Estava aquecendo os motores para escrever sobre Crime e Castigo, uma das melhores coisas que já li. A sensação era a mesma de um reserva recém promovido do time dos júniores, aquecendo para entrar no clássico em andamento: me sentia na obrigação de transmitir exatamente porque a obra-prima de Fiodor Dostoievski é uma obra-prima.
Foi quando, escacavilhando pelo Google, descubro o blog de um tal Milton Ribeiro, de quem nunca tinha ouvido falar. Pelo que entendi o sujeito é de Porto Alegre e deve ter uns 50 e poucos anos. E, além de escrever bem pra cacete, está guerreando do lado de cá da trincheira. Pegando gancho numas porcarias escritas por Lya Luft e publicadas na revista semanal dos neonazistas, ele falou do livro de Dostoievski de uma maneira muito clara, leve e livre de pedantismo. Admito que não teria a competência dele, por isso decidi não acrescentar nada, apenas reproduzir aqui seu texto.
Para quem preferir visitar o blog do sujeito e ler “no original”, basta clicar aqui. Caso contrário, basta ir no leia “leia mais” aí embaixo. (A capa da ilustração é a da edição da editora 34, com tradução direta do russo. Tenho muito carinho por esse livro também pelo fato de ter sido presente de Dia dos Pais de meu filho Pedro e de sua mãe)
O Crime e Castigo da Lya que leu mas não entendeu
O leitor André Luiz Zambom resolveu me dar uma alegria: pediu que eu lesse a última crônica de Lya Luft na Veja. Eu sou um cara obediente e logo fui à banca comprar a coisa. O título da crônica é Crime e Castigo e este fato indignou o André. Pus-me a caminhar pela rua enquanto lia Lya. Nossa, que falta de horizontes e informação, que bisonhice. Lya fala da forma mais simples que se possa imaginar sobre “nossa sociedade enferma”. Atira para todos os lados sem fixar-se em nenhum: nossas crianças não recebem educação de boa qualidade, formamos criminosos ou inúteis, os pais não lhes dão limites e são dominados pelos primeiros, os professores são cheios de falsas teorias e parecem existir apenas para enfiar ideologias nas cabeças dos pobrezinhos dos alunos, as ruas são locais de descontrolada criminalidade e há que mudar tantas leis quanto possível, precisamos de autoridade e de punições justas.
Em um momento, a autora perde aquele tom messiânico que a auto-ajuda lhe deu e parece gritar com o leitor: “Antes de mais nada, é dever mudar as leis — e não é possível que não se possa mudar uma lei, duas leis, muitas leis. Hoje, logo, agora!”. Ela tem objeções que não acabam mais, só não consegue propor nada.
É um texto indigente demais para receber a merecer uma das melhores grifes de São Petersburgo, trata-se de uma mera exposição de lugares-comuns, é de chorar de ruim. Pretendo chegar à Raskólnikov, mas primeiro seria adequado dar uns raquetaços nos argumentos da Lya que lia e até se informava, uma dia. Lya, tu que carregas o nome do grande Celso Pedro Luft devias saber isto: aquillo que reprime o crime não é o tamanho da punição, mas sua INFABILIDADE. A atividade criminal é tão apreciada em nosso país não pela inexistência de leis, mas pela forma obtusa, eletiva e errática com que é aplicada. Quanto aos professores e pais: será que antes — quando os alunos era punidos, ameaçados e até apanhavam — era melhor? Sobre a sociedade enferma: houve acaso alguma época em que ela foi considerada sã? “Sociedade enferma” é um daqueles truísmos que querem silenciar o debate. Ora, essas expressões são tão úteis quanto dizer que o governo X “não fez nada” (assim como o Y e Z), que os todos os governantes estão lá para se locupletar, que os negros agridem e roubam, que os judeus só roubam, etc. São coisas do mais baixo senso comum, ficam ridículas num texto.
Eu ainda acho que uma revista de circulação nacional devia se preocupar com a qualidade do conteúdo e chamar à razão os articulistas que espalhassem — “avalizassem” talvez fosse um verbo melhor — as tolices do senso comum. Mas, sei, é pedir demais para a Veja, cujo maior produto de venda é a confirmação das impressões que assaltam as mentes dos brasileiros médios, principalmente as paranóicas.
Crime e Castigo… Todos os alentados volumes de Dostoievski deveriam se revoltar e cair na cabeça da Lya sem ley. O que tem a ver uma das mais belas histórias inventadas por um ser humano com o lastimável texto de Lya Auto-Ajuda? Vejamos. O livro trata do estudante Rodion Raskólnikov. Ele é paupérrimo como o texto de Lya e, tal como ela, tem a certeza de que é um ser extraordinário. Acontece com muitos, só que Raskonikov age. Cheio de teorias confusas sobre a superioridade de uns sobre os outros, achar-se no direito de utilizar quaisquer meios para cumprir seu destino de grande homem. Tem sempre em mente o nome de Napoleão, cuja biografia seria a comprovação de que é preciso agachar-se, chafurdar na lama e mesmo matar com a finalidade de tomar o poder — o dinheiro, no caso de Raskolnikov. E ele resolve tomá-lo de uma agiota, uma velhinha que além de inútil ainda era um câncer social. Para fazer este trabalho de corrigir Deus, faz-lhe uma visita acompanhado de um machado, porém a coisa começou a se complicar quando a sobrinha Lisavieta chegou repentinamente e viu a tia caída num mar de sangue enquanto Raskolnikov pegava a grana. O que fazer senão matar também Lisavieta? E pimba nela também!
As motivações de Raskólnikov nada têm a ver com aquelas explicadas por Lya, mas e o Castigo do título? O Castigo é o mais curioso. O investigador Porfiri Pietróvitch tem diversas entrevistas com Rodion, que se compromete a cada conversa. Porfiri sabe perfeitamente que Rodion é o assassino, mas nega-se a prendê-lo. Na verdade, ele passa a admirar o pobre estudante e faz questão que ele se entregue. Diz-lhe várias vezes: “Estou esperando sua delegacia com a confissão dos assassinatos; não me faça prejudicá-lo. Sua pena será MENOR se você se entregar”. Bem, aqui a analogia da Lya Louca Por Punições se desmancha inteiramente. Assim como os professores e pais tentam compreender seus filhos, Porfiri vai com consideração e — por que não dizer? — amor à humanidade deste rapaz inteligente e cheio de febres e confusão. A pena é inevitável, o erro é irreparável e Raskolnikov irá para a Sibéria, mas o que Porfiri quer e aposta é em dobrar o estudante, dando-lhe de presente uma pena do tamanho que um ser humano pode suportar e não um castigo perpétuo. Há no livro tudo o que falta à crônica de Lya: compreensão, amor e respeito pelo ser humano. Piedade. Fica claro que o Castigo que Porfiri impõe a Raskolnikov é o de dobrar-se e admitir o erro, saindo do episódio como um homem melhor, sem as teorias alucinadas que justificaram o ato de matar (“Se não há Deus, tudo é permitido”). Tudo isso ocorre em diversos diálogos de fantástica qualidade e ironia. Eles são de compreensão bastante simples o leitor.
(Estou passando por cima de personagens importantes como Sônia, Svidrigáilov, Lújin e outros para ficar só com o cerne da história).
Agora, eu pergunto: será que Lya Luft — a que diz “que só tudo piora” (não que eu ache que “tudo só melhora”) — não prejudica e confunde ao exigir Autoridade, Punições e Leis mais fortes, atribuindo a seu texto a grife de um marco de nossa cultura? Será que o castigo inteligente e interessado de Porfiri Pietróvitch serviria para a Valquíria da Vingança? Claro que não! O que há naquela crônica é um pensamento superficial acompanhado de um substrato de profunda ignorância. Pobre do Brasil que tem Lya Luft escrevendo para milhares, talvez milhões, de leitores. É de chorar.
..oOo..
A Valquíria Punitiva finaliza seu texto assim…
“Muito crime, pouco castigo, castigo excessivo ou brando demais, leis antiquadas ou insuficientes, e chegamos aonde chegamos: os cidadãos reféns dentro de casa ou ratos assustados na rua, a bandidagem no controle; pais com medos dos filhos… usw.”
8 Comentários
Não, não vou escrever sobre aquilo hoje, porque aquilo tá doendo demais
em mim ainda (Aquilo pra quem não sabe é o Santa Cruz). Tô pior que aquele anjo caído. Vou falar pouco, hoje, pouquinho, sobre outro assunto: o livro de Samarone “Viagem ao crepúsculo”, ou melhor, a crítica feita por Inácio. Não sei se é de propósito, mas sempre que leio um texto de Inácio fico feliz da vida ou com uma raiva de
lascar. Às vezes juntam as duas coisas.
Nunca esqueço um dia que nos encontramos na rua, quando ainda éramos
repórteres de política (Vc no Diario e eu na Folha). Estávamos em
Jaboatão, em frente ao comitê de Rodovalho. Tudo era verde por lá, menos
vc, que estava de camisa de malha vermelha.
Eu fiquei supresa, porque nossos jornais (especialmente o Diario) sempre
são bem claros no tipo de roupa que se deve vestir na eleição. Quando
cheguei em Jaboatão e te vi, tomei um susto. E não podia deixar de
perguntar: tás fazendo o que de vermelho aqui, menino?
Daí vc, respondeu, mais ou menos assim: “tô mostrando a minha cara,
mostrando meu lado”. Logo lembrei que Roberto Magalhães sempre falava que
gostava muito de vc, mesmo vc sendo “petista”. Dizia que vc era
transparente, não ficava escondendo a preferência política, como faz a
maioria dos jornalistas, inclusive eu. kkkkk.
Então, acho que vc foi um cara que sempre me marcou, ainda por cima
depois que conheci Sérgio Miguel Buarque, que fala sempre de você, quase todos os
dias. Mas tem coisas que eu fico p da vida demais. E, se eu não falo, eu
morro.
Na mesma crítica, vc pede que se leia o livro de Samarone com o “coração
aberto para aquilo que o outro tem a dizer, com disposição para sentir e
pensar com liberdade”. Só que antes dá uma lapada da gota serena em Lya
Luft e por tabela, em quem gosta dela. Pô, e se eu gosto? E se eu gosto
de Dostoiévsk, Camus, Sartre e tb gosto de Lya Luft, da Bíblia, de
Exupéry? É lascar isso, viu. É por isso que não gosto de ler críticas
literárias e o segundo caderno, como diz Zeca Baleiro. Acho que todo
mundo faz críticas pela ótica que vê o mundo e o resto é “baboseira”,
piegas, brega…. É foda! Anizio Silva quase me mata quando eu disse que
gostava do “Pequeno Príncipe”. Como é que pode? Gosto, já dizia minha
vó…
Quase que não termino de ler a sua crítica, hoje, mas, como é seu estilo, e estilo
não se muda, vá lá. Eu li Crime e Castigo, vou ler o novo livro de
Samarone e também li e leio Lya luft. Ora, ora! Acho que ainda vamos
brigar muito! Não publicamente, pq eu sempre vou sair perdendo. kkkk
Aline,
que tal tocar fogo nos “segundos cadernos” aí existentes… e criar os nossos.
Inácio fez o “segundo caderno” dele. Falta você.
Aviso aos navegantes: Hoje de tarde eu atualizo esse blog! prometo.
Eu separo minha vida em Antes e Depois de ler Crime e Castigo do Dostoiévsk e O Estrangeiro do Camus. Dá uma depressão danada depois de ler, e precisa ter uma força da porra para ressurgir. Recomendo As Pipas e Promessa ao Amanhecer ambos do Romain Gary. Este último é um prato cheio para os psicanalistas, que aliás, foi através de um que conheci o autor. Não consigo encontar mais nenhum livro deste autor que é fantástico e, detalhe, esses dois livros só encontrei em sebo, pelo menos aqui em Salvador. Todo mundo que emprestei As Pipas chora. Mesmo quando releio choro. Promessa ao Amanhecer dá uma raiva danada.
bj
Complementando o texto acima:
“Em 1973 a editora “Gallimard” recebeu um inédito intitulado “Gros câlin” (O lambe-botas), relato prenhe de sustância, força, pundonor e novidade de escrita. Intimidada, porque o texto era de facto inovador e ia contra a corrente dos romances que a época e as vendas em montra festejavam, a publicação foi recusada.
Dias mais tarde é o “Mercure de France” que recebe o dactiloscrito. A sua responsável, Simone também de apelido Gallimard, pesados os prós e contras dá-o a lume. Olhado a princípio com certa incomodidade pela crítica, a pouco e pouco a obra impõe-se. Começa a sua marcha triunfal e é proposta para o prémio Renaudot. O nome do seu autor, Emile Ajar, por ser desconhecido começa a suspeitar-se que cobre um autor de gabarito: para uns, Raymond Queneau; para outros, Louis Aragon. E outros mais…
Mas um dia, o dia do lançamento de um volume depois célebre, “La vie devant soi”, o mistério descripta-se: o seu autor Emile Ajar era o nome com que Paul Pavlovitch, o sobrinho do já galardoado e consagrado escritor Romain Gary (autor, por exemplo, de “Racines du ciel”, “La promesse de l’aube” de “Lady L”) dera a lume o livro que, logo a seguir, receberia o prémio Goncourt, venderia mais de um milhão de cópias e seria traduzido em 23 línguas…
Paul Pavlovitch torna-se uma coqueluche do “tout Paris”: repórteres seguem-no de Monte Carlo até à Côte d’Azur, é visto nas festas e nos bares de luxo em companhia de belíssimas actrizes e meninas finas do “demi-monde”. Um lindo e saudável forrobodó que não desagradaria, suponho, a se calhar mais de metade dos austeros romancistas lusos…
No princípio de 79 outro livro de Ajar vem à luz: o belíssimo “L’angoisse du roi Salomon”, novo êxito de criar bicho. E é então que em Março outro escrito da autoria de Romain Gary, “Vie e mort d’Emile Ajar” revela o imbróglio: os livros eram produto da sua pena, o sobrinho fôra apenas o actor escolhido para esta partida aos literatos – partida tanto mais gostosa se nos lembrarmos que o Goncourt não se pode atribuir/receber duas vezes…
Ou seja: então como resolver a bambochata? E os gabirús da literatice desesperavam!
Na sequência deste seu último livro, pois logo a seguir, profundamente ferido pela morte de sua mulher e amada, a célebre actriz Jean Seberg, Gary suicidava-se – deixara um bilhetinho irónico colado na testa:”Diverti-me a valer! Até à vista e obrigado…”.
Sem ser só por isto – mas também por isto, por esta manifestação de excelente senso de humor e de alto talento que a passagem dos anos não crestou – sugerimos vivamente, a quem porventura os não conheça, a leitura dos livros de Romain Gary. É um dos que, a par de Marcel Scipion, Jean Husson, Philip Claudel e Jacques Borel (ou seja, dos chamados “descentrados” das letras gaulesas) valem muito a pena ser lidos – com os olhos, com as orelhas, com a ponta da alma.
E com um leve risinho absolutamente colorido…”
http://triplov.com/letras/nicolau_saiao/2009/Carnaval/index.htm
preciso de ajuda em relação ao livro crime e castigo,tenho que fazer um tcc e gostaria de localizar algum tradutor para realizar uma pesquisa de campo
Lí Crime e Castigo, no ensino médio (na época, o científico), quando tinha 18 anos. Preciso lê-lo, novamente, pois isso faz tempo. O Estrangeiro, lí em 2002, em Francês, como “dever de casa” de minha professora desse idioma. Livro notável … mas que tenho que ler, também, novamente, pois já se vão 10 anos. Essas revisitas são importantes e úteis.Quanto à Lya Luft, humildemente, confesso que desconheço como escritora. Agora, a ignorarei, por completo. Como é mesmo essa história de seus textos em revistas neo-nazistas, hein?!
A revista neonazista em questão pode ser encontrada nas bancas. O título é ‘Veja’.
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[...] Ainda no meio da leitura de Um Sonho Americano, já tinha duas certezas. A primeira é que eu preciso encarar os melhores livros de Norman Mailer, talvez Os Nus e os Mortos, Canção do Carrasco, Exércitos da Noite ou A Luta. A outra é que há algo de Dostoievski nesse livro. Eu xoxe se Mailer também não traçou Crime e Castigo! [...]
[...] Clique aqui para ler o que Milton Ribeiro acha de Lya Luft Enviar por email – Imprimir Tags:clichês, Geórgia Araújo, Lya Luft, Milton Ribeiro, Perdas e Ganhos, subliteratura, Veja « Telê Santana e o sexo [...]
[...] sido responsável pela primeira tradução direta do russo para o português “brasileiro” de Crime e Castigo. Spaciba, Paulo. Enviar por email – Imprimir Tags:czar, czarismo, Dostoievski, fundamentalistas, [...]