    http://caderno.josesaramago.org/2009/05/04/benedetti/

    De fato, ainda estamos longe da América Latina… Mas as coisas estão melhorando. Este blog tem contribuído, e é bom frequentá-lo.

    Permitam-me extender este comentário com um poema de Benedetti.

    “Si Dios fuera una mujer”

    “¿Y si Dios fuera mujer?
    pregunta Juan sin inmutarse,
    vaya, vaya si Dios fuera mujer
    es posible que agnósticos y ateos
    no dijéramos no con la cabeza
    y dijéramos sí con las entrañas.

    Tal vez nos acercáramos a su divina desnudez
    para besar sus pies no de bronce,
    su pubis no de piedra,
    sus pechos no de mármol,
    sus labios no de yeso.

    Si Dios fuera mujer la abrazaríamos
    para arrancarla de su lontananza
    y no habría que jurar
    hasta que la muerte nos separe
    ya que sería inmortal por antonomasia
    y en vez de transmitirnos SIDA o pánico
    nos contagiaría su inmortalidad.

    Si Dios fuera mujer no se instalaría
    lejana en el reino de los cielos,
    sino que nos aguardaría en el zaguán del infierno,
    con sus brazos no cerrados,
    su rosa no de plástico
    y su amor no de ángeles.

    Ay Dios mío, Dios mío
    si hasta siempre y desde siempre
    fueras una mujer
    qué lindo escándalo sería,
    qué venturosa, espléndida, imposible,
    prodigiosa blasfemia.”

  6. samarone
    Publicado 18 de agosto de 2009 em 1:11 | Permalink

    França, bom ver texto falando dos meus queridos uruguaios.
    Tenho uma fita com o Benedetti recitando poemas,se queres…
    sama

  7. tininha
    Publicado 18 de agosto de 2009 em 11:22 | Permalink

    Gostei de ouvir mais uma voz que canta as grandezas da nossa America Latina! E foi também uma otima oportunidade para te conhecer melhor! Eisto diminui um pouco as distancias.

    Um abraço

  8. tininha
    Publicado 18 de agosto de 2009 em 11:24 | Permalink

    Gostei de ouvir mais uma voz que enaltece as maravilhas da nossa America Latina e quando a gente vive longe è muito gostoso… Continue assim

  9. Yvette Teixeira
    Publicado 9 de outubro de 2009 em 18:40 | Permalink

    Tempo sem tempo
    Do livro “Inventário”
    Tradução de Julio Luís Gehlen

    Preciso tempo necessito esse tempo
    que outros deixam abandonado
    por que lhes sobra ou já não sabem
    o que fazer com ele

    tempo
    em branco
    em vermelho
    em verde até em castanho-escuro
    não me importa a cor
    cândido tempo
    que eu possa abrir
    e fechar
    como uma porta

    tempo para olhar uma árvore um farol
    para andar pelo fio do descanso
    para pensar que bom hoje não é inverno
    para morrer um pouco
    e nascer em seguida
    e para me dar conta
    e para me dar corda
    preciso tempo o necessário para
    chafurdar umas horas na vida
    e para investigar por que estou triste
    e acostumar-me ao meu esqueleto antigo

    tempo para esconder-me no canto de algum galo
    e para reaparecer em um relincho
    e para estar em dia
    e para estar na noite
    tempo sem recato e sem relógio

    vale dizer preciso
    ou seja necessito
    digamos me faz falta
    tempo sem tempo

    Da prosa gostei muito também dos: Gracias por el fuego, Correios do Tempo, Quem de nós. Estou procurando o Borra de Cafe e não encontro.
    Abraços.

3 Trackbacks

  1. [...] autores como Mário Benedetti que carregam o leitor pela mão, com suavidade, doçura. Ellroy não, Ellroy é um cavalo [...]

  2. [...] de vista. Há muito de Tchekhov nas crônicas de Rubem Braga. Também há Tchekhov no romance de Mário Benedetti. Encontrei Tchekhov em Joyce, que começou a escrever suas coisinhas quando o russo já era popular [...]

  3. [...] Clique aqui para ler texto do Caótico sobre A Trégua, aobra-prima de Benedetti [...]

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