Nos últimos dias, o tempo da leitura foi arrancado na marra. Duas páginas no banheiro, mais duas enquanto aguardava a milésima reunião do ano, dois parágrafos na cama antes de arriar no sono, outra página no carro da prefeitura, correndo o risco de descolar a retina. E assim foi, aos trancos e barrancos, da pior maneira possível li 12 contos de um dos melhores escritores da história.
Há tempos que eu estava me devendo ler alguma coisa de Anton Tchekhov (se ainda lembro das aulas de russo com a professora Ewa, a pronúncia é mais ou menos assim: txerróf). Antes de chegar ao último conto, estava com uma inveja danada de quem leu 22 livros dele, como o blogueiro gaúcho Milton Ribeiro.
Os contos do russo foram escritos no final do século XIX, poucos no início do século XX, mas poderiam ter sido publicados na semana passada aqui no Brasil, no Sri Lanka ou qualquer outra parte do mundo. A prosa de Tchekhov é atualíssima. Esses contos jamais vão caducar, pelo menos não enquanto os humanos se apaixonarem, sofrerem por do amor, sonharem, alimentarem esperanças de mudar a vida.
O pessoal que estuda história e crítica literária diz que ele mudou os rumos da literatura porque tratou com técnica e poesia o cotidiano do homem comum, gente como o médico de província, o órfão explorado, a mocinha do interior que não aceita o casamento arranjado.
É verdade isso que dizem os especialistas. Enquanto avançava na leitura, senti que já havia encontrado Tchekhov em algum lugar, já o conhecia de vista. Há muito de Tchekhov nas crônicas de Rubem Braga. Também há Tchekhov no romance de Mário Benedetti. Encontrei Tchekhov em Joyce, que começou a escrever suas coisinhas quando o russo já era popular que só a gota-serena.
Há várias coletâneas de histórias espalhadas por aí, de diferentes editoras. O que li foi A dama do cachorrinho e outras histórias, da L&PM, presente de aniversário da minha filha Júlia. Nos contos desse livros, a rígida hierarquia do czarismo, a aristocracia decadente, a miséria no campo, a neve, tudo isso é apenas pano de fundo para uma narrativa delicada, sutil, espelho do respeito e do amor do autor por quem sofre, pelos fracos, pelos explorados. O que importa são os personagens, o ser humano.
Mas há sarcasmo também. No conto “A irrequieta”, a mocinha recém-casada com o jovem e tímido médico é totalmente deslumbrada com o mundo das artes, vive em torno de pintores, atores, escultores, escritores. Não pinta um borrão de caneta, não escreve uma vírgula, mas é uma artista. Ao seu modo, com sutileza e sem julgamentos morais, o autor é implacável com a moça.
Esse conto é um bom exemplo da atualidade do olhar de Tchekhov sobre a sociedade de sua época. Se trocarmos o Volga pelo Capibaribe, a neve pelo calor, os casacos de lã pela saias indianas compradas no shopping, identificamos a “irrequieta” em dúzias de babaquinhas que vivem em torno de bandas de música, de cineastas, de produtores. Gente que gosta de arte e de cultura, desde que essa cultura seja produzida por gente branca e que o povo fique bem longe, só aplaudindo. Ah, se eu tivesse o talento de Tchekhov…
O conto que dá título ao livro faz juz à fama. É a perfeição em forma de narrativa curta, uma beleza. Os personagens Gurov e Anna se tornam mais palpáveis, mais reais a cada parágrafo. Senti a ansiedade dos amantes, a necessidade de ver o outro, a dor da paixão clandestina, a incerteza. O final sem fechamento, sem conclusão, é de lascar de tão bom.
Alguém nos comentários sobre o livro Dois Irmãos, acho que foi Renatinha Reynaldo, disse que acabou a leitura e se sentiu feliz. Talvez se eu tivesse lido esse livro de uma tacada só, sem tantas interrupções e aperreios, meu sentimento também fosse igual. Mesmo assim, a sensação no final de vários contos (principalmente “A corista”, “A irrequieta”, “A dama do cachorrinho” e a “A noiva”) é de que alguém tinha acabado de me falar algo importante, algo capaz de explicar ou mudar muita coisa na vida.
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Sobre o escritor
Anton Tchekhov viveu apenas 44 anos, mas até hoje faz barulho na alma de quem lê seus escritos. Seus contos revelam sensibilidade e que ele tinha um lado bem definido na vida: o lado dos mais fracos. Gostei tanto do que li, que procurei imagens da sua cidade. Encontrei a foto da casa dele, na cidade que nasceu, Taganrog, no sul da Rússia, à beira do mar de Azov.
5 Comentários
Agradeço a referência e vejo que, apesar da falta de tempo — nossa pandemia — lê-se muito bem por aqui.
Tens total razão sobre a universalidade de Tchekhov. Meu Volga é o Guaíba…
Fico feliz que o secretário de Comunicação de Olinda alterne reuniões e boas leituras, mesmo sob o risco de sua retina…
Grande abraço.
Cao Inacio,
apabens pelo site.Nao deixo de ler depois que descobri.
Sugiro que voce coloque como link o excelente bolg de Eduardo Coelho “Autores e Livros”.Excelente.Ele e especialista em Manuel Bandeira ,e um dos criticos em ascensao no Brasil-tem apenas 30 anos-,e editor,responsavel pelo departamento de documentacao da Fundacao Casa Rui Barbosa.O site alem de super legal nos abre horizontes lusitanos e africanos lus]ofonos.
Abraco
Lula
Luiz Cláudio Arraes? Milton Ribeiro?
Tá bem esse blog!
Seguirei o relator e sugestão será acatada na íntegra, senhor Lula.
Salve, Inácio!
Melhor que Tchekhov é o repeteco de 87: Mengão campeão, Internacional vice e a Coisa na segunda divisão!
grande abraço
Esse livro me dá péssimas lembranças. Foi um dos únicos episódios em que fui flagrado tentanto dar o bote em um bom livro, em sampa, e por pouco não terminei em uma delegacia. O vendedor ficava gritando “tá me tirando, mano”, quando eu só queria tirar mesmo era o livro.
A casa do cara é foda.
Samarone