Anda devagar a leitura do livro de Robert Fisk sobre as guerras no Oriente Médio, ou melhor, sobre o sofrimento das pessoas do Oriente Médio. Essa ressalva é importante para deixar claro que o jornalista inglês não escreve sobre assuntos militares, tipo avanços de tropas ou sobre a ação da guerra, ele faz reflexões sobre os bastidores da guerra, quem financia o quê e como sofrem os árabes que vivem em Beirute, Gaza, Curdistão ou Argel.
Mas não é por causa disso que estou lento – cheguei agora à página 1.133, quando publiquei a postagem sobre o livro estava na 945. Além das férias escolares de julho terem inviabilizado qualquer tipo de leitura por conta da presença, demandas e exigências de duas crianças e um adolescente dentro de casa, o volume é um tijolaço (na cor, inclusive) de quase três quilos, como se percebe na foto, que não dá para levar na bolsa ou debaixo do braço para ler nas salas de espera e no intervalo do almoço. Então, só em casa dá para encarar a Grande Guerra pela Civilização.
Como ainda estou “convivendo” com o universo de Fisk, pensei em tomar o capítulo 19 no livro como gancho para falar de algo que me perturba. Esse trecho do livro é uma reportagem sobre como as indústrias de armas atuam para perpetuar as guerras naquela região do mundo. O ponto de partia do inglês são os panfletos e materiais publicitários de várias empresas que fornecem plataformas para mísseis, fuzis, tanques, mísseis antiblindagem, aviões etc. Ele constata que as estratégias de vendas dos armeiros trata de seus produtos como coisas “eficientes”, “com perfomance superior” e “capacidade de para neutralizar um ativista selecionado”. Essa última frase é um eufemismo para “assassinar um militante que está protestando na rua cercado por uma multidão”.
Nem uma palavra sobre mortes de inocentes, miolos de crianças espalhados pelo meio da rua, lares destruídos, mulheres grávidas com a cabeça dilacerada…
Os mais insensíveis podem questionar: e daí se o Oriente está tão longe?
O que me perturba tanto afinal de contas?
O que me perturba é que essa mesma indústria atinge, modifica e interfere no nosso cotidiano aqui na América Latina, Brasil, Pernambuco, Recife.
Para vender tantas armas no Oriente Médio, foi preciso antes espalhar o medo, a insegurança.
Para isso contam com veículos de comunicação prontos para cumprir essa tarefa com recursos técnicos e ideológicos em títulos, manchetes, imagens, textos, fotos.
Infelizmente não tenho guardadas as primeiras páginas dos jornais pernambucanos que, nos últimos meses, alardeavam medos reais ou imaginários. Medo de assalto, medo de golpes pela web, medo de furtos no shopping, medo de fraudes na hora fazer o seguro do carro, medo de piratas de DVD, ameaças dentro de casa, medo das drogas, ameaças na esquina, ameaças de invasão de terras. Há todo um arsenal de medos para instigar o ódio ao ser humano que está caminhando ao nosso lado na rua, sentado no banco da frente do ônibus, no carro velho que “atrapalha” o trânsito.
Um exemplo do que estou dizendo para tentar me fazer entender: o clichê “droga mata”. Mata sim, quando usada em excesso, quando provoca overdose, quando não há tratamento acessível.
Quando a droga é proibida, como é, o que mata é bala, é pistola, é revólver, é fuzil. Mas a coca é produzida pelos índios nos Andes, maconha por sertanejos. Pistola é produzida pela Taurus, fuzil AR-15 por alguma fábrica americana. É de um óbvio ululante a frase “Bala mata”, mas o clichê “droga mata” é o que serve para vender armas, criar condições para que surjam inimigos a serem abatidos. Essa é a matriz do Plano Colômbia, que levou ao americanos a despejaram dólares para que o país de García Márquez comprasse armas e pesticidas para destruir vidas e plantações.
O curioso é que os meios de comunicação, os religiosos e os legisladores não conseguem enxergar que essas políticas de proibição fracassaram. As estatísticas de violência urbana no Brasil são a prova mais contundente desse fracasso. O que nos atrapala e nos impede de mudar de posição é fato de que o tamanho desse fracasso é proporcional ao sucesso de quem fabrica armas e dos seus clientes, como as empresas de segurança brasileiras.
Voltemos ao Oriente Médio. O fracasso do “processo de paz” é proporcional ao sucesso dos vendedores de armas como a Boeing, Lockheed Martin e seus clientes, como os generais israelenses, monarquias submissas como a saudita ou oportunistas como o presidente iraniano.
Talvez seja a consciência de saber em minoria e não saber como enfrentar isso, que me leva a escrever isso num blog.
Para acabar, um recado aos estudantes de jornalismo: dispensem a leitura diária dos jornais e leiam pelo menos o capítulo 19 da Grande Guerra pela Civilização. Como o livro é caro, sugiro ir até a livraria e ler meia dúzia de páginas de cada vez para entender como usar as ferramentas do jornalismo para tentar fazer justiça.
4 Comentários
Do carai, frança, do carai.
Samarone.
Bravo!
Inácio, sua visão desta questão é muito interessante, sensata e clara. Realmente, somos “bombardeados” diariamente com todo tipo de informação acerca da violência, perto de casa, do outro lado do mundo. Vamos nos tornando, sem querer, preconceituosos e, assim, deixamos de aproveitar muito do convívio humano por conta de nossos medos. É uma pena!
QI. Ótimo comentário sobre a venda de armas. Ótimo livro. Nosso pior pesadelo a indústria da morte, Parafraseando Millôr, “a vida é perto” (d’aprés Ruai Castro, Folha de S.Paulo, 24/08/09). E, no ano passado, o Brasil deixou de subscrever o Tratado Anti Bombas Closter’s – bombas-cacho. Como 2º maior exportador dessa arma principalmente contra civis (explode a cerca de 100m do chão, espalhando centenas de bombinhas que ficam unativadas até que, dias, meses ou anos depois, um civil pise nelas e… BUMM!), o Brasil também não RATIFICOU o Tratado de Proibiçãoo de Minas Terestres (2º maior exportador mundial). Lembro que Diana, a rpincesa, fez do banimento dessa arma anti humana sua principal causa. Já os Super-Tucanos que atacaram as Farc no Equador (independentemente da crítica àquela querrilha sem causa) no ano passaso eram também made in Brazil (da Embraer, como as bombas colster). E, no dia 7 de setembro próximo, adquiriremos 4 submarinos nucleares da França, os quais a Mahinha ffransesa jamai utilizou porque anacrôniocos, mas que possuem tecnologia nuclear transferível. Assim, após ocuparmos militarmente o Haiti – pela 1ª vez na história do Brasil, convertemo-nos em ótimos comerciante de armas. Quero não. Não concordo. Que Robert Fisk nos ilumine,