Mulher de Pedra

Mulher de Pedra - Tariq Ali

Não há nenhum motivo especial para que Mulher de Pedra inaugure o Caótico. Pelo contrário, de Tariq Ali gostei muito mais de O Livro de Saladino, que li há uns cinco ou seis anos. Como não há nada de especial, nada marcante nem fantástico, é de bom tom justificar minha escolha.

O motivo é bem simples: foi durante a leitura desse livro que ocorreu a idéia de criar o blog, ou melhor, foi quando deu vontade de contar que ele não é tão bom quanto o outro, mas que, mesmo assim, a leitura valeu a pena.

Primeiro, vou situá-los: Mulher de Pedra é o último livro de uma trilogia chamada Crônicas do Islã. O primeiro da seqüência é Sombras da Romãzeira, mas desse nada sei. O segundo é O Livro de Saladino. Esse é daqueles que se pega para ler e não dá para largar fácil. Ou então, como me disse uma vez o Edmundo Barreiros, é para ir lendo devagarinho para se perpetuar o orgasmo da leitura, pois o único orgasmo que dá para prolongar é o de ler um bom livro.

Da testosterona da batalhas para botar os cristãos para correr de Jerusalém do Livro de Saladino, Tariq Ali dedica-se mundo da mulher no Islã em Mulher de Pedra. Mais precisamente, na decadência do Império Otomano (atual Turquia) no final do século XIX, ou seja. O romance é narrado em primeira pessoa por Nilofer, filha de Iskander Pasha, aristocrata turco que vive longe de Istambul. Todo o enredo acontece durante o verão de 1899, na mansão de veraneio da família, numa praia do Mar Negro ou do Mediterrâneo, não consegui discernir.

Antes um pouquinho de história: a decadência dos otomanos não se limitava à perda de territórios, mas principalmente administrativa e moral. Não faltava xeleléu para puxar o saco do sultão e religioso islâmico para opinar sobre restrições na vida dos súditos. Para gente que conviveu com várias culturas européias, africanas e asiáticas, era difícil suportar a mesquinhez dos sacerdotes.

Aliás, a convivência dos turcos com as outras etnias que foram conquistadas pelo Império é outra surpresa de Tariq Ali. Gregos, sérvios, curdos, armênios, egípcios, judeus e turcos viviam numa boa, na medida do possível.

A desagregação imperial gerou um movimento modernizador, comandado por jovens militares, entre eles o bem-intencionado e conspirador irmão da narradora Nilofer, mas também provocou muitos ressentimentos contra os povos com quem os turcos nunca tiveram problemas de relacionamento cotidiano.

Quando aborda as contradições do nascente movimento de modernização dos Jovens Turcos, Mulher de Pedra oferece uma visão daquilo que não está presente na história oficial. Pelo que Tariq Ali conta, a transformação do império poderia ter acontecido sem o custo do massacre de um milhão de armênios, mas os oficiais e colaboradores de formação humanista acabaram sendo derrotados pelos que procuravam bodes expiatórios, do mesmo jeito que os nazistas.

Também senti vitalidade nas cenas e situações do cotidiano e da vida familiar dos otomanos, coisa que a literatura (e o cinema feito longe de roliúdi) é capaz de oferecer: possibilidades de enxergar as coisas do mundo além dos preconceitos forjados por nossas famílias, pela mídia, pela escola e pela religião. Um exemplo é o homossexualismo do tio mais velho de Nilofer, Memed, que deveria herdar a tal casa de veraneio, mas preferiu viver seu caso de amor com seu professor de alemão. Surpreendente mesmo é que o casal vive em paz, sem discriminação dos parentes.

Tariq Ali é paquistanês e vive há um tempão na Inglaterra. Conhece a visão limitada que os ocidentais têm do mundo árabe e do islamismo. Por isso, leio seus livros como romances históricos, nos quais a ficção é pano de fundo para revelar o que há de real por trás dos preconceitos

Ler Mulher de Pedra vale a pena, mas o livro é meia-boca. O problema é o recurso usado por Tariq Ali para fazer as histórias fluírem. O leitor conhece boa parte dos segredos dos personagens porque quase todos os protagonistas vão contá-los diante de uma grande pedra, que lembra a imagem de uma mulher.

Até dá para imaginar a adolescente, sem ninguém para escutar suas angústias na estrutura patriarcalista, se abrindo com a pedra dentro de uma caverna. Mas quando todos os machões turcos, de todas as idades, descem até a caverna, aí a coisa fica meio boba, inverossímil.

Minha impressão é que Tariq Ali não conseguiu imaginar nada melhor, então botou os homens da família mostrando suas fragilidades para uma mulher, mesmo que de Pedra. Forçado demais.

Sobre o escritor

tariq_ali

100% militante: Tariq Ali

Tariq Ali é jornalista, escritor, historiador, cineasta e ativista político. Nascido em 1943 no Paquistão, atualmente vive na Inglaterra, onde colabora com diversos periódicos e é um dos editores da revista New Left Review. É especialista em política internacional e tem se destacado com análises sobre o Oriente Médio e a América Latina.

Enviar por email - Imprimir

13 Comments

  1. Tô por aqui espiando…

  2. samarone disse:

    Quero registrar que fiz o segundo comentário.
    É um péssimo agouro o negócio começar com um comentário do magro Valadares, mas é a vida.
    Anízio é chato pacas, mas o caótico ficou uma beleza.
    Sama

  3. Anizio Silva disse:

    Registro solenemente que o blog “não ficou” uma beleza; “está ficando”.

    Já já, terminamos…

    E para não fugir do tema – já que o autor quer que comentemos o texto – infelizmente só conheço o lado militante do Tariq Ali (lembro de ter lido alguns artigos dele, o mais recente após a vitória de Obama). Tentarei ler o Livro de Saladino, depois dessa recomendação…

  4. Andre Dib disse:

    Salam-aleikum, Inácio. Seja bem-vindo à blogosfera. Caótico já está linkado no Quadro Mágico. Viva Tariq Ali !

  5. Waldemir disse:

    Parabéns pela nova “empeleitada”!
    Tu só vai comentar novidades literárias? E coisas mais velhinhas?
    Tu gosta de “trilogia suja de havana”?

  6. É sempre bom começar pelas mulheres.

  7. Rafael Moraes disse:

    Inácio, parabéns pela iniciativa do novo Blog.
    Sem dúvidas serei um frequentador.
    Saudações corais.

  8. Para Dib,

    vou tratar de linkar seu Quadro Mágico daqui a pouquinho.

    Para Waldemir,

    “Mulher de Pedra” não é nenhuma novidade literária não, é coisa do início desta década. Não vou me pautar pelos lançamentos do mercado editorial. Para isso já existem os sites das próprias editoras e os cadernos de entretenimento dos jornais, que se pautam pelos releases acompanhados de exemplares de livros. Lembro da “Trilogia Suja de Havana”, mas não li.

  9. Luiz disse:

    Aê,Inácio.
    Já tava na hora esse blog aparecer. Vou acompanhar.
    Abs

  10. É seu Inácio, com tantos conhecimentos literários, artísticos, linguísticos e até supérfluos, se faz mesmo necessário a existência de um espaço como este. Assim você divide com os menos intelectuais, assim como eu, sua vasta capacidade de contar histórias da vida, jornalísticas ou não, mas sempre prazerosas ao doce e agradável exercício da leitura.
    Seguindo o raciocínio do Edmundo Barreiros, reserve também aqui algumas linhas sobre o nosso glorioso Santinha, para que se possa, devagarinho, perpetuar o orgasmo da leitura.
    Parabéns e estarei sempre visitando este recinto.
    Abraços do amigo Urêia.

  11. Walber Sales Souto disse:

    Estou Dando Uma Vista,Tá Muito Legal

  12. Ana Paula disse:

    Grande Inácio França,
    Que bom este espaço de compartilhar o caótico da vida! Principalmente no mundo da leitura, é uma palavra que faz sentido: como dar ordem a um universo de descobertas que é infinito? Acho que só em muitas vidas se pode dar conta de tal empeleitada. Como sou testemunha da sua obsessao pela leitura (fala sério, um garoto que aos 12 anos já tinha lido – e entendido – “O Capital”…), só posso dizer que quem tem o que lamentar é a Universidade, de não ter aceito seu projeto de pesquisa, ou questionamento do saber arrumadinho que andam fazendo por aqui…por outro lado, depois da notícia que tive hoje, que a Justiça mandou fechar um curso de direito dirigido a assentados, sob as justificativas de que o dinheiro do fundo para a educaçao estava sendo mal aproveitado no convenio realizado entre o Incra e o MST, e que abrir vagas de curso superior para assentados contraria o princípio da igualdade, fico me questionando a quem serve mesmo o saber acadêmico produzido neste país…questionando é modo de dizer…
    Enfim, sem tantas delongas, parabéns pelo blog. Como diria uma companheira de luta: do caos nascerá a ordem.
    Beijos,
    Ana Paula

  13. Magna disse:

    Oi, Inácio. Este comentário era para ser no seu primeiro post, “autor e suas intenções”, mas não sei porque cargas d’água não consigo comentar por lá. Assim, vá desculpando a não referência ao texto, apesar da curiosidade despertada em conhecer o Tariq Ali(fiquei mais interessada no “Livro de Saladino”), mas minhas palavras vão por aqui mesmo, está bem? São só pra dar as boas-vindas. Já estava na hora deste blog. Te conheço apenas pelas palavras escritas por Samarone em estuário(desde o jc), pelo blog do santinha e também através de um dia de sol, quando nos juntamos para botar pra correr um som de péssima qualidade na praia de boa viagem. Sou aquela que correu atrás de ti e de Geórgia com o celular na mão, pois Sama queria falar contigo. Isto há uns 4 anos atrás, acho. Lembra? Sei não…é cada uma que fazemos…
    Bom, estarei por aqui espiando.
    Abraço.
    Magna

  14. [...] turco, ou seja, eram cidadãos turcos. Tariq Ali conta um pouco dessa característica no romance A Mulher de Pedra, o primeiro livro que comentei aqui no [...]

Um trackback

  1. [...] turco, ou seja, eram cidadãos turcos. Tariq Ali conta um pouco dessa característica no romance A Mulher de Pedra, o primeiro livro que comentei aqui no [...]

Postar um comentário

Seu email nunca vai ser compartilhado. Campos obrigatórios são marcados com *

*
*