Há uma semana perdi o cabaço em James Joyce. Pela primeira vez, li algo que o irlandês escreveu, mas por enquanto nada de Ulisses, muito menos de Finnegan’s Wake, que dizem ser um troço complicadíssimo.
Li o livro de contos Dublinenses, o segundo publicado por Joyce, em 1914. Por sinal, essa parece ser a melhor opção para quem tem interesse ou curiosidade de conhecer um pouco da obra desse escritor que nasceu na periferia de Dublin e, hoje, é muito cultuado e pouco lido.
Para ser rotulado de intelectual é bom o sujeito ler ou fingir ter lido as coisas desse irlandês, então como eu quero mudar minha imagem depois de ter passado quatro anos fazendo o Blog do Santinha, decidi encarar Dublinenses, que tem a vantagem de, ao mesmo tempo, ser fácil fácil de ler e ter sido escrito por um “monstro sagrado”. Perfeito para alguém como eu, que pretende passar por sabido.
Comecei a flertar com esse livro há uns cinco anos, desde que o encontrei na casa do senhor Marco Bahé, editor do Acerto de Contas. Lembro que cheguei a pedir emprestado, mas “Zurêia” fingiu não ter escutado o pleito, prosseguindo a conversa num rumo completamente diferente. Não o culpo, também sou ciumento com meus livros e, muitas vezes, faço o mesmo aqui em casa.
Na arrumação das malas que levei para o Tocantins na semana passada, inclui o livro na babagem, ao lado de mais um de Georges Simenon com as histórias do investigador Maigret, o primeiro que li nas noites do Hotel Aparecida, no centro de Araguaína.
Já me preparando para voltar o Recife, foi a vez de Joyce. Só não concluí a leitura no vôo entre Brasília e Recife porque um zé-ruela sentado na poltrona de trás não parava de falar em pôquer, pif-paf, caixeta, canastra, copas, damas e ases. O tom de voz irritante e o assunto se misturavam com a preparação do discurso que o personagem Gabriel Conroy iria fazer na festa anual promovida pela tias. Faltavam 22 páginas para o final quando desisti.
Os contos de Dublinenses são curtinhos, mas possuem uma qualidade evidente, que salta aos olhos. Todas as histórias são sobre pessoas comuns vivendo situações comuns em Dublin, muitas vezes esperava uma guinada sensacional em alguns deles, mas não haver virada nenhuma é o que há de mais interessante. A beleza do cotidiano, de situações e personagens parecidos com muitos que conhecemos, por exemplo, numa capital brasileira do século XXI, é celebrada por Joyce num estilo seco, sem floreios, mais do que realista.
Contos como “Uma pequena nuvem”, “Contrapartida”, “Um Caso doloroso” ou “Dia de hera na lapela” são atemporais, de uma universalidade tão cristalina que é quase impossível não reconhecer vidas próximas às nossas em seus parágrafos. Eu, por exemplo, me identifiquei a ponto de doer com Little Chandler, o sujeito que tenta ler um poema enquanto o filho chora em seus braços sem que ele saiba o que fazer para que o pirralho pare de berrar. Já passei por isso inúmeras vezes e, admito, com algo no coração muito semelhante à aflição do personagem.
Em “Dia de hera na lapela”, o pragmatismo dos cabos-eleitorais, militantes nacionalistas a serviço de um candidato ao parlamento por um movimento libertário, também poderia ter sido retratado em português.
Aqui, vou ser pretensioso e me arriscar a um pouco mais de profundidade.
Como sempre faço antes de atualizar o Caótico, li algumas coisas sobre o autor disponíveis na Internet. Numa delas, uma acadêmica chamada Dirce Waltrick do Amarante informa que durante muitos anos os críticos e estudiosos de Joyce sustentavam a tese de que a obra do irlandês era apolítica.
Na minha leiga opinião, bastava esse conto para atestar o erro ou a má-fé dos estudiosos. Só alguém que entende e se interessa pelo assunto consegue descrever tão bem como políticos supostamente integrantes de projetos coletivos constroem suas carreiras e tocam candidaturas como assuntos pessoais ou projetos privados.
Além da prosa clara, seca, e do foco sobre o a vida em Dublin, há outro elemento presente em praticamente todos os contos: hectolitros de uísque e cerveja. Pelo que lembro, não há história onde não exista pelo menos um personagem capaz de enxugar garrafas sem piscar. Até os amigos que conspiram para que o colega largue o vício, tocam a conspiração entre goles de um uisquinho especial.
Sobre o escritor: Joyce gostava de putaria

James Joyce nasceu na Irlanda, cenário de tudo o que escreveu. Tem fama de ser um escritor difícil, hermético, mas talvez parte dessa fama deva ser creditada aos tradutores eruditos que complicaram diálogos e construções que o autor foi buscar na língua falada nas ruas pelo povo simples do seu País. Durante seus quase 60 anos de vida, foi casado com apenas uma mulher, Nora, mas era ciumento e curtia pornografia. Esse último detalhe o torna muito simpático aos meus olhos.
4 Comentários
Eu li bastante a respeito de “Ulisses e Finnegan’s Wake”, mas nunca ousei encarar nenhum dos dois. Me parecem daquelas obras que você tem que ler no original, ou perdem o sentido.
Não consigo entender, por exemplo, como Guimarães Rosa pode ser traduzido para outro idioma sem que se perca muito do que ele criou.
João Cabral de Melo neto disse detestar as traduções de suas obras, pelo menos nas línguas que ele dominava, pois ficavam muito diferentes do que ele queria passar.
Acho que as duas obras capitais de Joyce se enquadram na lista das intraduzíveis. Não é por acaso que quem se deu ao trabalho aqui no Brasil foi Antônio Houaiss. Deve ser cois para mestres em linguística.
Emm todo caso, porei Dublinenses na minha relação.
Inácio querido, comecei a ler despretensiosamente (e com pressa) este post e quando vi estava quase no fim. Esse jeito de escrever como falas é o mais legal de tudo. A tua escrita está impregnada pelo teu jeito espontâneo de levar (ou ler) a vida. Um beijo afetuoso! VeronicaVioleta
Eu ousei ler Finnegan’s Wake, quando era adolescente e nao sabia nada sobre Joyce, depois da 10 pagina procurei mais sobre o autor e até hoje nao consegui encara-lo denovo…
Espero um dia conseguir…
aehahuuhaehuaeuhaehauehua
Estou lendo Dublinenses em Inglês para Literatura na faculdade. Ainda estou nos primeiros contos, embora tenha trapaceado e lido Os Mortos em português, tamanha era a curiosidade por esse conto.
Meu interesse por Ulisses também era muito grande, por ser um intertexto com a obra de Homero e parecer ser escrito de uma forma muito peculiar. Mas fiquei com medo e fiquei com Dubliners mesmo.
Adorei o seu post e, ao fim do trabalho, volto para deixar minhas impressões.
(PS: preciso aprensentar o trabalho de um forma diferente para a turma… alguma ideia?)
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