Hiroshima

hiroshima_capaChorei várias vezes enquanto lia Hiroshima. E olha, que naqueles primeiros anos do século XXI, eu ainda tentava posar de “racional” e nem era tão chorão quanto sou hoje.

A soma de todos os Globo Repórter, das reportagens especiais nas datas redondas da explosão atômica e dos documentários da TV a cabo não dá nem a metade da qualidade narrativa, emoção e sensibilidade do texto de John Hersey. A primeira parte do livro foi publicada originalmente como reportagem na edição especial da revista New Yorker um ano depois da bomba.

O livro foi o primeiro de uma coleção intitulada Jornalismo Literário no início dessa década. Lembro que folheei o exemplar numa livraria de shopping e fiquei impressionado, imaginando um repórter percorrendo as ruas destruídas de Hiroshima e conversando com pessoas que sobreviveram ao crime contra a humanidade cometido pelos Estados Unidos.

No final das contas, o método de Hersey é praticamente aquilo que, um dia, já foi o be-a-bá do jornalismo. Ele foi ao local dos fatos, conversou com as pessoas que sofriam as conseqüências do fato e contou tudo, respeitando a dor das pessoas que ouviu e aquilo que viu. Depois de escrever, sua alma deve ter se aquietado um pouco.

A leitura de Hiroshima leva a sentir o peso da responsabilidade que caí sobre um repórter ao escutar relatos como aqueles, transbordantes de dor e sofrimento inimagináveis. Quem se dispõe a escutar, precisa estar consciente de que assume o compromisso de traduzir, de passar adiante, o que ouviu, viu e o que as pessoas sentiram. E também o que sentiu.

E Hersey sofreu, não tenho dúvidas disso. Se não sofreu, porque ele voltaria lá, quarenta anos depois, em plena década de 80, para descobrir qual o destino das seis vidas que desnudou em 1946?

Ele sofreu e faz sofrer quem de dispõe a ler seu texto, leve e fácil, capaz de contar histórias duras e difíceis.

Além da linguagem clara, Hiroshima contém outro recurso que prova que Hersey era bom todo. Os seis relatos são apresentados em fragmentos intercalados. Ora você está lendo o testemunho do médico Fuji, em seguida é o jesuíta Klinsorge, depois o pastor Tanimoto e por aí segue, até Fuji entrar em cena novamente. Esse recurso garante a sensação de simultaneidade, de que as coisas aconteceram ao mesmo tempo, como realmente foi.

Na verdade, o que Hersey fez foi Jornalismo. Não entendo a razão de juntar o adjetivo “literário”.  Minha hipótese é que criaram esse rótulo para que continuemos a chamar de “jornalismo” as baboseiras publicadas nas revistas, nos jornais e transmitidas pelos telejornais.

Sobre o escritor: Hersey dá aula de Jornalismo

Hersey

John Hersey cobriu a Segunda Guerra pelas revista Life e já tinha um prêmio Pulitzer quando a New Yorker o mandou passar quase quatro meses no Japão em 1946. Sua reportagem ocupou uma edição inteira da revista, que vendeu como água gelada no deserto. Depois de escrever a segunda parte do livro, na década de 80, doou os direitos autorais para a Cruz Vermelha Internacional.

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3 Comentários

  1. Carlos Padilha
    Publicado 26 de outubro de 2009 em 0:38 | Permalink

    Camarada Inácio, as hiroshimas estão por ai. Mesmo com os erros, precisamos relembrar o 25 de outubro de 1917, pois se existem erros é por que procuramos acertar! sei que vc não acredita no fim da história, pelo menos não vi nenhuma declaração sua a respeito, um abraço do camarada Carlos Padilha.

  2. Carlos Padilha
    Publicado 26 de outubro de 2009 em 0:43 | Permalink

    25 de outubro de 1917, tomada do poder pelos bolcheviques, inicio de uma experiência de governo, diferente das que estamos acostumados,tu tens algum livro na tua proposta para comentar!!! Um abraço; meu e do negão!!!

  3. Samarone
    Publicado 29 de outubro de 2009 em 13:00 | Permalink

    O livro é do caralho. Usei em uma oficina de Jornalismo Literário. Uma maravilha.
    Sama

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