Eu não vim fazer um discurso

Eu não vim fazer um discurso deveria ser a única exceção dos textos sobre livros que misturam jornalismo e literatura. Deveria, mas Gabriel García Márquez evitou a exceção e confirmou a regra num dos capítulos finais da coletânea dos seus discursos que acaba de ser publicada pela editora Record.

O livro é uma raspa do tacho criativo do colombiano. Idoso, produzindo pouco, sem a vitalidade e a disposição para escrever uma história como antes, mas com leitores fiéis, García Márquez não pode ser ignorado pelas editoras. Sem romances ou contos novos, o jeito deve ter sido resgatar os discursos, juntá-los todos em único volume e colocá-los nas prateleiras como uma grande novidade.

Apesar de ser uma jogada do mercado editorial para extrair o que é possível de um prêmio Nobel antes que a fonte seque, o livro está longe de ser uma decepção, apesar de não ser imperdível. Se a enorme habilidade de contar histórias do Gabo já é demasiadamente conhecida, o livro revela um pouco mais da sua autoironia e da capacidade de mergulhar fundo em temas mais densos, como a prepotência europeia em relação à América Latina ou a violência na Colômbia.

Em alguns discursos, é possível identificar o ritmo e a construção de personagens semelhantes tal qual um conto. É o caso do discurso em homenagem aos 70 anos de um dos seus melhores amigos, o poeta Álvaro Mutis, proferido em 1993.

Nas palavras de García Márquez, Mutis ganha ares de um dos seus protagonsitas fantásticos: ele gostava tanto se ficar só, quieto em seu canto, que, depois de passar uma temporada numa cadeia mexicana, saiu da cadeia garantindo que tinha vivido os melhores dias da sua vida.

Com humor negro, o escritor conta as dores do seu amigo para ganhar a vida como chefe do setor de relações públicas de uma companhia aérea que fechou as portas depois da queda de todos seus aviões. Não era fácil, mas deve ter sido verdade, pois o discurso foi feito diante de Mutis e não consta que ele tenha desmentido.

Fazem parte do livro discursos famosos de um homem que considerava fazer discursos a pior das atividades que se via obrigado a realizar, entre eles o que leu ao receber o prêmio Nobel de Literatura de 1982. Outro discurso polêmico foi proferido no I Congresso Internacional da Língua Espanhola, em 1996, quando ele defendeu a possibilidade do fim das regras ortográficas do idioma.

‘Jornalismo: o melhor ofício do mundo’ é o título do discurso que justifica a abertura desse meu texto e que fornece subsídios bem significativos para a discussão que pretendo estimular em minhas oficinas. García Márques afirma categoricamente que o jornalismo é um gênero literário e dá boas razões para sustentar sua crença. O discurso, praticamente um pequeno ensaio, tem críticas interessantes sobre o ensino do Jornalismo na Colômbia que também podem ser aplicadas às universidades brasileiras.

Mesmo sem concordar inteiramente com algumas de suas críticas e pontos-de-vista do autor, acredito que ele toca em aspectos que renderiam horas e horas de debate sério sobre a relação entre o meio acadêmico, o ambiente nas redações e o distanciamento entre realidade e o fazer jornalístico.

Para quem lê García Márques desde pequenininho, Eu não vim fazer um discurso pode servir como uma espécie de reencontro com alguém muito conhecido e muito venerável que há tempos não aparece. Faço parte dessa turma de veteranos no realismo fantástico. Para quem é novato nas escrituras do colombiano, em alguns discursos ele oferece chaves e pistas para entender sua literatura.

 

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Um comentário

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