Sei que meu vizinho e amigo Raimundo Carrero não me lê. Então posso fazer uma confissão sem correr o risco de ser atingido por algum objeto pesado ao passar debaixo da sua janela: o escritor contemporâneo cuja voz mais dialoga com meus fantasmas, temores e esperanças é Cristovão Tezza.
É bem verdade que a densidade, a angústia e a permanente tensão de Carrero me inquietam sempre, mas é a literatura de Tezza que liga alguns pontos dispersos na minha alma. Não faz muito tempo que descobri a obra desse sujeito que nasceu em Santa Catarina e vive desde criança em Curitiba. Ainda bem que o acaso me ajudou a encontrá-lo, pois muitas das suas verdades, carregadas pelos seus personagens, ajudam a me explicar. Mas já escrevi sobre isto quando comentei O filho eterno e ao terminar a leitura de Trapo.
Por essa razão corri atrás do restante de sua obra e esbarrei em Juliano Pavollini. Longe de ser um conto de fadas, ganha ares de uma história suave graças ao recurso usado pelo autor: escrito em primeira pessoa, o tom do romance é dado pelo protagonista-narrador, que recorre a todo instante aos livros que leu ou dos filmes que viu para contar sua trajetória e justificar suas escolhas.
Juliano fugiu de casa no dia do enterro do pai. Para isso, afanou a carteira cheia de dinheiro do tio que veio de longe para ajudar sua família a cuidar do enterro. O tio, ou ‘o Parente’, é descrito como um vilão típico. As referências utilizadas ao longo da narrativa refletem as mudanças na forma como o protagonista percebe o mundo ao seu redor e a si mesmo. O amante da cafetina que o adotou vai do enigmático Lorde Rude a um policial corrupto e decadente.
Viver entre prostitutas, ladrões e traficantes não contribui muito na formação da sua moral já precária. Ele rouba, ele pensa em matar e mente a torto e a direito, mas vai levando a vida como se não tivesse nada com aquilo, afinal ele lê, escreve poesia, é mais inteligente do que aquela turma toda. E assim Branca de Neve, Ilha do Tesouro, O mágico de Oz, A Caverna de Platão, Kirk Douglas, Oliver Twist e muitos outros vão dourando a pílula que o menino Juliano engole e tenta fazer os outros engolir também.
Ele sente que é diferente, que pode ser alguém na vida. Há muito de Raskolnikov em Juliano.
Tezza é um autor que sabe encontrar as palavras certas para refletir sobre as fraquezas e contradições do ser humano. O problema é que, nesse caso, ele empresta sua prosa e sua lucidez ao personagem, um jovem presidiário de vinte e poucos anos. Aí, a voz não casa com o dono da voz.
Juliano Pavollini não é uma obra-prima. Apesar dos personagens e situações clichês, trata-se, a bem da verdade, de um livro correto, competente, fácil de ler, escrito em 1989 por um professor de Letras que ainda estava se transformando no escritor corajoso de uma década e meia mais tarde.
Provavelmente foi por isso que, durante uma troca de e-mails no início do ano, Tezza me sugeriu ler outro livro seu, O fantasma da infância, assim que eu concluísse a leitura de Juliano Pavollini.
Poderia encerrar no parágrafo acima, mas vou registrar algo que reforça a diferença entre um escritor talentoso e outros nem tanto. É uma besteira, mas chamou minha atenção. A trama de acontece em Curitiba e a maior parte da história tem como cenário o centro histórico da cidade.
Pois bem, poderia ser em qualquer lugar do mundo. O que importa é o drama e o que move os personagens, não a história de determinada rua, do largo ou desse ou daquele prédio. Se essa história fosse escrita por muitos dos autores “pernambucanos” que se reúnem em seminários mensalmente (médicos em sua maioria), bastaria o personagem atravessar uma rua do Recife para, enquanto o sujeito vai de uma calçada a outra, o leitor aguentar uma descrição minuciosa de cada prédio histórico daquele quarteirão.