Dia desses, encontrei na página de lançamentos do site da Record a sinopse do livro Curral da Morte. Fiquei interessado e solicitei que a editora me enviasse para comentar aqui no Caótico. Antes mesmo do livro chegar, já estava arrependido: como é que iria arrumar tempo para ler mais alguma coisa? Então, perguntei ao mui nobre advogado Paulo Sérgio Cavalcanti Araújo se gostaria de ganhar o livro e trabalhar (quase) de graça para o Caótico. Ele concordou e escreveu o comentário crítico que segue abaixo.
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por Paulo Sérgio Araújo
Gosto muito de “livros-reportagem” como o Curral da Morte, que novamente traz à luz um fato inacreditável ocorrido em 1957 dentro do prédio da Assembleia Legislativa de Alagoas: um tiroteio, com uso até de metralhadoras, antes da votação do impeachment do então governador Muniz Falcão!
Se eu assistisse a um filme de faroeste que mostrasse uma cena idêntica, consideraria absurdo tamanho disparate acontecer em qualquer parte do mundo. Riria, tenho certeza, porque é inaceitável que justamente dentro da casa dos argumentos (a palavra “parlamento” vem de falar, conversar, discutir) a violência possa sobrepujar qualquer conceito ou teoria. Até vemos, vez por outra, parlamentares pelo mundo afora trocando insultos e até socos e tapas, mas tiros? Pode ocorrer isso numa casa legislativa? Aconteceu em Alagoas e o livro mostra o que antecedeu e os desdobramentos dessa inacreditável troca de tiros.
Nomes conhecidíssimos nacionalmente como Márcio Moreira Alves, o deputado federal que fez o discurso usado como pretexto para o AI-5, Tenório Cavalcanti, “o homem da capa preta”, Teotônio Vilela, “o menestrel das Alagoas”, e Arnon de Mello, pai do ex-presidente Collor, são figuras envolvidas no acontecimento, que restava esquecido, apesar do surrealismo e importância, pelo menos para quem não viveu na época. Eu, pessoalmente, jamais tinha escutado algo a respeito, mesmo de meu pai, um alagoano de Cacimbinhas que vive a contar histórias de valentia e violência da Terra dos Marechais, onde tenho inúmeros parentes.
O livro, com muitas fotografias e transcrições de documentos, reportagens ou cartas da época, ainda contextualiza a participação de cada um dos envolvidos, só pecando porque foi escrito como se Alagoas tivesse o “privilégio” de produzir o imbróglio, em que pese não ser fácil, por exemplo, apontar a ocorrência de um sindicato da morte que se reunia até no palácio do governo.
Mesmo assim, a forma de fazer política, as mudanças ideológicas, o uso da violência, as mortes, os interesses pessoais acima dos interesses públicos, o uso da política apenas como alavancagem do poder pessoal, o sindicato da morte, não tenho dúvidas, fazem parte da política em todo o Brasil.
Tanto que, se é bastante provável não ter ocorrido em outro lugar o caso de um governador que tenha sujado de excrementos fecais as paredes da residência oficial antes de passar o cargo para o novo governador eleito, como relatado no livro, é muito comum até hoje a ocorrência de saques e destruição de patrimônio público pelo grupo político que está deixando o poder para a oposição vitoriosa nas urnas. Alagoas é Brasil.
Sobre o escritor
Jorge Oliveira ganha o pão de cada dia como cineasta e diretor especialista em marketing político e campanhas eleitorais. Saiu de Alagoas na juventude, mas nunca esqueceu o clima de tensão em seu estado na época do tiroteio na Assembleia Legislativa.

3 Comentários
Esse livro não é do estilo de literatura que gosto, porém, ao ler sua crítica, fiquei curiosa.
Parabéns!
Quanto aos “excrementos fecais”, sabemos que existem várias maneiras de um político deixar o “caminho sujo” para o outro, só não devemos nos acostumar com isso!
Vou ler.
Embora em matéria de política eu só enxergue escombros e mais escombros…
É uma escumulha eterna.
Raras são as exceções.
Rarissimas. Sem ACENTO mesmo.
É legal livro ser publicado sem autorização da familia?