Um dos meus maiores defeitos como leitor é a dificuldade que tenho para encarar ensaios, textos teóricos ou críticos, enfim, aquilo que se convencionou chamar de não-ficção. Em geral, mesmo quando o tema me interessa, me arrasto na leitura desse tipo de coisa. Penei no segundo semestre de 2007, quando tive de ler os livros exigidos pelo mestrado em Comunicação, na minha única, última e frustrada tentativa de fazer um mestrado.
Gosto mesmo é de ficção, ou seja, de mentira. Pode ser em forma de romance, crônica, conto ou reportagem.
Apesar desse defeito de fábrica, passei as últimas três semanas de outubro lendo um livro de nome curioso, A Vida Sexual dos Alimentos, de uma tal Bunny Crumpacker, presente de aniversário do novo amigo Breno Melo, cozinheiro profissional, para esse cozinheiro amador que vos escreve.
Vou tentar enquadrar o livro em alguma categoria definindo primeiro o que ele não é. Não se trata de um livro teórico, desses que podem ser utilizados em aulas do curso de Nutrição. Também não é um livro de receitas ou de técnicas de culinária, aproveitável na formação de novos “chefs” de cozinha, tampouco é uma obra de sacanagem sobre as óbvias virtudes da cenoura ou as propriedades afrodisíacas do amendoim. Não é nada disso.
Agora, tentarei definir o que é A Vida Sexual dos Alimentos: é um livro que trata da relação do ser humano com a comida. Apesar da erudição da senhora Bunny, que cita sem pedantismo ou academicismo dezenas de outros autores clássicos, é uma leitura divertida.
Para quem se arrisca na cozinha como eu, com camarões, ciobas e jerimuns que me garantem um relativo sucesso na família ou entre amigos, é fundamental ler o capítulo “Sexo na Cozinha”, no qual o ato de oferecer comida é definido como oferecer amor ou amizade. Quando li isso, tive a convicção de ter encontrado uma tradução para minha motivações ao assumir o controle do fogão aos sábados ou domingos. Citando uma tal Lea Bidault, totalmente desconhecida para mim, a autora garante que tanto cozinhar quanto trepar têm suas raízes no desejo de dar e obter prazer. Achei isso lindo.
Também há boas dicas de alimentos quer funcionam bem na hora da sedução, mas para quem cozinha há algum tempo, essas informações já são obsoletas ou dispensáveis. Afinal, se o sujeito vai para a cozinha para tentar comer gente com mais facilidade precisa descobrir o be-a-bá logo no início do processo.
É inevitável que depois da preparação da comida, da sedução, do prazer que isso envolve, surjam as conseqüências e os subprodutos. O livro obedece à ordem natural das coisas e, logo adiante, o leitor chega a um dos capítulos mais divertidos de A Vida Sexual…, o capítulo sobre os peidos.
Como peidar é algo que faço tão bem quanto cozinhar, também me identifiquei com muito do que está escrito. Há uma excelente literatura do peido, com citações e mais citações de escritores que trataram do assunto em suas obras, a exemplo do clássico humanista Erasmo de Roterdã, aquele do famoso Elogio à Loucura, mas que também poderia ter escrito um elogio à bufa.
Além da literatura e das explicações sobre as origens das palavras usadas por vários povos para designar as “ventilações sonoras”, há uma lista muito útil, com a relação dos alimentos que mais provocam peidos: os feijões estão em primeiríssimo lugar, com destaque para o feijão de soja, capaz de provocar estragos inenarráveis poucas horas depois de engolido. A relação inclui também os perigosos grão-de-bico, o famoso repolho e os aparentemente inofensivos brócolis e couve-de-bruxelas. A julgar pelos estudos e pesquisas citados, tudo isso está cientificamente comprovado.
O livro também inclui capítulos destinados a contar as origens dos restaurantes, aos hábitos vegetarianos e sexuais de Adolf Hitler, ao canibalismo, cuja leitura , aliás, me deixou a par de uma autoridade chinesa que tinha o interessante hábito de mandar cozinhar alguma das mulheres do seu harém para servi-la aos convidados importantes. Na breve história dos bons modos à mesa, encontrei a revelação de que nem sempre o ato de tirar catota à mesa foi considerado como algo pouco educado, o que também me confortou um pouco.
No balanço final, A Vida Sexual dos Alimentos está longe de ser um livro imperdível, mas sua leitura pode render boas conversas para quem gosta de comer bem ou costuma cozinhar de vez em quando.
Sobre a escritora: Bunny parece ser uma senhora simpática

Não há muito sobre Bunny Crumpacker na internet. Descobri que ela é ou já foi colunista do Washington Post e tem uns 13 livros publicados, entre eles um bem famoso nos Estados Unidos sobre as receitas de panfletos culinários que eram bem comuns em seu País de 1875 a 1950.
3 Comentários
A sua comida é realmente deliciosa! Bjs
Pôxa, cara, eu também prefiro ficção. Não tenho um pingo de paciência com ensaio, crítica…..essas coisas. Mandei este texto para meus amigos, com os devidos créditos. Achei bem divertido, principalmente porque eu estava discutindo com meu namorado sobre “ventilações sonoras” após algumas comidas. Também sou metida a cozinheira. Pego textos também do Samarone, Naire, Artur Perrusi, Paulo Bono……, para enviar aos meus amigos, sempre com os devidos créditos, certo?
Abraço,
Yvette
Caramba, França, essa postagem foi também uma utilidade pública. Outro dia, mandei ver no grão de bico, coisa que adoro, e depois senti o revestrés. Digamos que fiquei mais sonoro.
Agora está explicado.
O Caótico está mandando bem.
Sama