Maluco

malucoCapaNos livros de História da escola – pelo menos no meu tempo – a viagem de Fernão de Magalhães era citada rapidinho no finalzinho do capítulo das Grandes Descobertas. Cabral e Colombo eram tratados pelos autores como o Maradona e o Pelé das Navegações. Vasco da Gama e Américo Vespúcio eram o Garrincha e o Puskas.

No meio de tantas feras, sobrou pouca fama para Magalhães na posteridade. Durante séculos, ele ficou lá no cantinho da história, meio sem prestígio. Como a viagem de circunavegação aconteceu quando os europeus já tinham o mundo quase todo mapeado e só os mais velhos continuavam acreditando na besteira de que a Terra era quadrada, Magalhães acabou virando nota de pé de página.

Pra piorar as coisas pra memória do navegador português, quando fizeram o Canal do Panamá, em 1914, o caminho da Europa para o Pacífico foi encurtado e a rota pelo Estreito de Magalhães acabou abandonada. Hoje, só os aventureiros mais doidos e um ou outro barco baleeiro se arriscam a enfrentar as ondas gigantescas, os ventos gelados e o labirinto de ilhas no extremo sul da América do Sul.

Foi o livro de Zweig quem reafirmou a dimensão heróica  de Magalhães.

Depois, em 1989, o uruguaio Napoleón Baccino Ponce de Leon, publicou seu Maluco – O Romance dos Descobridores, prêmio Casa de Las A méricas daquele ano.

Li Maluco em 1992 (sei disso porque costumo anotar nas páginas iniciais de cada livro o local e a data em que terminei a leitura, mania que só agora tem alguma utilidade). Ignorante, nem imaginava que existia Stefan Zweig, quanto mais o livro dele.

Continuando, li e me diverti com a narrativa do bufão, o bobo-da-corte, Juanillo, um personagem fictício que acompanhou a frota e teria sido um dos sobreviventes da circunavegação.

A ideia do bufão, que se torna escriba, subverte a hierarquia. Na ficção do uruguaio, a história é contada por um subalterno e não por um escriba oficial, submetido à censura da corte e à linguagem formal da época.

Além do aspecto subversivo, a história é engraçada e o narrador ironiza os acontecimentos a partir da ótica de quem testemunha os acontecimentos do andar de baixo, ignorado pelos oficiais.

Lembro que eu ri muito enquanto avançava na leitura. Já não lembro do quê exatamente eu ri, mas recordo que – em linhas gerais – os espanhóis estavam interessados no lucro, Magalhães em provar que o mundo era redondo.

Quando encontrei O Homem e sua Façanha, encontrei também várias passagens que serviram de base para a ficção de Ponce de Leon. E pude comparar um bom livro, cheio de humor, com um livro de um escritor mais ambicioso, que utilizou mais recursos técnicos (ou intelectuais) para construir sua obra.

Se eu fosse arriscar outra metáfora, diria que Maluco é um vinho branco, doce. Fernão de Magalhães, um encorpado cabernet sauvignon.

Sobre  o escritor

PoncedeLeon

Única foto que encontrei de Ponce de León no Google

Napoleón Baccino Ponce de León nasceu em 1947 e vive em Montevidéu também é crítico literário. Quase desconhecido no Brasil, é um intelectual respeitado no restante da América Latina. Vão se acostumando: escritores uruguaios serão arroz-de-festa aqui no Caótico.

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2 Comentários

  1. samarone
    Publicado 11 de julho de 2009 em 9:46 | Permalink

    França, então se prepare para minhas colaborações. Não acredito que o Juan Carlos Onetti vai ficar de fora, nem o Mário Benedetti, nem outros tantos gigantes uruguaios.
    Se precisar da ajuda no setor dos argentinos, manda-me um aceno.
    Samarone

  2. Publicado 11 de julho de 2009 em 12:15 | Permalink

    Inácio tenho mais duas sugestões pro blog que o pessoal aqui pode ajudar a formatar:
    Uma é inspirada no Biscoito Fino e a Massa (www.idelberavelar.com): o autor desse blog é da Universidade de Toulane, em Orleans – conheci o cara, é um chato mas sabe usar bem a internet. É brasileiro e uma autoridade em literatura. Ele promove ou promovia (o blog dele mudou um pouco de perfil e se assumiu mais politicamente de uns tempos pra cá) clubes de leitura: combinava com os leitures dele lerem um livro em 30 dias. Depois desse período, preparava um post e começa uma discussão na caixa de comentários sobre o que todos haviam lido. Acompanhei mesmo sem ler algumas dessas ‘reuniões’ do clube de leitura do Biscoito Fino e posso dizer que aprendi que só.

    A outra sugestão é você montar uma rádio – existem alguns serviços gratuitos que permitem alojar players de música no site. MInha proposta seria que o set list poderia ter a ver com literatura ou trilha sonora de livros adaptados pro cinema, ou…. sei lá.

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