Maigret

Maigret

A literatura policial foi fundamental para que eu tomasse gosto pela leitura. É bem verdade que, aos 13 ou 14 anos, o que eu devorava mesmo eram os livros de Júlio Verne publicados pelas Edições de Ouro, que descobri nos anúncios das Palavras Cruzadas que minha mãe, Eliana, fazia. Porém, antes da Volta ao Mundo em 80 dias ou das 20.000 Léguas Submarinas, a literatura policial entrou na minha vida quanto completei 12 anos.

No meu aniversário, em 1980, meu tio Lauro França, que trabalhava na editora Ática me presenteou com todos os livros até então publicados da coleção Vagalume. Spharion e O Escaravelho do Diabo entre eles. Com esse último, experimentei pela primeira vez a sensação de ter sido absorvido por um livro. Meus pais viviam preocupados porque deixava de comer para ficar lendo.

Com 14 anos, aprendi a andar pelo centro do Recife, pois tinha que ir a pé do Salesiano até a avenida Nossa Senhora do Carmo para pegar o ônibus QG Aeronáutica. Morava na fronteira entre a Imbiribeira e Boa Viagem, só o QG me deixava perto de casa. De tanto andar pela Boa Vista, descobri a loja da Edições de Ouro na rua do Hospício, mais precisamente no Edifício Olímpia, onde hoje existe uma loja de material esportivo.

Abandonei o hábito de lanchar todas as tardes para economizar dinheiro. Diariamente, juntava umas moedas. Em outubro (não tenho certeza se em 1983 ou 1984), somei minhas economias a um dinheirinho dado como presente pela minha avó Dolores e comprei a coleção completa de Sherlock Holmes. Eram 14 livros de bolso, com capa preta, branca e vermelha. Belíssimos.

Também li um pouco de Agatha Christie, mas não submergi nela, apesar de Miss Marple e Poirot merecerem um bom mergulho. O problema é que chegou a faculdade e a necessidade de criar uma imagem de intelectual comunista, fundamental para conquistar respeito e o mulherio nos cursos de Jornalismo do final dos anos 80. Depois, já casado e com filhos, botei na cabeça que tinha quer ler os clássicos e literatura mais “séria”. Babaquice.

Acabei relegando ao segundo plano o prazer que me dá o romance policial. E olhe que, na época, eu era repórter de polícia em São Paulo. Pelo que lembro, vai ver eu queria parecer mais “culto” e sofisticado do que meus colegas de redação ou os próprios policiais com quem convivia.

Por causa dessas preocupações ridículas, não segui o conselho de um chefe na sucursal paulista do Globo, Luiz Carlos Azedo (que atualmente apresenta um programa na TV Brasil): “Leia Simenon. Ele concilia a trama policial, política e os processos sociais. Simenon vai ajudá-lo a construir melhor seu texto”. Na época, era repórter de Polícia.

O tempo passou e, já aos 29, 30 anos, tracei o noir americano de Raymond Chandler, Dashiell Hammett, Ross MacDonald e os mais recentes Elmore Leonard e James Ellroy. Até hoje amargo arrependimento por não ter tirado uma foto abaixo da placa da Dashiell Hammett Street, em San Francisco.

Eu não sabia que faltava Simenon e seu Jules Maigret. Só fui entender isso quando li um volume de uma coleção de bolso, que comprei por R$ 8,00 num supermercado.

O que torna o comissário Maigret um lindo personagem é sua humanidade.

Maigret é um detetive sem método definido. Durante uma investigação, ele erra, se emociona, se cansa, às vezes nem consegue interpretar sua intuição, porém, o importante mesmo, é sua capacidade de escutar e compreender o outro. O melhor de Maigret está no fato dele estar disposto a entender e até mesmo viver a vida da vítima, dos suspeitos e das testemunhas.

A formação humanística do belga Georges Simenon, previamente anunciada no prólogo dos livretos, transborda em seu detetive, um sujeito que precisa lidar com seus suas próprias limitações para conviver com os extremos do ser humano. Azedo estava parcialmente certo: a transformação social está presente nos romances de Simenon, como no volume Morte na Alta Sociedade, ou a política, ingrediente que atrapalha o detetive em A Primeira Investigação de Maigret. O mais interessante de sua criação é o próprio personagem.

Sobre o escritor

simenon

Georges Simenon em foto do The Guardian

Georges Joseph Christian Simenon escreveu 84 aventuras de Maigret, além de outros 136 romances ou contos. É um dos autores mais traduzidos do planeta. Começou a escrever ainda adolescente para o jornal de sua cidade-natal, Liége, na Bélgica. Morreu em 1989, aos 86 anos de idade.

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8 Comentários

  1. Lea Cavalcanti
    Publicado 29 de junho de 2009 em 16:19 | Permalink

    Inácio

    Começo dizendo que não sou mulher de escrita. Não sei a diferença de porquê e por que, como também não conheço escritores e nem entendo de literatura. E aí você me pergunta: O que você esta fazendo aí?

    O primeiro (e grande) motivo é que até então em minha vida eu não havia conhecido ninguém que tivesse um blog de literatura. Achei tão chique… e resolvi arriscar umas palavrinhas. Saiba (isto é uma confissão) que é a primeira vez que me comunico com algo virtual, além de e-mails.

    O segundo (não menos importante) é que eu sou viciada em leitura, é diferente de gostar de ler, já vou explicar. Como você (aí é que entra a troca) eu leio em vários lugares e também adorei a coleção Vagalume; por acaso tive contato com alguns policiais americanos (minha ignorância me fez esquecer os autores), adoro o sinal ponto e vírgula e acredite, eu leio (quase) tudo que tenho acesso: livros, revistas, artigos, bulas de remédios, manuais de instruções, rótulos de xampus etc. E não estou falando isso para ser engraçadinha, eu leio mesmo, é inevitável. Enfim, é um vício.

    Com os livros eu tenho relacionamentos, amo às vezes, abandono na metade quando fico magoada ou irada e, muito comumente, os traio com outros, tudo isso sem nenhum embasamento literário. É claro que procuro os clássicos e os indicados pelos amigos (por causa das minhas limitações) e sou da turma do Eu Odeio Paulo Coelho (embora ache um barato a existência dele).

    As bulas, os rótulos e os manuais, isso tudo leio por vício e por curtição. Sem esquecer da bagagem intelectual que adquiro.

    Então, vou tentar aprender com o seu blog um pouco mais de literatura, principalmente aquela que não está nas vitrines das livrarias.

    Beijo, Lea

    Ah! Se eu tiver coragem depois eu te explico minha raiva de 100 Anos de Solidão e de seu autor intragável (êita, li no regulamento que não posso falar mal de ninguém, pode cortar, mas fique sabendo).

  2. Lea Cavalcanti
    Publicado 29 de junho de 2009 em 16:24 | Permalink

    Minha falta de habilidade me fez comentar no lugar errado. Eu queria ficar junto dos comentários dos amigos.

  3. Publicado 29 de junho de 2009 em 21:37 | Permalink

    Léa,

    seu comentário lhe desmente: você sabe escrever.

    E está convocada a criticar 100 Anos de Solidão aqui no Caótico. Você manda, eu publico.

  4. Publicado 30 de junho de 2009 em 18:03 | Permalink

    Acabei de descobrir esse teu canto, graças a boa idéia de Samaroni de pedir aos outros indicações de blogs e sites. Confesso que ando meio afastada dos livros e os blogs tem sido um recurso maravilhoso para não me afastar da literatura. É que, em casa, tenho duas crianças pequenas para cuidar. E, no trabalho, pelo menos, dá pra fazer umas viagens virtuais de vez em quando… Xêro pra tu. Já te botei nos meus favoritos. (Ah!!! Me visita em palavraspontes também: palavraspontes.blogspot.com)

  5. samarone
    Publicado 1 de julho de 2009 em 0:07 | Permalink

    Que conste em ata: meu nome termina com “e”.
    Samarone

  6. Publicado 1 de julho de 2009 em 16:10 | Permalink

    Inácio,
    Descobri esse canto aqui porque Bahé divulgou lá no Acerto de Contas. Bom saber deste espaço. Virei sempre aqui dar uma lida.

    Forte abraço!

    PS: essa tela de fundo ficou massa!

  7. Publicado 3 de julho de 2009 em 9:31 | Permalink

    Inácio,
    não conhecia o teu blog e achie muito boa a idéia de Sama, li alguns dos teus textos e achei maravilhoso os comentários, mesmo porque me identifiquei com muitas das tuas lembranças, que também fizeram parte da minha vida, como: a leitura dos livros policiais da serie vagalume; conhecer as aventuras do Sherlock Holmes, magistralmente escrito por Conan Doyle, mas não conhecia Simenon, vou a procura.
    Não tenho talento para ser escritor, mas como um leitor sei identificar bons escritores e contadores de histórias, e você é um… parabéns pelo blog!
    Abraços,

  8. Publicado 8 de julho de 2009 em 21:11 | Permalink

    Acabo de chegar ao seu blogue via as recomendações colhidas lá nas pradarias literárias de Samarone Lima. E, de cara, vem uma surpresa, quando vejo a capa do livro de Simenon que também descobri tardiamente e há pouco tempo. Também tenho um blogue mais ou menos no espírito desse seu “Caótico” (O Sopão do Tião) e também lá escrevi sobre o mesmíssimo livro um tempo atrás. Então deixo o convite para você visitar o http://www.sopaodotiao.blogspot.com e completar as conexões, de leitor para leitor. P.S: sou potiguar, mas começei a estudar jornalismo aí em Recife, na Católica (1984, já lá se vão) e hoje moro em Brasília, onde trabalho na TV Câmara. Aí você falou em Luiz Carlos Azedo, que conheço de vista e lhe atualizo – o homem está no Correio Braziliense, onde escreve excelentes análises sobre os imblóglios políticos brasileiros.

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