Como se fosse ontem…

Tinha acabado de chegar a São Paulo em agosto de 1991 com o ego desmantelado, exatamente um mês depois de ser reprovado no exame psicotécnico para passar de estagiário a repórter do Jornal do Comércio. Sim, fui reprovado em psicotécnico de jornal.

Durante muito tempo, jornalistas mais velhos diziam que eu não deveria alardear esse tipo de coisa por aí, porque pegava mal, mas já não me importo. Na verdade, tenho a impressão que esse é o tipo de coisa que conta pontos a favor, reforça o folclore pessoal, o que talvez compense o fato de ser meio fraco em matéria de autopromoção.

O teste exigia que o examinado concluísse uma série de desenhos incompletos. Em alguns, havia apenas um tracinho, em outros um quadradinho ou coisa que o valha. Em um dos espaços, havia apenas uma espécie de cobrinha, ou melhor, um “s” mal-feito. Preenchi o quadro com outras dezenas de cobrinhas parecidas e descrevi como espermatozóides a caminho do óvulo. Em outro, havia um quadradinho escuro. Fiz mais 12 iguais e disse que era um cartão não-premiado da loteria esportiva. A psicóloga não gostou. Eu era muito menino, não percebi que a miserável era burra e desprovida de humor.

Pouco tempo depois, um amigo meu, cabeludo e barbado, fez um teste parecido no Diário de Pernambuco. Com medo de levar bomba, comeu a psicóloga. Infelizmente, não tive essa opção: a moça era incomível.

Então fui para São Paulo com passagem só de ida, daí era imperiosa a necessidade de arrumar trabalho, nem que fosse para pegar o rumo de casa.

O sensato Jodeval Duarte, na época com um cargo de chefia no JC, me entregou uma carta de recomendação para um jornalista e empresário pernambucano há muitos anos em São Paulo, Múcio Borges da Fonseca. Levei a carta para Múcio num puta edifício empresarial da avenida Paulista, com corredores de mármores e outras riquezas.

Esse conterrâneo ganhava um bom dinheiro fazendo publicações corporativas, mas passou a maior parte da vida em redações. Na do Última Hora, foi colega de Jorge de Miranda Jordão, diretor de redação do Diário Popular, pra quem escreveu um simpático bilhete me recomendando, mesmo sem nunca ter me visto. Generoso Múcio. Só o vi nessa oportunidade e nunca pude agradecer a confiança. Ele morreu do coração no ano seguinte.

No dia seguinte, fui ao Diário Popular com o bilhete na mão, pois meu protetor tinha a informação de uma vaga aberta na editoria de polícia. Esperançoso, amedrontado, envergonhado e sem nenhuma auto-confiança, fui ao jornal da rua Major Quedinho, pertinho do Anhangabaú. Nem entrei. A secretária informou que Miranda estava no Rio de Janeiro. Liguei para Múcio e agradeci a tentativa, mas ele foi categórico: “É mentira esse negócio de viagem. Ele está aqui em São Paulo. Volte lá e se apresente como Múcio Borges da Fonseca, pode mentir. A secretária sabe que sou amigo dele, mas nunca me viu. Vá lá”.

Voltei e fiz o que ele mandou. Silmara, a secretária de Miranda (ao lado, na única foto que encontrei dele na web), me mandou subir na mesma hora. No quinto andar, ela desconfiou que o rapazola diante de sua mesa não era o mesmo com quem falava ao telefone sempre que Miranda pedia uma ligação.

- Você é Múcio Borges?

- Múcio Borges Filho – e não disse mais nada, que não sou besta.

Quando entrei na sala de paredes de vidro, o “aquário”, Miranda quase deu um pulo.

- Quem é você?

- Foi Múcio quem disse para usar o nome dele. Vim pedir emprego, ele disse que tinha uma vaga, trabalhei como repórter do Jornal do Comércio, lá no Recife, trouxe uma pasta com algumas matérias e …

- Não quero ver isso, não. Pode guardar. A vaga que tem é de polícia? Você já fez polícia antes? – foi assim mesmo, sem delicadeza alguma. O sujeito é papel de embrulhar prego.

- Não…

- Você conhece São Paulo? Precisa conhecer São Paulo muito bem pra fazer polícia aqui.

- Estou aqui há 15 dias, mas aprendo.

- Nunca fez polícia, não conhece São Paulo e quer ser repórter de polícia do Diário Popular? Aqui, a gente não fica só no boletim de ocorrência, não. Repórter tem que ouvir a versão da polícia, do bandido, do parente da vítima, da mãe do bandido. Aqui, repórter tem que entrar em delegacia e em favela. Polícia é fonte, bandido também, é tudo fonte.

Pensei que tava fudido, mas ele mandou chamar “o Giba”, um magrelo, de barba negra e calvo, com jeito de gente boa. Era o subeditor Gilberto Lobato de Vasconcelos, o mesmo que, há quase um ano me mandou um livro baseado em sua tese de doutorado e que, além de não pagar, ainda não li.

- Giba, esse menino diz que é repórter. Ele vai ficar uns dois ou três meses lá com vocês. Depois a gente vê se dá para ficar com ele na vaga do Zanfra.

Fiquei quatro anos na calorosa redação do Diário Popular, o mais instigante jornal em que já trabalhei. Com pouco tempo, percebi que Miranda Jordão era um gênio. Só há uns dois anos, lendo o livro Cães de Guarda, da historiadora Beatriz Kushnir, soube do papel que Miranda desempenhou na resistência ao golpe militar de 1964 quando dirigia a primeira versão do jornal Folha da Tarde. Entre outras coisas, ele – bom partido, cheio da grana, com um cargo importante – escondeu Carlos Marighella em seu apartamento.

Por isso, enquanto estou mergulhado na leitura de Os Demônios, de Dostoievski, pretendo contar no Caótico as histórias que costumo repetir nas farras, historinhas que dão ideia do que se fazia no Diário Popular, o jornalismo segundo Jorge de Miranda Jordão.

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13 Comentários

  1. Arsenio Meira Junior
    Publicado 25 de agosto de 2010 em 15:11 | Permalink

    Inácia, vamos em frente. Que venham mais histórias. Um Jornalista rodado, vivido e do seu quilate não pode se furtar em nos privar de tal prazer.

    Mande brasa, sempre.

    O tom coloquial, de bate-papo em teus escritos engrandece ainda mais o texto e a leitura.
    Mais tarde te mando por e-mail aquele material que faltou enviar.
    Abraços

  2. Raphaela
    Publicado 25 de agosto de 2010 em 17:56 | Permalink

    Múcio Borges Filho??? Cara de pau! rsrsrs

  3. Samarone
    Publicado 25 de agosto de 2010 em 21:03 | Permalink

    boa, frança.
    sama

  4. lea
    Publicado 25 de agosto de 2010 em 21:54 | Permalink

    Inácio

    Muito interessantes esses caras turrões e boa gente. Já me deparei com alguns poucos e é bom quando tiramos as cascas deles e saboreamos os seus recheios.

    Ótima sua história, acho que ele adorou teu jeito de chegar até ele né?

    abç

    Lea

  5. Publicado 25 de agosto de 2010 em 22:22 | Permalink

    Inácio, não conheço tuas histórias, muito menos participei de nenhuma destas farras que tu referes no final, mas me senti nas próprias a degustar lorotas e rir um bocado com as cenas facilmente visíveis com a tua narrativa. Dá vontade de puxar o banquinho e pedir mais uma.
    Abraço.
    Magna

  6. Luis Carlos Monteiro
    Publicado 25 de agosto de 2010 em 22:57 | Permalink

    Muto bacana, a crônica. Aguardemos os próximos capítulos.

  7. Publicado 26 de agosto de 2010 em 7:47 | Permalink

    Lea,

    sinceramente, pode ser que ele tenha topado com minha cara-de-pau. Ou melhor, meu desespero.

    mas o decisivo mesmo foi a indicação de Múcio Borges. Eles eram muito amigos.

    abraço

  8. Publicado 26 de agosto de 2010 em 11:13 | Permalink

    Inácio,

    Já sabia que Sama era doido de pedra, mas para mim é novidade saber que você foi reprovado em teste psicotécnico. Pensando bem, agora com mais calma, tem mesmo tudo a ver. Aliás, não é à toa que o nome do teu blog é Caótico. Quer mais uma prova? Se passar por outro. Alguém me disse que isso dá cadeia!

    Abraços,

    Dimas Lins

  9. Publicado 26 de agosto de 2010 em 11:15 | Permalink

    Ah, você com Demônios e eu acabei de ler Crime e Castigo do mesmo autor. Gostei bastante. Agora estou na fase dos clássicos e minha leitura atual é Madame Bovary. Engatilhado já está Galileia, esse contemporâneo e exceção à minha fase atual, de Ronaldo Correa de Brito, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura de 2009.

    Abraços,

    Dimas Lins

  10. Paulo de Tarso
    Publicado 7 de setembro de 2010 em 8:11 | Permalink

    Amigo nos conhecemos desde aquela época em São Paulo e nunca soube desta deliciosa versão dos fatos da sua vida. Maravilhosa, engraçadíssima. Um abração.

  11. Silmara Manfredini
    Publicado 20 de janeiro de 2011 em 10:54 | Permalink

    Inácio

    Caramba, fiquei muito feliz de me ver na sua história.

    abs

    Silmara

  12. Publicado 17 de abril de 2011 em 19:25 | Permalink

    Puxa, e ficou com a minha vaga. E eu nem sabia que o Miranda sabia da minha existência…

  13. Estênio Brasilino
    Publicado 21 de dezembro de 2011 em 16:27 | Permalink

    Amigo cabeludo e barbudo? Psicóloga comível do DP? Psicóloga incomível do JC? Nomes… queremos nomes!!!

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  2. [...] página.Foi a primeira vez na vida que escrevi um texto de ficção. E o fiz contente que só vendo.Clique aqui para ler Como se fosse ontem…Clique aqui para ler Como se fosse ontem… (II) Enviar por email – ImprimirTags:Diário [...]

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