Maigret é coisa de cinema

maigret7Um potiguar chamado Tião costuma visitar o blog Estuário, de Samarone, onde ficou sabendo da existência desse Caótico aqui. Dia desses, ele deixou um comentário numa postagem que nem lembro mais qual foi. Aí, descobri e passei a visitar de vez em quando o Sopão do Tião, que vem a ser o blog dele. Numa dessas visitas, cheguei ao blog do crítico de cinema do jornal Estado de S. Paulo, o senhor Luiz Carlos Merten.

Pois bem, no blog mantido sob a responsa de Merten no portal do Estadão, encontrei o assunto dessa postagem: George Simenon e seu comissário Maigret, tema de um dos primeiros textos que publiquei, há uns quatro meses mais ou menos.

Mesmo correndo o risco de me repetir, agarrei a deixa do Merten e volto à Maigret, o mais humano e imperfeito dos detetives da ficção policial. Imperfeito como detetive, perfeito como personagem. O problema é que estou viciado em Maigret, só de sexta para segunda-feira, li dois livretos da série que está sendo publicada pela L&PM: A Fúria de Maigret e Maigret e seu Morto.

Viciado como estou, fiquei satisfeitíssimo ao encontrar o elogio de Merten à obra de Simenon, que ele define como um autor capaz de criar grandes diálogos. O crítico paulista revela que, após ler um dos livrinhos, resolveu fazer uma breve pesquisa para tentar saber se as histórias do personagem já tinham ido parar no cinema, pois não acreditava que “um material tão bom nunca tivesse sido filmado”.

Numa página na internet, descobriu que o personagem foi parar na TV incontáveis vezes. No Japão, inclusive. Mas, para sua – e minha – surpresa, nunca no cinema. Quem já leu alguma história do comissário da Polícia Judiciária de Paris entenderá o quanto isso é surpreendente.

Além dos excelentes diálogos, há muitos outros elementos na ficção de Simenon capazes de fazer salivar qualquer bom diretor. A última novela que li, por exemplo, Maigret e seu morto, é um roteiro quase pronto, pedindo para ser filmado, com ação, violência – sem exagero nem apelação no uso desses ingredientes – e um pouco de disputa pelo poder nos bastidores da investigação. Uma beleza para Hollywood.

Até agora, esse Maigret e seu morto foi o melhor.

Em outras histórias, como As Férias de Maigret, que li há uns dois meses, o autor carregou na tensão, com direito a uma corrida contra o tempo num cenário cheio de luz, sol, cores.

Nesse livro, aliás, é fácil perceber o domínio que Simenon das técnicas literárias e da arte de contar histórias. Inicialmente, quando o detetive ainda tateia, duvidando até mesmo se realmente houve um crime, a trama parece não andar. Depois, a velocidade com que as coisas passam a acontecer, é ditada pela pressa do detetive, pela angústia de saber que precisa resolver logo a questão. Quem lê, é arrastado por Maigret.

Ação, violência, tensão, intriga, ritmo e cenários diferentes. Falta mais algum elemento cinematográfico? Faltam mulheres nuas. Não há problema, tem de sobra na Fúria de Maigret. Ia esquecendo, em Maigret e seu morto tem sexo e um tantinho assim de putaria.

Ah, o Maigret da foto lá em cima, é o ator francês Jean Gabin.

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2 Comments

  1. Tião disse:

    É assim mesmo: um dia desses, minha mulher, mesmo soterrada pelas leituras de um mestrado que está cursando, aceitou uma sugestão minha assim meio pegar ou largar que eu soprei e começou a ler “Morte na Alta Sociedade”, o mesmo George Simenon que você citou naquela antiga postagem (e o único que eu li, daí porque tenho sempre o título na memória). Pois bem: ela devorou o livrinho em dois tempos e, encerrada a leitura, saiu feito uma maluca vistoriando todas as estantes de casa em busca de um outro Simenon pra manter o vício. Está na fissura até hoje, coitada – que o tal “Morte na Alta Sociedade” era a única aventura do inspetor Maigret que temos em casa . Portanto, muito cuidado quando recomendar os livrinhos da série. Por precaução, é bom lembrar ao leitor de adquirir pelo menos dois títulos, porque quanto acabar o primeiro, terá outro para não sofrer qualquer crise de abstinência. Abraços do Tião (p.s: Rejane, minha mulher, conhece a sua pessoa, dos tempos de movimento estudantil; e só pra localizar melhor, somos potiguares residentes em Brasília, daí a gente viver pendurado nos blogues como forma de manter os contados com os amigos distantes uns 3 mil quilômetros.)

  2. Dina Jorge Corrêa disse:

    Não acredito ! Ontem quando voltei da reunião pensei nem falei pro Inácio do Maigret. E, quando abro teu simpático Caótico (ainda tem acento ?) me deparo com teu comentário sobre ele. Eu amo Maigret e já o conheço desde a adolescência. Meu pai e irmãos gostavam do Maigret, e meu pai também gostava do George Simenon, tendo inclusive lido outras coisas dele . Eu só li Maigret, aliás, li e reli . Tem poucos dias que acabei de novo As férias de Maigret e O Cão Amarelo. Isso é que é detetive ! Humano, compreensivo, incrivelmente honesto.Não é metido a galã, usa camisa remendada pela mulher. Qual é o detetive que tem mulher que costura e bem ? Eu relaxo quando leio Maigret, mesmo quando a história é instigante, eu calmamente ando com ele nas investigações e jamais me canso de acompanhá-lo. Até o fim. Não sabia se mandava através do teu blog esse comentário. Ainda sou meia burra para as comunicações virtuais. Odeio o Orkut.

    Quanto ao teu caótico identifiquei-me com o nome de cara. Ao longo desse meu tempo por aqui, concluo que sobrevivo melhor ao caos do que a ordem – palavrinha chata. Portanto vou ficar fã do teu blog.

    Obrigada pela dica da estante virtual. Já encontrei o livro A Fonte de Israel o autor é James A.Michener.

    Beijocas,

    Dina

  3. [...] da sua maior criação, o comissário Jules Maigret. Poucos meses depois, escrevi sobre as vastas possibilidades cinematográficas da literatura de Simenon. Então, para quê escrever o terceiro texto sobre o mesmo [...]

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  1. [...] da sua maior criação, o comissário Jules Maigret. Poucos meses depois, escrevi sobre as vastas possibilidades cinematográficas da literatura de Simenon. Então, para quê escrever o terceiro texto sobre o mesmo [...]

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