Aposto que cheguei atrasado a Como contar um conto, a síntese em livro de uma oficina completa de Gabriel García Márquez para um grupo de 10 roteiristas de TV e cinema, alunos da Escola Internacional de Cinema de San Antonio de Los Baños. Publicado há 17 anos, faz parte da bibliografia básica de qualquer estudante de Comunicação, Cinema ou de Letras com alguma pretensão literária
Eu é que sou meio lerdo. Só agora, em plena semana pré-carnavalesca, o resgatei do limbo das minhas empoeiradas prateleiras no alto do corredor. Um marcador de livros da livraria Poty, de Natal, com uma mensagem de ‘Feliz 1997’, caiu de dentro do meu exemplar. Lembro que, na época, andei à caça desse livro como quem procura um prato de comida.
Creio que adiei a leitura indefinidamente porque ainda me satisfazia com em ganhar a vida com o jornalismo diário. Há 15 anos, tinha certeza que redigir notícias para um jornal era uma atividade minimamente intelectual, daí talvez não fosse capaz de perceber a riqueza das discussões entre García Márquez e sua turma.
Consagrado como romancista, García Márquez estudou cinema em Roma na juventude e costumava aceitar encomendas para de cinema ou das emissoras de TV do México e da Colômbia. O método da oficina que oferecia na escola cubana que ajudou a fundar e financiar era surpreendentemente simples: os alunos apresentavam um argumento ou a ideia de uma história, que era trabalhada coletivamente sob sua coordenação.
A julgar pelas suas intervenções, o prêmio Nobel é uma figuraça simples, escrachada e sempre sincero em seus comentários, críticas e orientações. Parece evidente que ele não poupava dicas próprias de quem está há muito tempo no ramo e pulos-do-gato aos aprendizes, profissionais calejados em seus países.
Logo no início das conversas, ele recomenda aos alunos que sejam francos, não tenham medo de opinar com sinceridade a respeito da produção dos colegas, dizendo a verdade cara a cara. Sem franqueza, a oficina não atingiria seus objetivos. Ótimo conselho para quem costuma participar das oficinas literárias para elogiar e ser elogiado.
Mais ou menos no meio dos trabalhos, o escritor reforça essa proposta afirmando que suas oficinas não são feitas para quem não aceita por em discussão suas ideias “perfeitas”.
Durante as discussões, há uma tecla em que García Márquez não cansa de bater: no processo de elaboração de um roteiro, a primeira coisa a ser definida é a estrutura da história. Quando se define o esqueleto da narrativa, os diálogos e as situações acessórias são preenchidas depois com mais facilidade.
Mais do que recursos técnicos, Gabriel García Márquez deixa claro que para contar uma boa história é necessário compreender e se identificar com o outro. Ele não diz isso com todas as letras ou pedantismo didático, mas essa lição é dada em vários momentos das conversas transcritas.
Em determinado momento, por exemplo, uma roteirista afirma que os homossexuais são frívolos e o escritor não deixa passar incólume a opinião preconceituosa: “São pessoas que desafiam preconceitos e códigos morais muito enraizados, que enfrentam o escárnio permanente, que, contra ventos e marés, afirmam seu direito a existir. (…) Para suportar tudo isso é preciso ter um caráter muito forte”.
Uma de suas recomendações me encheu de otimismo. Talvez até de confiança. Ele sugere que os novatos nessa arte de escrever tentem construir relatos a partir de suas próprias experiências de vida, com fatos que protagonizaram ou testemunharam. Esgotadas essas histórias, é possível que novas possibilidades se apresentem ao contador de histórias.
Com a saúde frágil, García Márquez já não vive o dia-a-dia da escola de San Antonio de Los Baños, mas suas oficinas deviam valer tanto a pena quanto a leitura de Como contar um conto. Roberto Gervitiz, um dos brasileiros presentes nas “jornadas de trabalho” que viraram livro, é um dos roteiristas do filme Jogo subterrâneo, de 2003, e de quatro dos 10 episódios da série Carandiru – outras histórias, exibida pela Rede Globo em 2005.
A outra brasileira na oficina era Denise Bandeira, co-autora das novelas globais Escrito nas estrelas e A favorita. Ah, ela também foi supervisora de Malhação. É bem verdade que não é lá grande coisa, mas acho que Gabriel García Márquez não pode ser responsabilizado por isso.
4 Comentários
Eu, que sonhei um dia com o jornalismo, preciso ler o livro, França.
Logo, como bem sabes, devolverei o teu exemplar (no ano que vem, kkkkk.)
Mas lembrei agora de “O OUTONO DO PATRIARCA”, do mesmo autor do livro dissecado no artigo. Bacana demais. Vale a pena ler García Marquez.
Rapazes… cuidado com Gabriel García Márquez. hehehe
Eu agora estou em Guimarães Rosa, na verdade, no passado, apenas comecei Grande Sertão e perdi. Estou descobrindo então. Estou lendo… ?? esqueci o nome. E estou amando sua forma de escrever.
Necessito dicas, Arsênio e Inácio, se puderem preceituar-me. (uma adaptação tosca de Guimarães!?)
bjs saudosos
Lea
Olá Inácio, tudo bem?
Trabalho esse conto com meus alunos de tradução na Universidade de Brasília e gostaria muito de saber quem é o tradutor desse livro. Poderia me dizer?
Abs,
Luis Carlos
Faltou dizer qual dos contos: “Ladão de Sábado”.
Obrigado,
Luis Carlos