Demorou, mas chegou. A jornalista pernambucana radicada em São Paulo Mariana Lacerda enviou seu texto sobre o livro Não contem com o fim do livro, enviado pelo pessoal da editora Record.
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por Mariana Lacerda
Olinda é uma cidade estranha mesmo. Sempre pensei no que faziam os monges, monjas e frades dos mosteiros e conventos durante os dias de loucura geral do carnaval. Sempre pensei nas paisagens para o mar que os mosteiros e igrejas encerram para nós, mortais – e que se abrem para eles, os santos. Sempre pensei nessa coisa doida do patrimônio histórico inacessível, misteriosos castelos onde vivem pessoas em cápsulas de tempo. E por ter sempre pensando nisso, iniciei uma pesquisa sobre os paradoxos da cidade alta envolvendo seus prédios religiosos, eles sim o começo de tudo dali, ocupando as sete colinas da cidade, olhando uns para os outros, murmurando baixinho à noite sobre suas mazelas e cansaços.
Me dei conta então das bibliotecas trancadas em armários de madeira e portas de vidro, em salas de pé-direito alto, janelas abertas ao vento e ao mar. Devem ter algumas dessas em Olinda, mas só os Franciscanos me deixaram ter acesso à paisagem e às palavras que guardam de letras de alguns séculos atrás (incluindo, além dos livros, anotações, manuscritos e etc).
Imagino ainda os livros empilhados dos monges beneditinos. Livros fechados a sete chaves e cheios de segredos (um dia, existiu o papel do Monge Cronista, responsável em narrar o cotidiano de um mosteiro). Queira encontrar uma Mariana Alcoforado dos homens, a Mariana que no século 17 escrevia loucamente em algum convento em Portugal para sua paixão, um oficial do exercito francês que tinha servido em terras lusas e esbarrado nela, no claustro. Seus textos atravessaram os séculos e agora estão numa ediçãozinha de bolso vendida até em bancas de revistas: as Cartas Portuguesas, um livro pequenininho e lindo. Soube então que até a restauradora de papel, gente de qualificação muito rara, e que está trabalhando no Mosteiro de São Bento de Olinda, fez voto de segredo eterno sobre o que por ventura lhe caísse de extraordinário aos olhos.
Mas passar uma tarde na biblioteca dos Franciscanos (mais serenos em tudo em sua relação com o mundo) e imaginar a restauradora de papel trabalhando na biblioteca beneditina me fez pensar no livro que eu carregava na mochila. Trata-se do Não contem com o fim do livro, de Umberto Eco e Jean-Claude Carriàre, e que veio parar em minhas mãos por conta deste Caótico.
É assim: um jornalista chamado Jean-Philippe de Tonnac colocou para conversar os dois autores (geniais) que assinam o livro. Tonnac mediou a conversa e editou o livro, que parte da seguinte premissa: um futurólogo anunciou na última reunião da cúpula de Davos, em 2008, que, como a água, o livro iria se acabar (!). Será?
Que conversa antiga! Mas suficiente o bastante para que Eco e Carrière pudessem discorrer sobre o que mais amam: bibliotecas, coleções públicas, seus livros amados, Borges, labirintos e jardins, edições raras e novas, e-books, a história da humanidade em prateleiras e acervos raros (que, digitalizados, ganham a Internet). Não contem com o fim do livro é como ver uma pessoa discorrer sobre seu objeto de paixão (os cientistas naturais têm isso com matas Atlânticas e Amazônicas), e é uma delícia para quem é ama os livros: cuja invenção, bem disseram Eco e Carrière, só pode ser comparada à roda. Ou seja, nada, mas absolutamente nada, substitui nem vai substituir esse objeto, essa coisa valiosa que se quer ter e guardar, segredinhos trancados nos mosteiros de Olinda.
Pensei que, e me perdoem (por favor), que eles sim, os monges e frades, talvez sumam. Apenas cinco zelosos franciscanos vivem entre as muitas paredes do Convento e Igrejas de São Francisco, de Olinda. No Mosteiro de São Bento, 13 monges dividem o claustro imenso. Nem todos têm direito a acessar à biblioteca (quem dera eu!) . No alto da Sé, há uma igrejinha recuada entre a da Misericórdia e a de São Salvador do Mundo (dita Igreja da Sé). Lá, vivem sete irmãs Dorotéias bem curvadas e encolhidinhas e que só abrem a igreja uma vez na semana, aos domingos, às 6h30. Nem pense na biblioteca.
O tempo vai passar, as pessoas se vão, têm ido. O mar de Olinda pode avançar e as montanhas tombarem (sim, isso já acontece e nenhum futurólogo premeditou). Mas os livros vão resistir, vão ser encontrados, folheados, restaurados, cuidados. Não vão morrer. Nem os livros antigos nem os novos. Marianas Alcoforados serão desvendadas, tomara, para encher bancas de revistas, e-books e Ipads e nos contar das paredes, das paisagens e dos livros que poucos, alguns, os que se deram a Deus, puderam ver.
9 Comentários
Mariana,
As reflexões sobre os monges e frades são ótimas, achei uma delícia.
O livro, sinceramente, me pareceu um pouco chover no molhado.
Samarone
Mariana, idem sobre os monges e os frades. Concordo nesse ponto com Sama. E o tema me apetece. Com essa resenha bacana, vou em busca do exemplar. Valeu.
Estive em Olinda duas vezes. Inesquecível.
O livro resenhado é muito bom. Antecipei-me e li. E o texto da Mariana é na medida,
Abraços
Mariana acertou a mão ao “achar” os mosteiros de Olinda como fio da meada para falar do livro.
Inácio, essa analogia ou gancho que Mariana aproveitou abordando os mistérios seculares dos Mosteiros de Olinda, deu realmente uma luz singular ao texto.
De Gravatá, mando um abraço para todos do blog .
Um bom livro, merece um texto à altura, que ajude o leitor nos caminhos da escolha.
Parabéns, Mariana.
Sama, o tema do livro é meio chover no molhado mesmo. Mas nao tem nada nao, é uma delicia mesmo assim ver os caras falando do assunto, conversa de comadre, sabe? beijos, queridos. m.
É tão raro ver alguém pensando sobre Olinda.
Muito lindo.
É tão raro ver Pio dialogar com Mariana. Salvem a internet também, que faz uma amiga me lembrar do livro que eu não fotografei.