Maldição e glória

Dei por encerrada a entrevista com Marcos Rey e, antes que ele me largasse sozinho na mesa, pedi permissão para falar algo que não tinha nada a ver com a pequena matéria que iria escrever para o Diário de Pernambuco.

- Queria lhe dizer que o senhor e Júlio Verne são os dois principais responsáveis pelo meu amor por livros. Fiz questão de entrevistá-lo para poder agradecer pelos livros que escreveu.

Ele riu, todo sem jeito. Vai ver não esperava uma tietagem tão escancarada por parte de um adulto. Então perguntou qual o livro que tinha me atraído tanto.

- O primeiro de todos foi O mistério do cinco estrelas. Depois, eu ficava esperando aparecer mais um livro seu na Coleção Vaga-Lume.

Fiquei com a impressão que minha resposta não o surpreendeu. Acabou assim minha conversa com um dos escritores que cresci admirando, num final de tarde de maio de 1998, no barulhento stand da editora Ática na Bienal de São Paulo. O gordinho e baixinho Marcos Rey levantou-se e saiu caminhando com dificuldade, amparado pela esposa, que havia ficado por perto durante a entrevista.

Ao vê-lo ir embora, logo me arrependi não ter comprado um exemplar do livro e pedido um autógrafo. Depois de ter concluído a leitura de Maldição e glória, biografia de Rey escrita pelo jornalista Carlos Maranhão, lamentei ainda mais não ter aproveitado a oportunidade.

Nunca li a obra “adulta”, ou a “literatura séria” de Marcos Rey, mas foi principalmente por conta de romances como Memórias de um gigolô que ele foi eleito o “Intelectual do Ano” em 1996. Só isso já é o bastante para avaliar a importância.

A leitura da biografia também revela outro aspecto fundamental do seu trabalho: ele escreveu para o rádio, foi redator publicitário, de TV, e até no cinema de pornochanchada e teve competência suficiente para levar elementos de linguagem de um veículo para os outros. Com isso, também já daria para considerá-lo um grande escritor.

Marcos Rey foi além e fez algo que, acredito, inédito na literatura brasileira: ele usou a linguagem das ruas, do mundo da prostituição, da noite e das bebedeiras para fazer literatura para adolescentes. Isso é difícil que só a gota-serena, principalmente porque nunca perdeu tempo dando lições de moral ou exemplos edificantes. Seu grande achado foi apenas contar histórias tão bem contadas que ajudou a milhares de meninas e meninos como eu a se transformarem em adultos tarados por livros.

A história da vida do contador de histórias foi contada com competência por Carlos Maranhão, que foi tão despretensioso no texto quanto o biografado. Sem firulas, ele apresenta os fatos que de maneira bem concatenada, como quem monta um corrente, elo por elo.

Ele adotou um recurso inteligente para conduzir o leitor as dores e alegrias do escritor, oferecendo um gancho ao fim de cada capítulo, sempre deixando um janela entreaberta para despertar a curiosidade.

Maranhão só perdeu a mão uma vez. Isso aconteceu ao narrar o início do namoro entre Palma e Rey, ou melhor, Edmundo Donato, seu nome verdadeiro. Senti falta de uma coisa: o que se passou pelo coração e pela alma da moça que, inicialmente, sentia repulsa física por Marcos e depois passa a se interessar por ele. Como ela passou da rejeição ao amor? Coisas de quem se interessa mais pelos fatos do que por sentimentos. Defeito do jornalismo.

Foram as virtudes do jornalismo, porém, que possibilitaram uma narrativa tão rica. Com as ferramentas que aprendeu a dominar nas redações das revistas onde trabalhou, ele teceu uma senhora reportagem. Digo “teceu” porque o livro é resultante de uma costura muito bem feita de conversas, leituras de livros e consultas a documentos.

Ao meu vínculo adolescente com a obra do escritor, é preciso acrescentar o fato que Marcos Rey viveu a maior parte de suas vidas pelas ruas e praças do centro de São Paulo.

Na mesma praça Dom José Gaspar, onde tomava umas com a intelectualidade paulistana dos anos 50 e 60, quase todos os dias eu tomava um mate com leite no mesmíssimo prédio onde funcionava o Paribar.

Na Livraria Brasiliense da Barão de Itapetininga, também comprei muitos livros com a ajuda de Rubens, um velho vendedor de livros que havia trabalhado com Caio Prado Júnior e com o filho deste, Caio Graco. O baixinho Rubens telefonava para a redação do Diário Popular, ali pertinho, sempre que chegava um livro que suspeitava ser do meu agrado.

Na noite da rua Bento Freitas, onde jantou com a esposa pela primeira vez, cansei de ir às boates (puteiros, vá lá) My Love ou My Flower, sempre acompanhado de Celso Membribes Sávio, velho repórter do Diário Popular, que me ensinou muitas coisas do importantes do jornalismo, principalmente que só se deve pagar bebida para as putas se for Campari. Por quê? Porque, como é amargo pra cacete, elas demoram mais a esvaziar o copo, aí o dinheiro rende.

Os episódios que se passavam nesses locais me fez rever fachadas, escutar barulhos, sentir os cheiros de um tempo de intenso aprendizado e de felicidade fácil de carregar.

A biografia possui outro mérito, pois revela para o público um segredo guardado a sete chaves por Marcos Rey ao longo de toda sua vida. Logo em seus primeiros capítulos, encontrei a explicação para os dedos retorcidos e para o andar cambaleante que me tanto me intrigaram naquela tarde em que o entrevistei.

Como muitas pessoas, achei que ele sofria de algum tipo de artrose ou paralisia. Errei feio.

Sobre o escritor


Carlos Maranhão é jornalista, atualmente editor da revista Veja São Paulo, mas já passou por várias outras redações da editora Abril (toc toc toc).

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6 Comentários

  1. Arsenio Meira Junior
    Publicado 3 de agosto de 2010 em 11:49 | Permalink

    Grande Inácio.
    Que texto da porra.

    Um escritor como Marcos Rey, que me é tão caro, merece mesmo o olhar detido e emocionado de sua pena.

    Uma recordação que não se gasta jamais.
    E olhe, tenho absoluta certeza. O que você disse pra ele, a homenagem que você fez pra ele, calou fundo no coração do velho escritor.

    Irretocável o seu texto.
    Quem dera eu pudesse – um dia – ter a oportunidade de agradecer a Marcos Rey, como você teve.
    Valeu.

    Os atributos do Velho Edmundo Donato são imensuráveis. Ele escrevia sobre gente, personagens em carne viva, diálogos reais, de concreto, viadutos, multidões, elevados, bares e Centrão, normalistas, decadentes.

    A pauliceia em peso comparece em sua obra.

    Mendigo, malandro, poeta, palhaço, pirata, corisco, errante judeu, muleque, mulambo bem ou mal, fizeram o festival da ternura e ironia no universo das boas histórias contadas/escritar por esse grande escritor.

    Ps – Campari, com pouca tônica, para as mariposas… kkkkkkkkk
    Rende mais, e o teor do álcool amolece o coração – às vezes embrutecido – delas…

  2. Luis Carlos Monteiro
    Publicado 3 de agosto de 2010 em 19:03 | Permalink

    Ah, muito bom.
    Excelente texto, para um livro que faz jus ao biografado.

    Parabéns Inácio.
    Quem não leu Marcos Rey, precisa ler.
    É apenas uma opinião fundada em tudo o que o post revela e também porque sou um eterno leitor dele e tenho orgulho de ser conterrâneo deste grande escritor.

  3. Jonas Duarte
    Publicado 4 de agosto de 2010 em 11:23 | Permalink

    Inácio, excelente post.
    O livro e a obra de Marcos Rey são dignos dessa sua visão.
    Pessoal, quem não leu a biografia, trate de ler. Quem não quiser ler, paciência. A vida continua do mesmo jeito.

  4. João Roberto Gomes
    Publicado 4 de agosto de 2010 em 18:32 | Permalink

    Opera de Sabão, Café na Cama, Malditos Paulistas e Memória de um Gigôlo são três grandes romances de Marcos Rey.
    A ele, nossas homenagens.
    Eternas.

  5. Arsenio Meira Junior
    Publicado 5 de agosto de 2010 em 16:08 | Permalink

    Completando, pois o assunto não se esgota assim tão facilmente: do Mistério dos Cinco Estrelas até os seus romances e contos, a trajetória de Marcos Rey foi direcionada para a difícil arte de contar histórias ou estórias, com leveza, ironia, graça e sabedoria.

    Digo difícil porque tem muita gente por aí que confunde erudição parca e estéril com literatura.

    Temos uma dívida de gratidão para com Marcos Rey que não acaba.

    Como bem demonstrou o Inácio, não é fácil escrever para jovens sobre temas hoje politicamente incorretos, sem ofensas e com instrução suficiente para levar um jovem a enveredar-se para sempre pelo mundo instigante da leitura.

    Era uma pessoa, o Marcos Rey, que sabia como poucos contar uma boa e divertida história.
    Alguns pensam que é fácil, mas não é.

  6. celso savio
    Publicado 14 de fevereiro de 2011 em 18:32 | Permalink

    O amargo do Campari faz o contra-ponto do fel de nosso fígado. Gastávamos menos sim, com as ‘garotas alegres”, porém, essa espécie de cinergia nos levava a reflexões sobre um dia-a-dia conturbado em nossas redações, quando tínhamos que relatar aquilo que se passara durante uma pauta ao leitor do dia seguinte.
    Jornalista-repórter é uma doença. Rrevelar o cotidiano não é para todos (profissionais).
    Marcos Rey, assim como Plínio Marcos, consegue retratar o cotidiano. Nós somos seus personagens.
    Legal, Inácio. E me escreva, cabra bom.

2 Trackbacks

  1. [...] a Mano Juan por indicação de Arsênio Meira, pois, ao concluir a leitura da biografia de Rey, bateu uma vontade danada de lê-lo. Primeiro, tentei O último mamífero do Martinelli porque [...]

  2. [...] trabalhava numa agência de publicidade, ainda pelejando para destravar a carreira de escritor, e varava as noites na “boca” do centro de São Paulo entre prostitutas, jornalistas, artistas e pés-de-barraca de todos os naipes.Jovens ambiciosos com [...]

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