Mauá – Empresário do Império

O leitor Arsênio Meira Júnior entusiasmou-se com o Caótico e deu algumas sugestões para a publicação. Aproveitei o embalo do sujeito e propus a missão de escrever sobre uma de suas sugestões. Sem perceber que iria trabalhar de graça, ele topou na hora. O texto ficou grande e o autor recomendou que eu o cortasse, algo que não fiz por duas razões: preguiça e porque foi escrito com tanta paixão que o resultado ficou delicioso. Com vocês, a primeira contribuição de Arsênio para o Caótico.

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por Arsênio Meira Júnior

Não foi fácil para o garoto Irineu. Órfão aos cinco anos de idade, aos nove disse adeus involuntariamente para mãe e a única irmã na província do Rio Grande, ao embarcar num navio rumo à Capital do Império, numa época em que naufrágios eram tão comuns quanto os perdigotos que introduziam na população o bacilo de Koch, dizimando-a.

Mas é só ler a incrível história desse garoto, que você leitor, verá que ele se saiu muito bem. A biografia dele, escrita por Jorge Caldeira em 1995, é um desses livros definitivos. Únicos. Singulares. O rio de clichês se justifica, pois só assim não escrevo que o livro é duca…

Em Mauá – Empresário do Império, Jorge Caldeira trouxe-nos a vida do Barão e depois Visconde de Mauá, em tintas mais do que palatáveis.

O livro trata de economia, diplomacia, costumes, Colônia,  História, espionagem, estratégias, guerras, abolicionismo, revolução industrial, falência, intervenção estatal, Política, Imperadores, canalhas, agiotas, mercadores de homens, Estado, Império, Autocracia, coragem, evolução do crédito, corrupção, Adam Smith, desonra, glória, honra, eleições, ganância, inveja,  velhice e morte.

Claro que boiando nesse mar de tópicos tão variados, às vezes alguns peixes mortos podem surgir na praia, mas Caldeira não deixa o Leitor em paz.

Vejamos:

Irineu nasceu no distrito de Jaguarão, RS, em 28 de dezembro de 1813. Quando completou nove anos, sua mãe contraiu novas núpcias  e a condição imposta pelo novo manda-chuva –  comum à época – era não ter os filhos de casamento anterior morando sob o seu sacrossanto teto.

A solução foi achar um marido para a filha de 12 e mandar o menino de nove anos para o Rio de Janeiro. Quem o levou foi um tio, o mesmo que conseguiria o primeiro emprego para Irineu.

O nosso personagem passou a trabalhar e morar na casa de um comerciante português, onde rapidamente aprendeu tudo, tornando-se pessoa de confiança do patrão. Detalhe: não havia salário. Que se contentasse com a cama, a mesa e alguns caraminguás para os domingos.

Em 1829, o ano da virada: Irineu foi trabalhar com o importador e exportador inglês Richard Carruthers.

Este escocês sovina não só lhe ensinou sua língua pátria, contabilidade e a arte de comerciar, como dedicou-lhe um afeto sincero; contido, europeu, porém  afeto, ainda mais para quem foi arrancado à fórceps de casa, e sozinho, viu-se navegando mundo afora.

Carruthers era um solitário, um desses personagens míticos, que a seu modo frequentam o mundo com propósitos nítidos, e partem sem dizer Adeus.

Caldeira foi fundo, e não deixou trilha a ser desvendada. Irineu adquiriu o hábito das leituras sérias; aprendeu a arte de fazer contatos, iniciou-se ma maçonaria, penetrou nos clássicos da Economia. “A riqueza das Nações”, de Adam Smith, foi por ele devorado como hoje um adolescente devora um prato da nossa típica culinária junkie food.

No final de 1835, mal saído dos seus 22 anos, eis que o nosso herói vê o Chefe Carruthers reunir todos os funcionários para comunicar com simplicidade que ia pendurar as chuteiras. Que se cuidassem, pois pra ele bastava. Voltaria para a Inglaterra.

E quem assumiria o seu lugar? Indagaram os atônitos funcionários. Irineu Evangelista seria o novo acionista controlador. Aos 27 anos, o futuro Barão de Mauá, já bem posto, viajou até a Inglaterra.

Queira conhecer de perto e ao lado do velho Carruthers, a grande potência mundial, protagonista de uma Revolução que se iniciava e que mudaria o mundo. Visitando fábricas, fundições de ferro, conheceu a Ferrovia, a coqueluche do meio empresarial e político do momento. Foi amor à primeira vista.

Essa visão do país mais moderno do mundo abriu os olhos de Mauá para aquilo que ele gostaria que o Brasil fosse: apenas uma nação adiantada. Desde então seu sonho quase obsessivo foi criar no Brasil indústria e infra-estrutura modernas.

O garoto Irineu era um cego em terra de Reis, Senadores Vitalícios, Deputados e Vagabundos mil. Mas em 1845, o Barão tomou a dianteira do ousado empreendimento de construir os estaleiros da Companhia Ponta da Areia, com que iniciou a indústria naval brasileira.

Em plena ascensão como homem de negócios, não perdeu a chance de peitar o Imperador e toda a mentalidade vigente, que o queria subserviente, e ainda forneceu os recursos financeiros necessários à defesa de Montevidéu, quando o Governo Imperial decidiu intervir nas questões do Rio Prata, em 1850.

Da Ponta da Areia saíram os navios para as lutas contra Oribe, Rosas e Lopes.

Numa sincronia de amor e ódio, conseguiu a duras penas, junto ao venerando governo imperial, a concessão do fornecimento de tubos de ferro para a canalização do rio Maracanã, na cidade do Rio de Janeiro (1845).

Foi quando liquidou os interesses da Casa Carruthers. No  ano seguinte, com o aval do seu mentor e pai intelectual (o velho escocês), com quem continuou mantendo estreita relação – inclusive comercial – adquiriu uma pequena fundição situada na Ponta da Areia, em Niterói, na então Província do Rio de Janeiro. Imprimindo-lhe nova dinâmica empresarial, transformou-a em um estaleiro de construções navais.

Seu ideário casava-se bem com o laissez-faire da época e com os modismos renascidos no neoliberalismo, incluída a versão cabocla.

Como bem reitera Caldeira, sua expressão favorita – exibida por ele com orgulho e convicção – era: “Desgraçadamente entende-se que os empresários devem perder para que o negócio seja bom para o Estado, quando é justamente o contrário que consulta os interesses do país.”

Nesse período, o Estaleiro da Ponta da Areia já multiplicara por quatro o seu patrimônio inicial, tornando-se o maior empreendimento industrial do país, empregando mais de mil operários e produzindo navios, caldeiras para máquinas a vapor, engenhos de açúcar, guindastes, prensas, além de artilharia, postes para iluminação e canos de ferro para águas e gás.

Obviamente, não tardou e sua sagacidade despertou a ira dos brasileiros, ou por outra, da classe dirigente (rural e escravocrata, e portanto, vagabunda).

Mauá não tolerava essa gente. A recíproca era verdadeira. O Brasil era um reinado absolutista com regras tão imbecis quanto a que obrigava a infalibilidade do rei.

O problema é que, legalmente, o rei nunca poderia “falhar. Caso não quisesse ser julgado por lesa-majestade, o cidadão via-se obrigado a sentar no meio-fio, de pires nas mãos e chorar suas pitangas. Como dono do terreiro, D. Pedro II começou a se ver interessado pelas maravilhas do mundo moderno. Tinha fumaças de poeta, e enxergava em cada Papagaio, a redenção da fauna e da flora.

Entre outras coisas, decidiu que iria fazer uma estrada de ferro paralela à do Barão de Mauá com fretes mais baratos. Decidiu que o Banco do Brasil não iria mais conceder empréstimos para as empresas do Barão. E também decidiu que mudaria paulatinamente as regras de todo e qualquer negócio no império simplesmente porque ele podia.

E Caldeira relembra que D. Pedro II ficou conhecido por revezar seu apoio a liberais e conservadores com a mesma frequência de um bebedor nato de cerveja, acometido por incontinência urinária. Essa foi a tônica do seu reinado. Obviamente, o Barão haveria de cair em desgraça.

O detalhe peculiar é que, de acordo com os registros contábeis, a moratória do Barão se deveu a pesadas dívidas por parte de empresas estatais e estrangeiras.

Entre elas, a São Paulo Railway, que questionou uma dívida gigantesca absolutamente válida durante anos com o argumento de que “como era estrangeira, não poderia ser julgada em corte brasileira”.

O Poder Judiciário, “curiosamente”, mandou o Barão às favas, e deu ganho de causa aos ingleses. Leiam e vocês saberão ainda mais o poder letal da corrupção: capaz de aniquilar homens, mulheres e crianças numa só penada.

Ao invés de sair por aí esbravejando contra o Imperador (com razão), Irineu preferiu se retirar à sua casa em Petrópolis, pagar suas dívidas e tocar sua vida vendendo café. Mas de sua visão e perseverança saíram mais de setenta e dois navios em onze anos, entre os quais as embarcações brasileiras utilizadas nas intervenções platinas e as embarcações para o tráfego no rio Amazonas.

No final da década de 1850, o visconde funda o Banco Mauá, MacGregor & Cia., com filiais em várias capitais brasileiras e em Londres, Nova York, Buenos Aires e Montevidéu.

Nessa conta, debitem um incêndio que destruiu seu estaleiro em 1857. Mas ele, mesmo caído, soube reinventar-se. Reconstruiu a fábrica sem importunar ninguém.

Porém, o Império contra-atacava.

Em 1863 entrou em vigor uma “lei” que isentava de tributos a entrada de navios construídos fora do país;  essa legislação custou a derrocada da empresa, mas não afetou os outros negócios do empresário.

A partir de então, dividiu-se entre as atividades de industrial e banqueiro. O homem não parou mais: Mauá trouxe a iluminação a gás da cidade do Rio de Janeiro (1851), a primeira estrada de ferro, da Raiz da Serra à cidade de Petrópolis RJ (1854), o assentamento do primeiro cabo submarino telegráfico entre o Brasil e a Europa (1874) e muitas outras iniciativas.

Em 1856, Irineu recebeu a concessão para construir a ferrovia Santos-Jundiaí. Seria um empreendimento grandioso que escoaria a crescente produção de café de São Paulo para o porto de Santos.

O café descia a Serra do Mar em lombo de burro. E todos os grandes cafeicultores, confiando seus bigodes, davam-se tapinhas nas costas, satisfeitos.

A nova empresa tinha sócios ingleses e lançou ações na bolsa de Londres. “Nunca antes na historia deste país”, alguém tinha tido a honra de ser notado pelo Barão Rothschild, o maior banqueiro do mundo. Foi ele o primeiro subscritor de ações. Não era pouca coisa.

O Barão de Rothschild, do alto dos seus 800 anos em finanças, entendeu o brasileiro, e deu-lhe crédito. A obra andaria devagar, dentre outros motivos, por falta de dinheiro e aos poucos, o banco de Mauá se tornou seu maior financiador. Irineu acabou vendendo suas ações, mas continuou a emprestar fundos para terminar a obra.

Em 1867, a ferrovia foi inaugurada e imediatamente começou a operar lucrativamente. Mas o visconde não conseguiu receber seus créditos e isso provavelmente foi primordial para a sua ruína.

Voltando ao princípio do fim: em 1875, viu-se obrigado a pedir moratória, a que se seguiu longa demanda judicial, derradeiro capítulo da biografia de grande empreendedor.

Após anos de ataques, a situação se complicou. O Barão de Mauá começou a liquidar todas suas empresas e bens pessoais para pagar suas dívidas. E olhem que da sua inteligência continental, não lhe faltaria engenho para escapar impune. Homem honrado, não queria deixar ninguém no prejuízo e não deixou.

Mas para quem navega um aviso: o fracasso financeiro da Mauá, a partir da decretação de sua falência,  não pertence ao rol do acaso nem a seus pretensos defeitos pessoais, tais como “imprudência”, “demasiadamente utópico”, ou ainda, “afoito nos negócios” e sim a uma sistemática asfixia movida pelo conservantismo da estrutura econômica e social em que viveu.

Jorge Caldeira (foto) aponta para uma sabotagem consciente, intuitivamente aplicada por uma sociedade tradicional que entendia ser a difusão das modernas relações de produção, das quais Mauá era o maior representante, uma pedra no meio do seu caminho lamacento.

Essa gente o via como desagregador e destruidor dos seus “nobres” intentos econômicos e sociais.

Balzac, retratando os costumes da sociedade francesa durante a restauração, criou um protótipo de pequeno burguês, rígido cumpridor de seus deveres. Quando vai à falência, o pobre César Birotteau não mede esforços para saldar até o último centavo do capital devedor. Não deixa de ser comovente. O boticário morre tendo às mãos a última promissória resgatada.

Essa dignidade típica da classe média vitoriana é assumida plenamente por Irineu Evangelista de Souza. Sua falência podia ser evitada com um empréstimo governamental, mas tal lhe foi negado.

Doente, minado pelo diabetes, só descansou depois de pagar todas as dívidas. Pagou tudo. Portanto, acalmem-se: não foi ele que inaugurou nossa indigência política e cultural (o famoso jeitinho brasileiro).  Foi , antes, uma vítima. Mais uma.

Ele bem que tentou, mas o Brasil perdeu o bonde da Revolução Industrial no século XIX e perdeu o jato da revolução tecnológica do século XX.

Aqui uma digressão: atribuo a degenerada supremacia do Estado à nossa formação da Contra-Reforma Católica, que fechou a Igreja e os Estados Católicos aos caminhos do mundo moderno da ciência, do liberalismo político e econômico. Mauá no século XIX fez das tripas corações, mas foi voto vencido.

O nome do título de Mauá vem do antigo nome do Porto de Estrela, que ficava ao lado do terminal da ferrovia arduamente construída por ele: a primeira fFerrovia do Brasil, inaugurada a30 de abril de 1854.

As fofocas da corte imperial interpretavam o nome do título como uma ironia do Imperador. À boca miúda dizia-se: “Barão de Mauá, porque algum mal, há.”

Como se vê, os asseclas, bajuladores e aspones já ditavam o ritmo parco de nossas vidas. Não mudou muito de lá pra cá.

O menino Irineu Evangelista de Souza morreu em Petrópolis, no dia 21 de outubro de 1889, sem dever um centavo a seu ninguém, neste país de malandros e proxenetas.

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8 Comentários

  1. João Roberto Gomes
    Publicado 30 de junho de 2010 em 13:12 | Permalink

    Não conheço o autor do artigo, porém parabenizo-lhe. Eu li esse livro, e de fato, o livro é isso tudo e mais um pouco.
    Como um pretenso historiador que sou, resta-me elogiar o texto, posto que bem escrito e fiel aos fatos.

    E ao Inácio França: ótimo blog. Muito bom. Há vida inteligente na web, graças a Deus.

  2. Publicado 30 de junho de 2010 em 13:59 | Permalink

    João,

    seja benvindo. E apareça sempre. E acredite: eu também não conheço o autor do texto, mas vou com a cara dele.

  3. João Roberto Gomes
    Publicado 30 de junho de 2010 em 14:18 | Permalink

    Obrigado Inácio.Virei sempre.

    Conheci o blog, porque sou leitor do blog do Santinha e do Torcedor Coral, embora não seja de comentar.

    Saudações Santacruzenses das bandas do Arruda.

  4. Cláudio Guimarães
    Publicado 30 de junho de 2010 em 16:44 | Permalink

    Como leitor do Dimas no Torcedor Coral e de vocês, la no blog do nosso Santinha, onde sempre faço comentários, pois o Santa Cruz ocupa a maior parte das minhas atenções, deparo-me aqui com esse contundente e belo relato.

    O livro, que já li, realmente é merecedor desse artigo, pois MAUÁ e sua trajetória foram dignas de uma epopéia.

    Também não conheço o autor deste artigo de primeira categoria,e pelo nome, desconfio que seja torcedor do Sport, mas não convém tratar desse defeito, rsrsrs, pois também fui com a cara dele, igual ao Inácio, grande escritor, jornalista e tricolor.

    Parabéns ao Arsenio e ao Inácio, editor deste excelente blog.

  5. Jonas Duarte
    Publicado 1 de julho de 2010 em 10:12 | Permalink

    Excelente!
    Não conheço ninguém, mas qual o quê!
    Muito bom, esse blog.
    Já pode me incluir aí como leitor.
    Parabéns a todos.
    E o artigo é na medida.

  6. Clávio Guimarães
    Publicado 3 de julho de 2010 em 0:32 | Permalink

    Valeu Arsenio. Com a formatação aqui no Caótico, seu artigo ficou bem melhor de ler.
    Acredito que quem não leu, não poderá deixar passar essa chance. Eu li, reli e tresli a Biografia de Caldeira.

    E dei uma geral no blog, e minha esposa já anotou ao menos dois ou três livros para comprarmos.
    Muito bom mesmo o blog. Parabéns Inácio França, a quem não conheço, e ao Arsenio, meu amigo virtual, posto que da longíqua São Paulo, ainda não pude ir ao Recife para abraçá-lo.

  7. Clávio Guimarães
    Publicado 3 de julho de 2010 em 0:53 | Permalink

    Corrigindo: Longínqua…
    E só hoje consegui acessar o blog.
    Tentei durante uns 3 dias e já estava desistindo…
    Abraços
    Ps – O Cláudio e eu não somos parentes, mas quase, por um triz, ou quem sabe nós somos e não sabemos?.
    Pelo meu nome inusitado e pelo sobrenome idêntico bem que poderíamos ser.

  8. Marcos
    Publicado 7 de novembro de 2010 em 18:30 | Permalink

    Sou grande admirador de Irineu Evangelista, Barão de Mauá, e acho esse livro fantasticos, a historia embalada pelos seus comentarios pertinentes remetem ao que realmente fez e faz diferença neste pais…a resiliência do empresario brasileiro, mesmo contra tudo e contra todos…afinal nos dias de hoje ainda se percebe a luta sordida e inutil para mudar o estado, cheio de preguiçosos e proxenetas de plantão.

    Grande abraço.

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