Eu, jurado do Jabuti

jabuti_tinga_gFoi no final de 2002 que Edmundo me telefonou, lá de sua sala numa grande editora do Rio de Janeiro.

A conversa foi mais ou menos assim:

- Quer ganhar uma porrada de livros em troca de um trabalho moleza?

- Mai tá, se não quero. Que é que tenho de fazer?

- Vou te indicar para ser jurado do Prêmio Jabuti. Vão te ligar dizendo os prazos e para combinar para onde mandar os livros.

- Rapá… será que eu tenho cacife para essa porra?

- Tem sim, é pra ser jurado da categoria Reportagem e Biografia, não é literatura, não. Moleza mesmo.

- Ah, então, tá.

Pouco tempo depois, uma moça da Câmara Brasileira do Livro realmente ligou, pegou meu endereço e disse que ia mandar a caixa de livros, além de correspondência com as regras do jogo.

Quando a transportadora chegou, minhas mãos estavam vermelhas de tanta esfregá-las de ansiedade, fiquei dias imaginando quais seriam as pérolas da pequena biblioteca entregue em domicílio.

Os livros vieram acompanhadas da relação com os títulos inscritos. Na primeira folheada que dei um por um, o tesão baixou. Tinha muita porcaria na tal caixa.

Dos 200 e poucos livros, salvavam-se uns 90, com muita tolerância. Tinha livro sobre santo padroeiro de cidade do interior, autobiografias de ex-prefeitos da caixa-prego e coletâneas de artigos publicadas em jornais sobre temas absolutamente irrelevantes.

Sem perder tempo nem dor na consciência, nos dias que se seguiram à chegada da famosa caixa, doei dezenas de livros para bibliotecas, presenteei vizinhos, porteiros, amigos secretos e outras vítimas inocentes da minha generosidade.

Mesmo assim, restavam mais de 80 livros concorrendo. Minha missão como jurado era lê-los em um mês e indicar os 10 melhores para a lista de finalistas.

É lógico que não li esses livros todos. Mesmo assim, fiz a tal lista dos top 10 no prazo determinado.

Para cumprir a missão, foi preciso estabelecer alguns critérios objetivos. A partir da premissa que o Jabuti premia o livro enquanto produto e não apenas a qualidade literária, o primeiro critério considerou as edições que eram, pelo menos, razoáveis, com informações técnicas mínimas, orelha e texto da última capa. A existência desses últimos dois itens era fundamental para que o segundo critério de seleção pudesse ser adotado, afinal, como eu iria ler as orelhas se elas não existissem?

O monte de livros caiu para uns 50. Então, me danei a ler as orelhas. E os textos da última capa também, afinal não sou tão negligente assim.

Depois dessa, digamos, leitura dinâmica, fiquei com de 15 a 18 livros em condições de chegar a lista dos 10 mais. Comecei a lê-los e decidi que, se não conseguisse chegar à página 20, o livro estaria automaticamente eliminado.

Desses todos, só lembro de quatro livros.

Desses, uma era a biografia sobre uma puta e cafetina chamada Eny, famosa pelo seu bordel numa cidade do interior de São Paulo, Bauru, se não estou redondamente enganado. Livro bem editado, jeitoso e de leitura saborosa.

Outro que estava lista uma biografia sobre Fidel Castro, um tijolo em dois volumes, muito mal escrito e com ar de biografia chapa-branca, mas com o mérito de ter informações e imagens inéditas de Fidel. Esses dois acabaram premiados na lista final do prêmio, com três vencedores.

O livro sobre Eny dei de presente para alguém, não valia a pena ocupar espaço na estante com ele. Já a biografia de Fidel, Sergio Miguel nunca me devolveu.

Os outros dois livros que ficaram na memória eram os melhores. Um deles era sobre um embaixador brasileiro na Europa que, desobedecendo a orientação do governo Vargas, distribuía vistos para livrar judeus, ciganos e comunistas da perseguição dos nazistas e fascistas, salvando a vida de muita gente que conseguiu entrar no Brasil.

Meu outro favorito se chamava Um médico brasileiro no front, diário de guerra escrito por um jovem médico nisei chamado Massaki Udihara durante a campanha do exército brasileiro na Itália. Depois que Udihara morreu, no final dos anos 90, sua família encontrou os diários e entregou à antiga Faculdade Paulista de Medicina, que resolveu publicá-los. Udihara desmascara a incompetência, o amadorismo e a burrice dos comandantes brasileiros da Força Expedicionária.

Minha experiência como jurado me revelou a importância relativa desses prêmios. Para começar, como é que se aceita como jurado um jornalista como eu, sem nenhum livro publicado? E os prazos, então? Quem estabelece um mês para a análise de centenas de concorrentes sabe que só as orelhas serão esmiuçadas, isso no caso de haver orelhas.

Então, se você ganhou um prêmio Jabuti, deixe de goga, que isso não é essa coca-cola toda, não. Se não ganhou, anime-se, seu livro pode ter sido vítima de gente como eu, sem tempo livre, porém com a imaginação fértil.

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8 Comentários

  1. Yvette Teixeira
    Publicado 2 de dezembro de 2009 em 10:30 | Permalink

    Só para passar o tempo:

    A Função da Arte

    Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
    Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
    E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
    - Me ajuda a olhar!

    O Livro dos Abraços

    Eduardo Galeano.

  2. Publicado 2 de dezembro de 2009 em 15:35 | Permalink

    Me lembro vagamente que você, Inácio, me prometeu o FIDEL, mas acabei ficando com o “Verger – Bastide, dimensões de uma amizade”, sobre a relação entre Pierre Verger (fotógrafo francês foderoso que virou babalorixá) e Roger Bastide (sociólogo).

    LER, ler, eu não li tudo… mas as fotos são ótimas (hahaha).

  3. Publicado 2 de dezembro de 2009 em 17:50 | Permalink

    Hahaha!
    E Inácio França foi da minha banca de conclusão de curso em 2002. Que avanço, hein?

  4. Yvette Teixeira
    Publicado 3 de dezembro de 2009 em 11:54 | Permalink

    “Certa vez, um erudito resolveu fazer ironia comigo. Perguntou-me: «O que é que você leu?» Respondi: «Dostoievski». Ele queria me atirar na cara os seus quarenta mil volumes. Insistiu: «Que mais?». E eu: «Dostoievski». Teimou: «Só?». Repeti: «Dostoievski». O sujeito, aturdido pelos seus quarenta mil volumes, não entendeu nada. Mas eis o que eu queria dizer: pode-se viver para um único livro de Dostoievski. Ou uma única peça de Shakespeare. Ou um único poema de não sei quem. O mesmo livro é um na véspera e outro no dia seguinte. Pode haver um tédio na primeira leitura. Nada, porém, mais denso, mais fascinante, mais novo, mais abismal do que a releitura.”
    Nelson Rodrigues

  5. samarone
    Publicado 6 de dezembro de 2009 em 21:54 | Permalink

    Ótima essa França.
    Não entendi a obsessão pelas orelhas. Às vezes são péssimas.
    sama

  6. Publicado 7 de dezembro de 2009 em 10:53 | Permalink

    E tu achas que eu ia avaliar os livros como? lendo duas centenas em um mês? O jeito era ler as orelhas para fazer a primeira triagem… algo bem rigoroso!

  7. Fábio Koifman
    Publicado 12 de junho de 2010 em 20:10 | Permalink

    Caro Inácio:

    Sou eu o autor do “Quixote nas trevas”, um dos livros que ficaram na sua memória da imensa caixa e que você indicou como um dos os dois melhores. Agradeço a sua generosidade e paciência em ler o meu trabalho, ainda que nessas condições de pressão. O livro ficou entre os 10 finalistas ao Jabuti aquele ano, entretanto não entre os últimos 3. Mas fez um bom caminho. Entre outras, produziu projeção nacional e internacional ao embaixador Souza Dantas, que merecia ser resgatado do absoluto e completo esquecimento. Só o fato de ser lembrado e associado a ajuda humanitária em textos como o seu, indica que a pesquisa e a divulgação dela produziram bons frutos.

    Com um abraço, Fábio.

  8. Ana
    Publicado 1 de outubro de 2010 em 20:32 | Permalink

    “Tinha livro sobre santo padroeiro de cidade do interior, autobiografias de ex-prefeitos da caixa-prego e coletâneas de artigos publicadas em jornais sobre temas absolutamente irrelevantes”

    Que comentário preconceituoso. Só porque o livro é sobre santo padroeiro de uma cidade ou uma autobiografia de um ex-prefeito, é necessariamente ruim? E qual é o seu conceito para “tema absolutamente irrelevante”?
    Entendo que não daria para ler 200 e poucos livros em um mês, mas daria para ler dez páginas de cada um, sim. E todo leitor sabe: se um livro for chatíssimo, você não consegue ir muito adiante. Se for bom, você vai devorando, devorando, até terminar a leitura. Na décima página já dá para ter ideia se você quer continuar ou se vai abandoná-lo.
    Achei muita falta de respeito com os autores.
    Certamente esse seu depoimento acabou com toda a credibilidade do prêmio.
    Decepcionante.

Um Trackback

  1. [...] Naquele aniversário ganhei também um relógio bacana, dourado, coisa fina. Fiquei feliz e devo ter usado durante algum tempo, mas foi a caixa de livros que me encantou. Nunca havia ganho uma caixa inteirinha de livros antes, coisa que só foi acontecer 20 anos depois quando fui jurado do Prêmio Jabuti. [...]

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