Está decidido. Desde já, o senhor Arsênio Meira Filho será o encarregado de escrever sobre poesia para o Caótico. O convite foi feito na semana passada e, depois de rápidas negociações a respeito dos seus honorários (ele irá receber vencimentos iguais ao do editor do blog), o convite foi aceito.
*****
por Arsênio Meira Júnior (e não Filho, como teima o editor tabacudo)
Sobre Murilo Mendes, o editor do blog e amigo Inácio França tascou, quando batíamos um breve papo (não tomei nota, mas foi mais ou menos assim): “é um poeta esquecido, sem a mesma atenção dos poetas eleitos pelo grande público, pela crítica.”
Nada mais perfeito e a carga de injustiça detectada por Inácio é bem pontual.
João Cabral, certo dia, escreveu sobre Murilo: “Sua poesia sempre me foi mestra, pela plasticidade e novidade da imagem. Sobretudo foi ela quem me ensinou a dar precedência à imagem sobre a mensagem, ao plástico sobre o discursivo. É, em minha vida um poeta definitivo”.
O homem, portanto, é titular absoluto entre os grandes poetas brasileiros do modernismo. João Cabral e Vinicius de Moraes, por exemplo, passaram a via inteira reconhecendo a força do seu lirismo
Murilo Monteiro Mendes nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 1901. Partiu em 1975, em Lisboa. No dia 13 de agosto.
Um poeta fascinante, à primeira vista pode parecer um poeta “difícil”. Mas não é. É que sua liberdade criadora nunca foi capaz de domar o seu feroz lirismo, de onde que se percebe em Murilo uma poesia instigante e perturbadora. Que irrigou em vários caminhos sementes da mais pura poesia. Do poema-piada aos experimentos dos seus grafitos.
A Canção do Exílio, uma sátira sua ao clássico poema de Gonçalves Dias, por exemplo, pertence ao primeiro momento dele como poeta; o modernismo ainda em chamas, o poema piada (onde Oswald mandava tão bem) em voga, eis que o poeta não se esquivou ao movimento modernista, ainda que tenha escrito que não participaria de escola alguma, pois não seria um numeral para premiar a cabeça de bagre de um algum crítico desavisado.
Mas era uma época de resistência para eles, e não é fácil estourar uma revolução. Foi justamente isso o que ele, Drummond, Mário de Andrade, Bandeira, Mennoti Del Picchia, Cassiano Ricardo e o próprio Oswald (dentre outros) fizeram.
Lutar contra costumes já sedimentados (o parnasianismo, a literatura beletrista e etc) é trabalho para doze Hércules.
Drummond, ao escrever o Poema da Pedra em 1928, provocou uma confusão dos diabos. Foi taxado de débil mental e outras coisas. Oswald não perdoava ninguém, e em contrapartida teve papel também decisivo, e no final das contas quase entra para o limbo, mas isso já são outros quinhentos.
Mas Mário de Andrade e Manuel Bandeira – como verdadeiros desbravadores ou pioneiros, deram rumo ao século XX em nossa vida literária.
Murilo, após esse primeiro momento de afirmação transformou-se no poeta definitivo, tão bem descrito por João Cabral, Cabral que foi um dos principais legatários do próprio Murilo e de Carlos Drummond de Andrade.
E lá pelos idos dos anos 30, virou um católico militante. A conversão não o tornou mais otimista, nem lhe suprimiu a angústia típica daqueles que sentem tão a fundo os dissabores da humanidade, que chegam a escrever, como Murilo escreveu, o sintético e doloroso poema A Tentação (infelizmente, atualíssimo):
Diante do crucifixo
Eu paro pálido tremendo:
‘Já que és o verdadeiro filho de Deus
Desprega a humanidade desta cruz’.
Murilo era um poeta religioso, um espírito metafísico, mas nunca dispensava o senso de humor. Um poeta é capaz da proeza de ser dramático sem deixar de achar graça em tudo.
Autor de uma História do Brasil, Murilo foi também um profeta. E um profeta bem-humorado, como está evidente nos versos brincalhões que escreveu a propósito dos fastos da nossa história, tratada quase sempre com excesso de retórica e escassez de documentos e de pesquisa.
Publicada em 1932, numa edição modesta, a História do Brasil tem, por exemplo, um Hino do Deputado, que começa assim: “Chora, meu filho, chora. Ai quem não chora não mama, Quem não mama fica fraco”. E vai por aí afora.
Pode haver coisa mais atual? Como o José Dias do polivalente Machado de Assis, o Murilo tinha o gosto do superlativo. Fico imaginando onde é que o poeta iria hoje buscar superlativos superlativíssimos para falar do Brasil deste ano da graça de 2010.
De lá para cá, mais do que antiquíssima, a corrupção se tornou atualíssima. Com “p” ou sem “p”, antiquíssima, a corrupção sempre existiu. Lá está no Gênesis: assim que os homens começaram a famosa, multiplicação, o Senhor logo viu que a maldade deles era grande. Ferido de íntima dor, arrependeu-se de ter criado o homem.
E veio o dilúvio.
Pois ainda assim a bandalheira continuou de tal forma que foi preciso mandar uma chuva de enxofre e de fogo para destruir Sodoma e Gomorra. Quem acompanha hoje a vida pública brasileira deve achar uma injustiça o que o Todo Poderoso fez com Sodoma e Gomorra. Nem o vocabulário do Vieira e do Ruy Barbosa, nem os superlativos do José Dias e do Murilo Mendes, nada é capaz de dar uma ideia do que se lê e se ouve por aí.
Mas eu falava sobre o poeta. Não esqueçamos que Murilo Mendes, por exemplo, foi um dos poetas mais latejantes, honestos e inventivos do nosso modernismo. Ele levava a ferro e fogo o lema de Pound: é preciso inovar sempre.
Acho até que, aqui e ali, o poeta exagerou um pouco, mas o leitor poderá ler em sua volumosa obra poética (Murilo Mendes: Poesia Completa e Prosa, da Nova Aguilar, 1ª edição 1994) que ele travou uma luta íntima para transformar-se. Inovar-se sem ferir a própria essência, não é uma tarefa tão simples como atravessar a rua para comprar um chicabon. Mas ele conseguiu.
Tenho a opinião que Murilo não caiu na esparrela do abstracionismo e da infertilidade de muitos escritores, que correm mundo afora. A destreza verbal de Murilo é acachapante. Por muitos anos, li Murilo em Pé, deitado, no táxi, nas pausas das lides forenses.
A gente ama Murilo Mendes, como ama T.S Eliot.
Primeiro pela música, até mesmo antes que se entenda o que ele quer dizer.
É uma devoção ou paixão que dura para sempre, porque Murilo, quando relido, é sempre novo, de uma fertilidade verbal e espiritual inesgotáveis.
Nos trechos arretados do Caótico, não deixem de ler os versos da mais legítima cepa muriliana.
8 Comentários
Obviamente, os contratos aqui tem que ser cumpridos a ferro e fogo. Assinei por tempo indeterminado e só a vontade do Editor poderá rescindir o pacto.
E o Meira Filho ou Meira Júnior dá no mesmo.
Eu preferiria assinar com o Filho no final, afinal Carlos Pena e Manuel Bandeira não eram Júniors. Eram Carlos Pena Filho e Manual Bandeira Filho.
Mas não adianta, pois pertenço à categoria dos juniores, logo tenho que ficar com o Jr.
Escrevo aqui de Natal, a terra do Editor do blog, Inácio França. Terra de Câmara Cascudo, e de inúmeras sereias.
Amém.
Do Caótico tenho me nutrido diariamente. Com artigos dos mais variados temas, onde a Literatura e a boa escrita imperam.
Sobre o texto do Arsenio, oportuníssima a lembrança de um grande Poeta, que talvez não frequente o mesmo topo de Drummond por ter se ausentado do Brasil por muito tempo; mas que está, como anotou o autor do artigo, entre os 10 mais da poesia brasileira dos últimos cem anos.
Parabéns.
Arsênio Meira Descendente
Já que você virou comentarista oficial, né? (Frase para ser lida com um tom de implicância), escreve sobre Mario Quintana (Frase para ser lida como uma criança pedindo chocolate), é que eu estou descobrindo ele agora e estou adorando (agora mais adulto). Também se não souber se vira! (Para ser lido como um mecânico falando para o seu ajudante jovem).
Desde já agradeço (…)
Lea, Ora bolas!
Ehehehe. Ok , Lea.
Ou melhor : Lea Três Versões (ciumenta, meiga e um pouco lambuzada de graxa).
Vou escrever, e você terá que ser a primeira a descer o sarrafo ou ainda que, resmungando, escrever que gostou… mais ou menos, porém dando sua versão sobre a Poesia de Quintana.
Você manda, ora bolas!
Muito bom, Arsenio. Principalmente o poema destacado nos trechos arretados do Caótico.
É o mais representativo da obra de Murilo Mendes, o poeta que inaugurou o estado da bagunça transcedente.
Gostei da abordagem sobre Murilo Mendes, um poeta pouco festejado pelo chamado grande público, e da digressão que se deu no texto, quando o assunto pairou sobre a corrupção secular que mata diariamente o Brasil.
Mas também gostei do pedido da leitora Lea.
Quintana talvez seja o poeta que mais conheço e gosto.
Mas veja só, fazia tempo que não vinha aqui: eu silenciosa, quase na ponta dos pés para não atrapalhar o dizer de Inácio com minhas palavras sem propriedade. E me deparo com Arsenio, não um apenas, mas o filho, o júnior, o neto e os que já falaram aqui de outros grandes poetas. Por isso, saio hoje do silêncio para dizer a Inácio que foi muito bem escolhido o “comentarista oficial”.
Muito legal, Arsenio. Legal o texto, os trechos escolhidos.
Vamos em frente conhecendo mais ou apenas nos deleitando com a poesia, porque poesia foi feita para o deleite. Não, eu não sei pra que foi feita a poesia. Poesia talvez seja algo que não precisa de “pra quês”. Então, que seja.
Abraços.
Magna
Valeu Magna, faltava você.
E sua definição sobre a necessidade da poesia faria Murilo Mendes levantar os braços para dar-lhe um abraço.
Como faço agora, virtualmente.