Meus Lugares Escuros

lugares_escurosImagine um garotinho de 10 anos que mora sozinho com a mãe desquitada. Pronto? Agora, imagine a dor e o vazio desse menino quando sua mãe é encontrada morta, estrangulada, numa rua esquisita, depois de sair para dançar e tentar arrumar um namorado.

Se deu para imaginar o menino e seu sofrimento, tente compreender a coragem desse garoto já adulto e escritor reconhecido, investigando o homicídio da mãe e escrevendo sobre tudo isso quase 40 anos depois.

Esse escritor raçudo – e o garotinho solitário que ainda parece existir dentro dele – é James Ellroy, um craque da atual literatura policial norte-americana. E o livro autobiográfico que resultou do esforço para virar pelo avesso o fato mais importante de sua vida é Meus Lugares Escuros.

Passei uns anos paquerando esse livro, pois o título, a sinopse e o pouco que já conhecia sobre Ellroy inflacionaram minha expectativa. Até que, no final de 2006, quando estava prestes a enfrentar dias de viagem pelo sertão da Paraíba numa caravana do Unicef, botei o danado na mala.

Essa decisão me transformou num ser antissocial, esquisitão. No ônibus, corria o risco de enjoar e vomitar o almoço só para ficar lendo; nas paradas para dormir, meus companheiros de quarto tinham de suportar a luz ligada noite adentro. O pior é que enfrentamos vários trechos por estrada de terra, o que atrapalhava a leitura e aumentava a dor-de-cabeça, estimulando os agourentos que faziam questão de lembrar o risco iminente de um deslocamento de retina.

Se eu tivesse vomitado ou sofrido algum trauma na vista, a culpa seria toda de Ellroy, que é um daqueles que seguram o leitor pela garganta logo na primeira página e logo na primeira página me arrastou pelos detalhes sórdidos que envolvem o crime e a investigação da morte de sua mãe, que não viveu o bastante para ser chamada de dona Geneva.

Existem autores como Mário Benedetti que carregam o leitor pela mão, com suavidade, doçura. Ellroy não, Ellroy é um cavalo batizado.

Meus Lugares Escuros é um prato cheio para psicólogas, psicoterapeutas e psiquiatras. O livro pode ter nascido por recomendação de um terapeuta ou então foi um jeito que ele encontrou para economizar dinheiro com essas coisas, pois foi escrevendo essa história que o escritor exorcizou, ou pelo menos tentou exorcizar, os fantasmas que atormentaram sua adolescência e juventude.

No final das contas, ele não conseguiu descobrir quem matou sua mãe, o motivo do crime ou sequer o que ela fazia e vivia nas noites da periferia de Los Angeles, mas bem que ele tentou. Chegou até a contratar um ex-policial para continuar a busca por alguma pista que ajudasse a esclarecer o homicídio, cujo processo mofava nas gavetas de um arquivo da Polícia, e divulgou e-mail e endereço no final do livro. Uma garrafa lançada no mar do esquecimento.

As investigações fracassaram, é verdade, mas acredito que, ao colocar o ponto final na última linha do último parágrafo, o adulto James teve a certeza de que sua mãe não estava mais sozinha ou esquecida. E o menino passou a viver em paz dentro dele.

Sobre o escritor

jamesellroy3

Depois do assassinato da mãe, James Ellroy foi viver com o pai, um sujeito negligente, preguiçoso e enrolão, como ele mesmo detalha num dos capítulos de Meus Lugares Escuros. O maior mérito do velho foi ter jogado um livro na mão do filho, o que despertou sua vontade enlouquecida de escrever. Esse gol o pai marcou aos 45 do segundo tempo, pois ainda adolescente James já tinha bebido hectolitros de uísque e invadia casas vazias para cheirar calcinhas. Ele é é tarado mesmo, como pode ser comprovado em outros livros que se tornaram sucesso no cinema: Los Angeles Cidade Proibida e Dália Negra.


Enviar por email - Imprimir

2 Comentários

  1. samarone
    Publicado 7 de setembro de 2009 em 3:34 | Permalink

    Esse está na minha lista.
    A foto do autor está péssima.
    Samarone

  2. adriana
    Publicado 10 de setembro de 2009 em 8:51 | Permalink

    Fiquei tão curiosa p/ler, que fui comprar o livro, mas está esgotado no fornecedor. Tentarei o Sebo.

Um Trackback

  1. [...] que o Caótico estava valendo a pena. Hugo Figueiredo, que trabalha comigo lá em Olinda, pediu Meus Lugares Escuros para ler. Achei ótimo o interesse do cara. Empreste, mas inaugurei uma regra nova na minha [...]

Comentar

Seu email nunca será publicado ou distribuído. Campos obrigatórios estão marcados com *

*
*