Tinha 20 anos e estava cursando Jornalismo quando fui apresentado a um livrinho vermelho com os contos curtíssimos do colombiano Jairo Aníbal Niño. Foi Paulo Goethe, hoje repórter do Diário de Pernambuco, quem me emprestou o volume fininho, mas cheio de textos encantadores, poesia escrita em prosa, sem estrofes ou versos.
O título do livro era lindo, prenhe de ritmo e verdade: Contos Povoados de Povo.
Na época, a Livro 7 era a meca dos recifenses que amavam a palavra escrita. Só havia cinco exemplares disponíveis nas estantes pintadas de branco da livraria de Tarcísio Pereira. Comprei três, Goethe levou os outros dois.
O estoque foi utilizado como presente para namoradas em potencial. Distantes tempos em que poesia de autores quase desconhecidos era usada como arma para encantar as meninas. Palavras, alheias ou da própria lavra, eram os únicos instrumentos de sedução disponíveis para os dois quase-jornalistas magricelas, tímidos e mal-diagramados.
Não lembro se os versos em prosa de Niño me foram úteis no campo do amor. Nas coisas do amor, errei mais do que acertei. Sei que meu rápido estoque acabou rapidinho.
Tenho certeza disso porque, nos primeiros meses da minha passagem de quatro anos por São Paulo, fui à distribuidora da editora Paz e Terra, na rua do Triunfo, no centrão paulistano, para comprar mais alguns exemplares dos Contos. Telefonei na véspera, confirmaram que tinham o livro à venda no varejo. Fui, mas voltei de mãos abanando: na madrugada, um incêndio tinha torrado tudo.
Só muito tempo depois, já em pleno século XXI, consegui comprar o livro novamente.
As razões para tanto interesse estão na singularidade de historinhas curtas, porém densas. Jairo fala de amores, dores, encontros e desencontros em cinco ou seis linhas líricas, leves, poéticas (já falei isso algumas linhas acima. A redundância é deliberada) e, além de tudo, com muita originalidade. Nos contos, as descrições estão repletas de “resplandecentes”, “rubros” e “brilhos”. Niño também é artista plástico e consegue misturar pintura e poesia com palavras.
É o seu olhar, sua forma de se expressar sua relação com o mundo, com as pessoas, com as crianças e com o povo do seu País, que tornam única a experiência de ler seu pequeno livro. A cada continho, um pequeno alumbramento daqueles de Bandeira.
Como o colombiano é quase desconhecido no Brasil, já nem sei pra quantas pessoas indiquei esse livro. Samarone e o médico-escritor Lula Arraes foram dois deles.
Abaixo, um continho de Nino:
Levantou-se uma sucessão continuada de ondas espessas e vermelhas, uma tormenta de fios purpúreos se abateu em espiral e a dor como uma galinha de pés de aço começou a remover a terra como uma palpitação. Era tua imagem de mulher ausente que estava fazendo estragos em meu coração.
Sobre o escritor
Colombiano nascido em 1947, Jairo Aníbal Niño foi expulso da escola e, ainda adolescente, passou a viajar pelo interior do país trabalhando com ajudante de caminhoneiro, ator de teatro mambembe, mágico e marinheiro. É poeta, dramaturgo, pintor e contista. Foi diretor da Biblioteca Nacional da Colômbia. Um dos seus livros mais conhecidos em língua portuguesa é Alegria de Gostar, onde ele saiu-se com essa beleza de verso: “Seu sorriso é como um gol olímpico”. Pense numa cantada de qualidade!

9 Comentários
Inácio, onde se encontra os livros desta criatura mágica?
(PS: Creio que não era só vc o estudante de jornalismo que bebia nestas paragens. Ou então, andaste emprestando exemplares para alguns teus colegas-seguidores… andei reconhecendo algumas inspirações).
Faço coro como Fabiana.
Onde encontrar essa poção de sinergia encadernada?
Perdão, “com Fabiana”.
Fiz o óbvio – consultei o site da Cultura e parece que eles tem o livro em estoque.
Hoje mesmo vou ver se tem na loja daqui.
Fabiana,
pelo que sei tem pouca de Niño disponível em português. Acredito que A Alegria de Gostar também foi editado por aqui (em Portugal é certeza)
ô meu deus, que coisa mais lindinha essa…adorei, adorei conhecer o livrinho e ainda das suas andanças com paulo goethe. devo muita coisa a esse moço….
Inácio,
não sei se você lembra, mas já tive um “Contos povoados de povo”. Emprestei, acho. Só sei que sumiu. Por isso, o apelo: Quem estiver com ele por engano ou esquecimento, por favor, devolva.
Quando estive na Colômbia, procurei esse livro num sebo em Cartagena e num outro, bem grande por sinal, em Bogotá. Nem sombra. Procurei também em algumas livrarias e nada. Tinha curiosidade de ver uma edição em espanhol.
Meu caro Inácio,guardo ele com o maior cuidado.É uma preciosidade e um presente que você me deu ao indicá-lo.
Abraço
Lula Arraes