Filho do Hamas

Depois do Curral da Morte, o advogado Paulo Sérgio Araújo volta para relatar mais uma experiência de leitura. Mais um que está virando habituê.

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Não estranharei se, algum dia, em um desses muitos programas religiosos que pululam na madrugada, aos quais assisto sem fé mas com extremo deleite e admiração por aqueles oradores, o livro Filho do Hamas ser indicado como testemunho de uma grande conversão ao cristianismo.

Até me espanta que o autor não tenha aparecido ainda – pelo menos não vi – em um desses mencionados programas, dizendo como sua vida mudou depois que conheceu Jesus Cristo. Na internet já existem referências a ele em sites religiosos.

Ora, mas o foco do livro – e o que é interessante e majoritário –  é o relato de Mosab Hassan Youssef, filho de um dos fundadores do grupo Hamas que passa a fornecer informações importantíssimas ao serviço secreto de Israel, condição em que se mantém por 10 anos.

O autor passa a trabalhar para Israel, mas continua no Hamas. Nasceu e vive no meio mulçumano e, mesmo assim, vira cristão. Contradições espetaculares e que dão ao livro um aspecto diferenciado.

O livro não se propõe a explicar detalhada e historicamente a confusão histórica do Oriente Médio acerca de Israel, Palestina e países árabes. No entanto, fornece explicações interessantes sobre os vários movimentos palestinos – OLP, Hamas, FDLP, FPLP, Irmandade Muçulmana, Jihad Islâmica, etc – provando que muito do insucesso da causa palestina está no mosaico de movimentos sem uma unificação. Aliás, o grande vilão da causa palestina para o autor é o Yassef Arafat e a “corrupta e interesseira” OLP – e nesse ponto eu concordo com ele, pois há muito já se sabe que Arafat era um líder que pensava mais no próprio bolso do que na causa de seu povo.

Engana-se, entretanto, que o lado de Israel está isento de falha ou imperfeições: o autor aponta que há vários serviços secretos em Israel, que trabalham mais das vezes em paralelo (o próprio autor foi beneficiado por isso) e há relato de, pelo menos, uma grande falha por conta desse também mosaico israelense.

Na verdade, o grande ponto do livro para mim é mostrar que não existe lado bom e lado ruim, lado ignorante e lado inteligente, nada disso. Por exemplo, o autor foi torturado pelo Estado de Israel e na prisão viu o Hamas torturar palestinos! O autor elogia a integridade moral de seu pai e reconhece que conheceu israelenses de mesma estatura moral.

Para mim, valeu demais a leitura. Quero até ressaltar que o proselitismo religioso do autor não é mola-mestra do livro, é muito pouco referenciado durante a leitura e fica mais restrito a um post scriptum, em que o autor aponta sua sugestão para a resolução do conflito.

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7 Comentários

  1. Arsenio Meira Junior
    Publicado 6 de agosto de 2010 em 16:00 | Permalink

    Excelente artigo, Paulo. Cheguei a cogitar em comprar o livro, mas na hora desisti.

    Parece-me na medida exata: sem a logorreia típica do proselitismo, o relato denso e contemporâneo de uma experiência triste e cruel.

    Alguns escritores atribuem a fúria Israelense contra os árabes a um certo ímpeto vingativo em face das sequelas infindáveis do holocausto. E essas sequelas são mesmo infindáveis. O doce Presidente do Irã pode até não aceitar, mas paciência…

    Os judeus deram um gueto à Israel.
    Os radicais judeus não aceitam e matam.
    E os palestinos, incrustrados nesse gueto, abusam do poder e provocam toda a sorte de distúrbios terroristas.

    Nesse cardápio, morrem crianças, mulheres, inocentes, culpados, soldados, jovens, velhos e desavisados.

    O sionismo, lançado por seu mentor Theodro Herzl em “O ESTADO JUDEU” é apenas mais uma das inúmeras modalidades de nacionalismo.

    E o nacionalismo é uma patologia, que legou ao mundo os demoníacos Hitler e Stálin.

    Herzl, impressionado com caso Dreyfrus, foi cobrir o julgamento que sacudiu toda a Europa nos idos dos anos de 1890.

    Essa questão entrou para a história como um marco da Injustiça, um julgamento com provas truncadas, falsificadas, mentiras lançadas e etc. Para a alegria das vozes anti-semitas.

    Como se sabe, houve uma reviravolta, Emile Zola alcançou a eternidade com seu artigo J’accuse, uma catilinária contra as sacanagens perpetradas contra Dreyfus e a prosa tomou um outro rumo. Mas foi um rebuliço grande.

    Não haverá paz em Israel.
    Infelizmente. Questão de opinião.

  2. Luis Carlos Monteiro
    Publicado 6 de agosto de 2010 em 23:01 | Permalink

    Li o livro, e o texto foi no alvo.
    Recomendo.
    Abraços a todos.
    Ps – Arsenio, o J’accuse talvez seja uma dos maiores libelos de todos os tempos.
    Excelente alusão.

  3. João Roberto Gomes
    Publicado 7 de agosto de 2010 em 11:00 | Permalink

    Se o blog se propõe – sobretudo – o incentivo à leitura e análise sobre livros, melhor não poderia ser. Também li O FILHO DO HAMAS e o autor deste texto escreveu redondo, Melhor do que ir atrás das resenhas das revistas e jornais.O leitor pode se garantir por aqui. Parabéns.

  4. Arsenio Meira Junior
    Publicado 8 de agosto de 2010 em 21:28 | Permalink

    Sei que Inácio já escreveu aqui sobre o livro, sei que muitos já leram, mas tenho direito ao post. VIAGEM AO CREPÚSCULO.
    AUTOR : SAMARONE LIMA.
    Editora: Casa das Musas.

    Minha esposa Isabelly, aqui ao meu lado, está terminando “Um rio de gente no capibaribe”.
    Textos de Inácio França e fotos de Tuca Siqueira.
    A recomendação é a mesma.
    Passo o teclado para ela:

    Inácio, o seu livro aborda com sincronia não só a vida da população ribeirinha, mas as alegrias, tristezas, mazelas, virtudes, que abrangem toda uma região.

    As lições que despontam dos textos não são gratuitas. Refletem a máxima universal. Todo escritor encontra mesmo em sua aldeia o seu tema, tornando-o universal.

    É um livro de prosa. Mas parece poesia.
    Não percam
    Uma crítica: achei que você poderia ter alongado o livro.Fiquei esperando por mais histórias e fotos e relatos.
    Isabelly Meira

    Agora volto eu:
    Vou embarcar nesse RIO logo mais.

  5. Samarone
    Publicado 9 de agosto de 2010 em 22:18 | Permalink

    Olhei algumas vezes o livro em questão, e não o levei por vacilo intelectua. Quando não sigo meu faro, me dano.
    Vou ter que buscar, agora o filho do Hamas.
    Samarone

  6. Aline Moura
    Publicado 6 de setembro de 2010 em 16:53 | Permalink

    Tive vontade de ler “filho de hamas”, porém bem mais pelo aspecto da conversão. Como não é o tema principal, fica para depois, quando eu ganhar de presente. rss

  7. SILVANO PEREIRA
    Publicado 14 de abril de 2011 em 21:56 | Permalink

    Mosab Hassan – FILHO DO HAMAS

    Video 1: Entrevista em uma congregação Batista Norte Americana (Dividido em 11 partes)
    http://www.youtube.com/watch?v=Oz7fBrYGbD8

    Video 2: Entrevista a uma correspondente da GLOBO nos EUA (Dividido em 3 partes).
    http://www.youtube.com/watch?v=aEuVaa0rKf4&playnext=1&list=PLDDBCB9DECFA5ADFE

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