Cem Anos de Solidão

Uma semana depois de criado, o Caótico abriga o primeiro texto enviado por uma leitora, a arquiteta Lea Cavalcanti, que afirma não ter o hábito de escrever, mas é bem jeitosa para o ofício. Pessoalmente, gosto bastante dos dois livros criticados por ela, mas gostei mais da sua coragem de nadar contra a maré. Com vocês, Lea, mais uma apaixonada por livros.

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Cem anos de solidão das putas tristes, um comentário não literário.

100anosO mundo todo diz que Cem Anos de Solidão é um livro maravilhoso e existe uma legião de admiradores de Gabriel García Marquez e seu último livro Memórias de Minhas Putas Tristes é vendido como banana na feira.

Eu, uma leitora amadora, li (ou tentei ler) Cem Anos na minha adolescência, numa edição de papel de jornal com uma capinha bem comercial. Comecei e parei, recomecei e parei, pulei as páginas, nem comecei. Anos depois, menos adolescente resolvi ler à força, foi um sofrimento. Achei um saco, comprido, complicado, cheio de histórias imensas, cem anos de páginas, já adiantada na leitura do livro eu esquecia de tudo, achava os personagens meio bobos, enfim, não tenho HD suficiente para gostar do livro. Deveria existir um manual do leitor. Arrasada, guardei este segredo por cem anos, esqueci toda a história inclusive.

Recentemente li na Piauí (ou Caros Amigos?) uma matéria de uma jornalista brasileira com Gabriel García Marquez. Tem nome mais bonito do que esse? Gabriel García Marquez. Tem melodia, tem ritmo, é bom de falar, mas o cara é um saco. A jornalista falou que existe um encontro frequente em que Gabriel é o âncora. Pois o danado do homem só aparece quando quer, todos comparecem e deixam a sua cadeira vazia, se ele chegar, ovacionam-no, se não, paciência. Já fiquei com raiva dele. Essa história de conhecer escritor às vezes não dá certo.

Ano passado ganhei um livro, Memórias de minhas putas…, triste o livro. Juro que comecei a ler de coração aberto e gostando, lá pras tantas comecei a desgostar do personagem, um senhor que tem uma história de vida completamente desinteressante, amores frios com as mulheres da vida dele (ele deixou todas tristes com a tristeza dele) e depois de velho achou de amar uma adolescente como se ele tivesse cacife para falar de amor. Tenha vergonha!!!  Talvez a minha visão femininasubdesenvolvidanordestinadaaméricadosul não tenha me ajudado, mas como dona da minha opinião, não achei esses balaio todo.

Agora, não posso negar que as palavras encaixadas umas as outras por Gabriel García Marquez são uma delícia de ler. Parece que ele é bom mesmo, eu é que sou ruim.

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14 Comments

  1. Fabiana disse:

    O bom é que literatura é isso: nunca há consensos, porque ela mexe com a alma da gente. E, claro, a alma de cada um é diferente. Adorei os dois livros que citaste, principalmente o primeiro. Tive, inclusive, uma fase Garcia Marquez: as borboletas amarelas, a doença do esquecimento, as dezenas de José Arcádios e Aurelianos – que faziam a gente confundi-los todos… nossa, tudo isso povoou minha imaginação durante muito tempo. Mas, já passei por situações como a tua. Lembro, por exemplo, que tive uma fase Dostoievski: amei Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazov. Aí ganhei de presente O Idiota. Até hoje não consegui terminar.

  2. Hebe Cavalcanti disse:

    Ainda hoje, tenho nos meus momentos de solidão, borboletas amarelas que não me deixam ficar só. Cem Anos de Solidão é para mim um sonho lírico de minhas boas noites de sono. Adoro! E Memórias de Minhas Putas… , quanta boa recordação me trouxe esse livro! Mas, nada de errado em não gostar ou não entender GGM! Nada que é unânime é bom e com a sua opinião se comprova que GGM não é unanimidade, portanto, confirma a tese de que ele é simplesmente ótimo!

  3. Homero Fonseca disse:

    Camarada Inácio
    Mais uma coisa boa na blogosfera é o Caótico.
    Sobre o comentário da leitora Lea Cavalcanti à obra e ao autor Gabriel García-Márquez, diria o seguinte:
    - Devemos, sempre, separar o homem da obra. Se não, é decepção na certa. Todos são humanos e o que é humano é falho.

    - 100 Anos de Solidão é uma das obras mais “fáceis”, fluidas e divertidas da boa literatura. Agora, qualquer nível de leitura requer uma trajetória anterior. Começamos estudando matemática por aritmética e só depois vamos à álgebra e por aí vai. Ninguém entenderá Niemeyer se não tiver um rudimento qualquer de estética.

  4. Lea Cavalcanti disse:

    Aprendi a lição: devemos separar obra e autor. Para apreciar a obra.

    Concordo com Homero Fonseca que “qualquer nível de leitura requer uma trajetória anterior”, e ainda amplio essa ‘maturidade literária’ a uma espécie de ‘maturidade sensitiva’, que adquirimos vivendo. Isso é extremamente necessário para os analistas, professores e grupos de estudos, por exemplo.

    E, ao mesmo tempo, discordo da necessidade de pré-requisitos para se gostar (ou entender) qualquer tipo de manifestação artística, seja literatura, pintura, música, bonequinhos de barro, etc. Acho que as ‘regras’ na apreciação artística excluem e rotulam uma série de muitos milhares de olhares.

    Em meu entendimento (e de mais um monte de gente), a ARTE não precisa necessariamente ser entendida, e sim, sempre, sentida.
    Niemeyer por exemplo. No início de minha vida profissional (ainda estudante de arquitetura), suas obras me emocionavam pela plástica e proporção. Hoje, 15 anos depois, ‘entendi’ uma série de restrições quanto à obra de Oscar (escreveria muito sobre isso, eu e mais uma porção de ‘críticos’). E ainda existe o homem Oscar, o escritor Oscar, o comunista Oscar e o velhinho Oscar…

    Então, povo brasileiro, viva a arte, e todos os seus olhares. Ah! Lembrei. Eu também não gostei de Viva o Povo Brasileiro.

    Lea

  5. zeca cavalcanti disse:

    Querido – e recente – amigo Inácio.
    Inicio com parabéns pelo blog, e pelo nome do blog. Germinal o Caos.
    Quanto a Cem Anos de Solidão, (mal) comparo com Ulisses e José e seus Irmãos. Sendo os livros de Joyce e Thomas Mann belos e difíceis.Cem Anos é apenas menos difícil. Acho que a obra literária é como uma carta que se escreve a um estranho, sendo a percepção de cada um e de todos os leitores absoluta em si mesma. Já o autor e sua obra é um tema deliciosamente prosaico. Assim, a crônica da mãe de Leo e Tonton (Lea) é como uma gostosa conversa entre amigos. E tem o encanto de “desacralizar” obra e autor. Tudo com muito swing.

  6. Raimundo disse:

    Através de Samarone (estuario) cheguei até Caótico grande acontecimento do meu i-phone. Foi um alumbramento! Agora, encontrar Lea, Hebe e Zeca, criticos literários, não tem preço. Parabéns, Inácio! Parabéns mãe de Leo e Tom Tom.
    Raimundo Fernandes

  7. José Saramago disse:

    Gabo

    Os escritores dividem-se (imaginando que aceitem ser assim divididos…) em dois grupos: o mais reduzido, daqueles que foram capazes de rasgar à literatura novos caminhos, o mais numeroso, o dos que vão atrás e se servem desses caminhos para a sua própria viagem. É assim desde o princípio do planeta e a (legítima?) vaidade dos autores nada pode contra as claridades da evidência. Gabriel García Márquez usou o seu engenho para abrir e consolidar a estrada do depois mal chamado “realismo mágico” por onde logo avançaram multidões de seguidores e, como sempre acontece, os detractores de turno. O primeiro livro seu que me veio às mãos foi Cem anos de solidão e o choque que me causou foi tal que tive de parar de ler ao fim de cinquenta páginas. Necssitava pôr alguma ordem na cabeça, alguma disciplina no coração, e, sobretudo, aprender a manejar a bússola com que tinha a esperança de orientar-me nas veredas do mundo novo que se apresentava aos meus olhos. Na minha vida de leitor foram pouquíssimas as ocasiões em que uma experiência como esta se produziu. Se a palavra traumatismo pudesse ter um significado positivo, de bom grado a aplicaria ao caso. Mas, já que foi escrita, aí a deixo ficar. Espero que se entenda.

    Saramago.
    by O Caderno de Saramago.

  8. Lea Cavalcanti disse:

    Rapaz…

    Viu como meu comentário fez sucesso. Até Saramago comentou.
    (hoje no site dele) hehe

    Mesmo balançada com este depoimento…

    E pur si Chato

    Lea Cavalcanti

  9. Emerson disse:

    Olha…gostei muito do livro Cem Anos de Solidáo e, contrariando Lea Cavalcanti o livro me fez me sentir em cem universos diferentes, em cem mundos e ter cem vidas, e, lendo pela segunda vez consegui ficar + fascinado ainda com esse mundo de muitos personagens e personalidades, narrativa precisa e dinämica e minha admiracao pelo personagem que, acho eu, conseguiu exprimir + e + da criatividade e da vitalidade de Garcia Marquez e esse personagem foi José Arcadio Buendia.Sem dúvida nenhuma esse é um livro indispensável para qualquer amante e devorador de livros.Recomendo.
    Ah e nem adianta tentar ler sem nenhuma motivacao ou interesse pois deste modo vc nunca ira gostar do livro.

    *escreveu muito bem Lea Cavalcanti.

  10. Alex S disse:

    Cem anos de solidão é um livro perfeito abra seus horizontes e liberte sua mente femininasubdesenvolvidanordestinadaaméricadosul, e aprecie talvez a maior obra latino americana. abraço!!!

  11. Caro Alex,

    uma boa forma de “abrir os horizontes” é respeitar a opinião e o posicionamento das outras pessoas. Ninguém é obrigado a apreciar os monstros sagrados ou que os outros consideram bom gosto. A opinião de Léa, com a qual não compartilho, deve ser respeitada.

    Não é, pelo simples fato, dela não gostar daquilo que eu aprecio, que vou tratá-la como como inimigo, com desrespeito ou intolerância, como me parece você fez em seu comentário.

    Aliás, o ponto de vista feminino, terceiro mundista, nordestino e latino-americano é benvindo ao Caótico. Posso ter compreendido mal, mas me parece que suas observações são carregadas de intolerância, machismo e um bocado de preconceito. Caso eu esteja errado, desculpe-me. Caso minha visão seja correta, lamento informar que seus comentários são dispensáveis. Afinal, nem tudo na vida precisa virar briga de torcida organizada.

    Inácio França

  12. Arsenio Meira Junior disse:

    Cheguei atrasado. Mas estou aqui.

    E, primeiro, já visualizo a coragem do artigo.
    Em segundo, visualizo a ternura do artigo, e numa convergência, visualizo a primeira concordânvia minha com Lea.

    Na verdade, Cem Anos sempre me deixou enfadado.

    Clássico – na minha opinião – é Crime e Castigo, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quixote, Ana Karenina.

    To contigo Lea.

    De certa forma, foi bom ter chegado atrasado.

  13. carlos serpa disse:

    Li o Cem Anos (…). Não há, para a minha alma de leigo, distinção entre boa leitura e boa literatura e boa leitura é tudo o que me fale ao espírito, ao intelecto, ao sentimento. Li o Gabo recentissimamente, agorinha, à beira dos setenta e cinco. Achei-o extremamente simbólico em todos os sentidos, além de finamente irônico e bem representativo de nossa “latinidad”. Não me julgo qualificado para o exercício da crítica já que sou, desde a mais prisca infância, leitor onívoro e anárquico: ficção, história, arte, divulgação científica, filosofia, religiões (todas, sem exceção, direito (bacharelei-me), dicionários (de tudo), os falecidos (que pena!) almanaques (o “Eu Sei Tudo” à frente, mas todos os antigos “de farmácia”, o do “Tico Tico”, o Bertrand), enciclopédias, HQ… qualquer coisa impressa que me suscite a atenção.Hoje em dia, pra mal dos meus pecados, me perco também no labirinto internético para o qual me atrai o Monstro de Silício. Todas as opiniões são válidas e respeitáveis, porque, a meu ver, O TEXTO, PUBLICIZADO, É UMA ESTRANHA SEMENTE CUJOS FRUTOS VARIAM COM CADA LEITOR E, ATÉ, A CADA LEITURA. E, ainda: creio que “chato” é simplesmente aquilo com que a gente não consegue estabelecer cumplicidade (seja coisa, obra, ação, fenômeno ou pessoa).

  14. Serpa,

    você é da minha turma. Assino embaixo o que você escrevinhou. Você se dedine como “leitor anárquico”. Eu, como caótico. Boa distinção entre boa leitura e boa literatura. Vou plagiá-la por aí.

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