Você acredita que Jesus foi o filho do “ômi” , que era filho de uma virgem e no mistério da Santíssima Trindade? Ou é daquelas pessoas que, mesmo sem religião, costuma dizer que respeita todas as religiões? Em qualquer um dos casos, evite a leitura de Ao Vivo do Calvário. Aliás, ignore esse texto, procure outra coisa para ler na Internet. Blog é o que não falta por aí.
Logo na primeira página Gore Vidal dá o tom do que virá nos capítulos seguintes. O cacete (no sentido sexual do termo, sinônimo de pênis, rola, pau ou pica, e não de cajado) de São Timóteo e o tesão de São Paulo por menininhos, mencionados nos primeiros parágrafos, deixam claro que Vidal não alisou quando escreveu esse romance no início dos anos 90.
Não se trata de nenhuma obra-prima, muitas vezes, me dispersei no meio da leitura, mas é um livro engraçado. Aliás, quem deve ter se divertido mesmo foi o próprio autor. Deve ser muito legal escrever uma história sem dar a mínima para o respeito a qualquer crença, a fatos históricos ou mesmo à verossimilhança.
A ideia básica é a seguinte: a tecnologia para viajar ao passado já está sob domínio das grandes corporações como a General Eletric e das redes de TV americanas, assim um “pirata” temporal e religioso está apagando as “fitas” com as histórias dos evangelhos. São Timóteo, bispo da Macedônia e comedor/comida de São Paulo em seus tenros anos (poderia ter escrito “tenra idade”, mas a obviedade do trocadilho é boa demais), recebe a missão de escrever seu próprio evangelho para que a verdade sobre os primeiros tempos de cristianismo não se perca.
Quase ia esquecendo que uma TV conseguiu os direitos para transmitir ao vivo a crucificação de Jesus, direto do monte Calvário.
Só sofri um pouco na leitura porque fiquei com a impressão que o autor se animou demais. As idas e vindas entre passado, presente e futuro são tão intensas, com tantos personagens, que muitas vezes fiquei me perguntando “quem falou isso antes?” ou “e isso, está relacionado com qual situação mesmo?”.
Me embananei, aí resolvi relaxar e deixar pra lá, não suporto ter de voltar dezenas de páginas para checar alguma frase ou situação descrita. Se o sujeito que escreveu não estava preocupado com esse tipo de lógica porque eu é que teria de me preocupar? Tentei ler com o mesmo espírito com que, acho eu, Vidal escreveu.
O mais interessante é a visão completamente anárquica e esculhambada do novo testamento. O exercício de imaginar os intestinos dos conflitos entre os primeiros cristãos e entre judeus e cristãos vale a leitura com sobras.
A esculhambação é tão grande que poderia inspirar um roteirista de escola de samba da terceira divisão ou o decorador daquele baile de carnaval do Rio de Janeiro, o Gala Gay.
O romance tem outro mérito. Com humor, leveza, Gore Vidal leva o leitor a se inquietar com o poder da mídia em construir a memória coletiva, reconstruindo a história a partir dos interesses das corporações, da religião, dos donos do poder. A velha discussão filosófica sobre a verdade, ou melhor, sobre as verdades também está lá, presente em tudo quanto é capítulo.
Outra coisa boa é que conheci duas palavras novas para mim: “tepidário” e “solipsista”. Tepidário é a parte que fazia parte das termas romanas onde a água era a mais quente. E solipsista é o sujeito que só acredita que são reais as coisas que estão em seu próprio pensamento, todo o resto é fantasia. Miriam Leitão e Alexandre Garcia, por exemplo, são solipsistas de carteirinha.
Ah, se você é cristão e ainda vai insistir em ler Ao Vivo do Calvário, aviso que o Jesus Cristo de Gore Vidal não é nenhum santinho.
Sobre o escritor

Gore Vidal é neto de um senador de Oklahoma, foi criado em Washington e lutou na Segunda Guerra Mundial. Mesmo assim, é um crítico feroz e incansável do modo como seu País exerce o poder e como o poder é exercido em seu País. É autor de frases ótimas, como “não basta ser bem-sucedido, os outros também precisam fracassar”. Escreveu 35 romances e pelo menos 20 roteiros de cinema ou teatro. Hoje, mora na Itália, com medo de ser assassinado pelos seus conterrâneos republicanos.
4 Comentários
Adorei a palavra “solipsista”, nova pra mim também, apesar de conhecer tantos por aí! Valeu, Inácio!
“Jesus Cristo de Gore Vidal não é nenhum santinho”.
Trocadilho infame do cacete. Hahahahahahahahaha!
Por coincidência, ontem assisti Calígula (o filme pornô mais cabeça da história), cujo roteiro original é de Gore Vidal. Consta que ele também colaborou com o roteiro de Ben-Hur, etc. etc.
Obs.: “cujo” é ótimo, isso ainda se usa?
Anízio, deixa de onda. Você estava mesmo querendo ver sacanagem….
Quanto ao roteiro de Calígula, foi mutilado pelo produtor e dono da Penthouse, Bob Gucccione. Por isso, Gore Vidal mandou retirar seu nome dos créditos.
Pornô também é cultura.
Um Trackback
[...] Para saber mais sobre Gore Vidal, leia a postagem sobre o livro Ao Vivo do Calvário [...]