Duas atitudes são fundamentais para um jornalista ser aceito entre seus iguais nas redações do século XXI: freqüentar o bar da moda e cultivar uma auto-imagem de paladino da Justiça, de corajoso fiscal da ética acima do bem e do mal. Também é recomendável manter o nariz empinado. Vandeck Santiago não faz nada disso, mas é um dos melhores seres humanos dessa raquítica atividade que é o Jornalismo.
Criatividade e talento para escrever já não são assim tão importantes, mas Vandeck sabe escrever, tem ótimas ideias e, apesar de já ter trabalhado na Veja, é um homem honrado. Pausa para esclarecimento: respeito muito esse sujeito, o conheço desde que eu era estudante e ele já trabalhava na sucursal da acima citada revista, mas não dá para dizer que somos amigos. Nem sei onde ele mora.
Com todo esse blá-blá-blá, o que estou querendo dizer é que seu livro Josué de Castro, o Gênio Silenciado é uma ótima sacada, resultado de sua criatividade, do seu rigor na apuração e da sua intimidade com a escrita. Ao mesmo tempo, é uma evidência incontestável que não existe mercado editorial em Pernambuco. Aliás, provavelmente essa última afirmativa é válida para o Nordeste inteiro, mas a ignorância impede que eu generalize.
Vandeck utilizou as ferramentas e técnicas do Jornalismo para escrever um livro que poderíamos chamar de básico sobre um dos brasileiros mais importantes do século XX. O Gênio Silenciado não é uma biografia de Josué de Castro, longe disso, mas uma espécie de lanterna a alumiar o caminho das pedras para estudantes ou para quem pretende pesquisar a obra e a vida do homem que escreveu o lendário A Geografia da Fome.
Escrito como uma reportagem, pode ser lido com facilidade pelos não-iniciados em Sociologia ou Geografia. Em compensação, os iniciados não ficarão com cabelos em pé, pois a apuração – a verificação cuidadosa de dados, nomes e datas -, garante que não há nenhum absurdo histórico ou conceitual em suas páginas.
O texto é bom, a ideia é ótima, Josué de Castro é um personagem que vale esse e outros mil livros. Até aí tudo bem. O problema é que os problemas de edição são numerosos, como a maioria absoluta dos livros lançados por aqui.
Conversei com Vandeck e ele me contou que foi a poetisa Lucila Nogueira quem mobilizou meio mundo de gente para que o texto fosse publicado. Essa movimentação levou o Instituto Maximiano Campos a bancar os custos da publicação, que saiu sob o selo da Bagaço, que garantiu o número do ISBN – aquele código de barras na contracapa que funciona como uma espécie de número de RG de uma obra.
Se existisse uma editora em Pernambuco, um profissional de edição teria se debruçado sobre os originais e solicitado que o autor incluísse alguns nomes, aprofundasse uma ou outra passagem, recomendado que o conteúdo das numerosas entrevistas ping-pong fosse diluído ao longo das 160 e tantas páginas. A capa não seria tão sem graça, com cor de cocô de menino pequeno.
Sou capaz de apostar que nenhuma editora aqui faz esse trabalho, quando muito faz o que a Bagaço fez com O Gênio Silenciado.
Aliás, a própria ideia de lançar livros que funcionam como ponto de partida para iniciantes seria transformada numa coleção com volumes sobre personagens com escassa bibliografia disponível.
Enfim, livro lançado pelas bandas de cá raramente é um bom produto, daqueles que o livreiro não fica com vergonha de botar na prateleira. Há exceções, mas essas são apenas isso: exceções.
Como esse negócio de fazer blog não rende um centavo, não posso montar minha própria editora e publicar logo de cara uma coletânea com as crônicas de Paulo Bono. Então, por enquanto o jeito é continuar reclamando.
Sobre o escritor
Vandeck Santiago tem uns 40 e tantos anos, já trabalhou na Folha de S. Paulo e na Veja, mas nem parece. É repórter especial do Diário de Pernambuco e já fez um monte de cadernos sobre Francisco Julião, Joaquim Nabuco, Josué de Castro e outros que não lembro agora. Quando fiz parte da comissão julgadora do Prêmio Cristina Tavares, em 2004, ele ganhou o prêmio principal e eu quase que apanho do pessoal do jornal concorrente.

9 Comentários
Inácio, meu caro,
se eu fosse morrer daqui a alguns instantes e me perguntassem o que eu gostaria de ter como epitáfio, recomendaria o seu texto.
Muitíssimo grato pela gentileza e pela leitura atenta do livro; por telefone você já havia me apontado todos os senões que encontrou no livro (e a partir dos seus comentários espero melhorar a obra se tiver oportunidade de uma segunda edição).
Não tenho a menor dúvida de que existe um crítico literário da melhor qualidade dentro de você (rsrsrs); não digo isso só em virtude da conversa que tivemos a respeito do meu livro e do texto acima, mas com base em seus outros comentários nesse blog e na ajuda que você prestou ao Samarone na leitura dos originais do recente livro dele, sobre Cuba.
Você tocou em um ponto essencial da atividade editorial (de livros) no Nordeste: a da falta de editor. Como você (que já foi jurado até do Jabuti…) sabe melhor do que eu, numa grande editora os originais caem na mão de um profissional encarregado de, impiedosamente, passar o pente fino em todas as vulnerabilidades deixadas pelo autor.
Você me disse que em um dos livros do Samarone, “Clamor”, um profissional da editora ficou durante seis meses fazendo a leitura e discutindo a obra com ele.
Falei dia desses com um autor paraibano, Agassiz Almeida (os livros dele saem pela Record), e a conversa foi no mesmo tom: a editora incumbe um profissional para cuidar da obra e encontrar as brechas que o autor (por incompetência, incúria ou o que seja)deixa.
Aquela reportagem que os americanos apontam como a melhor já feita até hoje, “Hiroshima”, depois publicada em livro, teve uma penca de editores que se debruçaram sobre o texto durante seis meses (cito de memória; se o prazo for menor do que esse, me corrijam); a mesma coisa com outra reportagem (que acho até melhor do que a anterior), do Joseph Mitchell, “O segredo de Joe Gould” – editores atentos melhoraram a obra.
Mas, enfim, enquanto a gente não chega lá, o jeito é aproveitar toda oportunidade que surge para botar os bichos na rua – e ter a sorte de encontrar leitores como vosmecê, que fazem o papel de editor e nos dão a certeza de que, se conseguirmos uma segunda edição, ela sairá melhor do que a primeira.
Abraços e obrigado.
Vandeck
PS.: E não se esqueça de me mandar o exemplar que você rabiscou de cima a baixo com as suas observações!
PS2): Tô lembrado dessa história em que você foi jurado de um Cristina Tavares em que eu ganhei´(em 2004). Veja só o nível da comissão julgadora desses Cristina: era você, Raimundo Carrero e Xico Sá. Como diria o Lula, puta que pariu!…
Esclareço que “dentro de mim” não tem crítico literário nenhum, ora bolas…
Inácio,
Publicar os contos do Espalitando? Meu irmão, sinceramente isso é uma puta honra e ao mesmo tempo estranho para mim, tão estranho que não sei nem comentar a política e o mercado editorial. imagino que seja difícil mesmo.
grande abraço
Ô Bono,
o que tu escreve é do carai, original para cacete, principalmente no que se refere à sua habilidade de dominar a linguagem, você escreve quase como se pensa.
Vou apresentar teu blog pro pessoal da Ediouro, que tá lançando um selo chamado Blogs Books
Inácio,
parabéns por mais uma resenha que faz com que a gente tenha vontade de ler o livro.
Eu também não conheço nem sei onde mora Vandeck,mas prestei atenção no nome dele a partir de matérias dele nas eleições presidenciais de 2006. Era coisa tão diferente do que saía na nossa imprensa que chega fiquei espantado em como o Diario abria espaço para aquele tipo de análise,profunda, bem escrita, sem preconceitos e sem rabo preso. Nem parecia a imprensa pernambucana. Como sou meio “teoria da conspiração” fiquei desconfiado, pensando no que era que o Diario estava armando pra deixar sair aquela matéria.
Depois li outras coisas dele e estava num seminário sobre comunicação que a Fundaj promoveu faz uns 15 dias em que ele também estava,como palestrante. Fiquei com a impressão de que do pessoal que trabalha nos nossos jornais ele é o único que não tem rabo preso com ninguém.
Agora vou sair pra comprar o livro dele. Nas próximas vezes, bote a livraria em que a gente pode comprar o livro.
Tchau.
Inácio, sempre que posso passo por aqui. E onde é que eu compro esse livro de Vandeck?
Quanto aos jornalistas, um filosófo amigo meu, que é fotógrafo nas horas vagas, costuma soltar uma frase que é uma maravilha. “Na categoria a gente já vê esses absurdos, Zé, imagina se esse povo mandasse no Congresso Nacional?”
Inácio,
Li “Josué de Castro – O gênio silenciado” por recomendação da professora. Adorei a leitura. Pensei que seria algo boring, mas o estilo prende você do começo ao fim. Fiquei pensando, caramba, como é que existe uma história dessa em Pernambuco, como a de Josué, e eu, universitária, nunca ouvi falar???
Depois, agora por conta própria, fui ler o livro do Vandeck sobre Francisco Julião e tive a mesma impressão. Mais uma história que eu nunca ouvira falar.
Em Pernambuco só se fala em Gilberto Freire, tudo é Gilberto Freire, e histórias extraordinárias ficam esquecidas, como a de Josué, Julião e outros. O repórter está de parabéns por ter investido nessa sacada, como você diz.
E seria ótimo se a gente tivesse mais livro assim, publicado por uma editora nacional, para que outros jovens como eu pudessem descobri-la.
Não sei se ainda tem lá, mas comprei este livro do Vandeck na Livraria Cultura,depois que li uma resenha sobre ele do meu mestre Fernando Antonio Gonçalves. Não sou um especialista como você,Inácio,mas acho que o livro conseguiu trazer não só a história do biografado,mas também a história do tempo dele, o que é importante sobretudo para os jovens, que nem imaginam o que o Brasil sofreu naquele tempo.
Inácio,
diante do vigoroso clamor popular, permita-me o comercial: o livro “Josué de Castro – O gênio silenciado” pode ser comprado na
1) Livraria Jaqueira
R. Antenor Navarro, 138/Jaqueira
Fone: 3265.9455
2) Livraria Sodiler, no Aeroporto Internacional do Recife
Fone: 3342.0828
3) no próprio site da Editora Carpe Diem, selo editorial do Instituto Maximiano Campos:
http://www.editoracarpediem.com.br/produtos.asp?produto=89
Custa a bagatela de R$ 25.
Ah, e não adianta procurar na Livraria Cultura e Saraiva; nas duas — ó, glória…– a obra está esgotada.
Abração.