Fernão de Magalhães, o Homem e sua Façanha

FernãoZweigNo final dos anos 90, o então editor do caderno de cultura do Diário de Pernambuco, Rodrigo Carrero, me mandou cobrir algumas bienais do livro no Rio (1997 e 1999) e São Paulo (1998). Na época, nenhum dos repórteres da caderno fez questão de ir. Para  mim, conhecer escritores e receber livros de cortesia não era trabalho, era presente. Sendo assim, aceitei a oferta de bate-pronto.

Foi quando, pela primeira vez na vida, li Stefan Zweig (a pronúncia é mais ou menos assim: Istfán Isvaig). A Editora Record estava relançando a obra do austríaco no Brasil e acabei recebendo alguns livros, entregues pelo departamento de divulgação da empresa.

Até aquele momento, o que eu sabia desse escritor é que ele tinha escrito duas novelas chamadas Amok e Xadrez, publicadas num único volume fininho que eu tinha comprado em alguma liquidação e guardado na estante.

Pra encurtar a história, um dos livros que recebi foi Fernão de Magalhães – O Homem e Sua Façanha. Comecei a lê-lo e não parei mais.

A inspiração para esse livro veio quando Zweig viajava de navio para a Argentina e para o Brasil, em meados dos 30. Entediado com a viagem de mais de uma semana, ele tentou imaginar como seria atravessar oceanos desconhecidos em barquinhos de madeira, sem saber nem mesmo o destino final, como foi o caso do português Fernão de Magalhães, aquele na escola aprendemos ter sido o comandante da primeira viagem de Circunavegação (talvez essa palavra difícil ajude alguns a lembrarem do que estou falando).

Comparando sua própria viagem a de Magalhães, Zweig sentiu vergonha do seu próprio aborrecimento. E resolveu pesquisar o assunto. O resultado foi esse livro, publicado em 1938.

No prefácio, o autor revela que tentou o ser mais fiel possível aos documentos que leio nos arquivos portugueses e espanhóis, mas que escreveu como se fosse uma ficção.

Pois bem, ficção ou não, o livro é apaixonante. Da minha pequena biblioteca, foi o mais emprestado para amigos ou parentes. Sempre que emprestava, a pessoa lia e acabava sentindo a necessidade de reemprestá-lo a mais alguém, algo que me desesperava, temendo perder o livro de vista. Tenho essa fraqueza: sou muito egoísta e ciumento com meus livros.

Fernão de Magalhães é muitíssimo bem escrito, é verdade, mas acredito que não é por isso que o leitor sente o desejo quase compulsivo de dividir, compartilhar, distribuir sua leitura.

Zweig poderia ter escrito um belo livro sobre os perigos e riscos enfrentados na aventura de atravessar o mundo para provar que ele é redondo. Mas não é disso que ele trata. Sua matéria-prima foram os sentimentos daqueles homens, sentimentos tão atemporais quanto universais:  o medo, a coragem, as paixões, a ambição, a capacidade sonhar.  Por isso, cá estou,  em pleno 2009, revelando o quanto me emocionou ler o que um austríaco escreveu há 80 anos sobre um português que cruzou os oceanos há 500 anos  a serviço de um rei espanhol.

Sobre o escritor

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Antes de se matar em Petrópolis, Zweig escreveu um livro-tributo ao Brasil

O jornalista Alberto Dines – aquele mesmo do Observatório de Imprensa – é um dos mais respeitados especialistas em Stefan Zweig. Certa vez, durante uma entrevista por telefone ele me explicou que, entre os anos 1920 e 1940, ninguém era tão lido quanto o autor de Fernão de Magalhães. Na Europa e também no Brasil, ter livros de Zweig era quase uma obrigação entre as famílias consideradas cultas. Pacifista, humanista, perseguido pelos nazistas, ele foi uma celebridade literária do início do século XX. Durante a II Grande Guerra, ele exilou-se em Petrópolis, escreveu Brasil, País do Futuro, título que se tornou um clichê. Depois se matou com soníferos. Morreu desiludido com o totalitarismo e a guerra.

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Um Comentário

  1. Publicado 17 de outubro de 2011 em 19:23 | Permalink

    O livro é tudo isso e muito mais. Zweig veio para o Brasil fugindo – judeu que era – do nazismo. Chegou aqui para encontrar outro regime totalitário, o Estado Novo getuliano. Foi uma figura de extraordinária dimensão humana (condição cada vez mais desvalorizada) como o demonstra o livro extraordinário com que descreveu a saga da circumnavegação. Li-o há mais de cinquenta anos e vou comprá-lo, relê-lo e, se o egoismo mo permitir, emprestá-lo.

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