Gosto de gente que gosta de gente. E gosto de quem considera mais importante o jeito de contar uma história do que o seu desfecho. Raymond Chandler atende aos dois critérios, porém o que faz dele um grande escritor é a sua intimidade com a fala das ruas e das violentas periferias de Los Angeles ou São Francisco.
Chandler traduziu e transformou em literatura o cotidiano das multidões de pobres e remediados que sobreviviam das migalhas do petróleo ou do que havia sobrado da corrida do ouro. O romance policial foi sua ferramenta para construir essa crônica.
Não sei se essa foi uma opção da Chandler. Creio ter sido algo inevitável, afinal, na Califórnia da primeira metade do século XX, a quantidade de armas nas mãos de adultos, mulheres e crianças faria a 5ª Etapa de Rio Doce parecer um lugar bucólico. Nos cinco contos incluídos na coletânea Não há crime nas montanhas, pistolas automáticas e revólveres Colt 45 eram tão comuns quando homens de chapéus e mulheres bonitas dispostas a enriquecer.
A violência está presente em todos esses contos, mas Chandler está longe de ser um cronista da porrada e do sangue. Em sua prosa, há a certeza de que a humanidade tem jeito e que, mesmo em ambientes onde a bala corre solta, o que tem de prevalecer é a esperança de que o ser humano pode ser melhor.
Uma das regras básicas desse gênero é a necessidade do final surpreendente e as histórias de Chandler também têm desfecho imprevisíveis, mas nem sempre o culpado paga por seus crimes. Às vezes, o criminoso tem a oportunidade de reconstruir sua vida. Em outros contos, nem sempre o assassino é um monstro sem coração e, por isso, são o arrependimento e a culpa que determinam a surpresa final.
Ao contrário dos seus conterrâneos do século XXI, talvez Chandler não acreditasse na punição como instrumento útil para construir a paz social.
O problema dos contos é que, na maioria deles, tenho a sensação de que o escritor espremeu uma história maior em poucas páginas para publicá-los nas revistas pulp dos anos 30 e 40. Foi assim que ele ganhou a vida na maturidade, depois de fracassar como executivo na indústria de petróleo.
Muitas dessas histórias, como O rei de amarelo, caminham num ritmo excelente em suas primeiras páginas, mas tem um desfecho rápido demais. Pelo que já li dele, Chandler se dava melhor nos romances, nas histórias com maior fôlego. Dá para perceber seus prazer e seu talento em desenvolver as dramas, dar vida e sentimento aos personagens. Foi assim com A dama do lago e A simples arte de matar.
Sobre o escritor

Raymond Chandler era, além de um baita escritor, um edipiano de carteirinha. Só casou depois que a mãe morreu. Mesmo assim, com uma mulher bem mais velha do que ele. Para compensar a falta de sexo no casamento, construiu uma sólida fama de tarado nas empresas onde trabalhou como executivo ou nos estúdios de cinema para os quais escreveu roteiros de filmes de sucesso.
15 Comentários
Valeu, Inácio. No tocante aos contos, concordo contigo: não eram a praia de Chandler. O romance, sim.
O desfecho prematuro irrita porque temos certeza de que a história “renderia” bem mais se estivesse alocada no pórtico de outro gênero literário.
Por isso, tenho minhas reservas em relação ao conto.
Mas Philip Marlowe foi um herói, criado em pleno ápice do Existencialismo.
Escritores condecorados como André Gide, Camus e Sartre devoravam esses thrillers noirs justamente porque não foram capazes de criar um mísero personagem como Marlowe.
Gide, Camus e Sartre são mais lembrados por ensaios, críticas, entrevistas e etc, do que propriamente pelos seus romances (ainda dou um desconto para “O Estrangeiro”, de Camus) mas de resto, os romances que li destes escritores laureados foram um tiro no saquitel.
Chandler, Simenon e Hammet escreviam laudas, laudas e mais laudas, como se estivessem aliviados, ou melhor, como se estivessem no bar mais próximo, numa felicidade aparente de quem jorra num mictório.
Eram fracos em alguns recursos, não tiveram tempo para estudar filosofia, mas tudo isso é bobagem.
Como foi bobagem a acusação de Chandler contra Agatha Christie. O norte-americano acusou a distinta Senhora Inglesa de entender tanto de venenos quanto ele de receitas culinárias.
Picuinhas de boteco ou um porre mal curado, em última análise, pois a velha Agatha era tão fértil para inventar as suas tramas quanto Chandler, e essa tese de que é impossível escrever romances policiais sem conhecimento profundo sobre os “ossos do ofício” usados na prática do crime é furada.
Simenon, com seu inesquecível Maigret, entendia o “fator humano”, quase sempre presente nos desfechos dos seus romances , e Chandler idem.
Ah, sim, Agatha também fez o que pôde na seara policial…, dos romances, digo.
NÃO CONTEM COM O FIO DO LIVRO será o livro a ser comentado por um leitor do Caótico. Entre os quatro leitores “caóticos” que votaram neste título na Tabelinha Caótico/Record, Doralice Rodrigues abriu mão de participar do sorteio , pois já comprou o livro e não está com tempo de ler, quanto mais de escrever.
Três nomes participaram do sorteio, auditado e executado pelo filho mais velho, Pedro: Antônio Lino Júnior, João Roberto Gomes e Mariana Lacerda.
Ganhou Mariana Lacerda, que vai receber seu exemplar em casa e vai escrever um texto crítico para o Caótico.
Parabéns para Mariana.
Vou esperar a resenha.
Em homenagem ao concurso, vou comprar esse exemplar de todo jeito.
Foi uma boa iniciativa da Editora. E do Blog também.
Valeu!
Ps – Sobre o post: Chandler é imperdível em seus romances. Não gosto dos contos dele, e os li às pencas. Inácio detectou, e Arsenio idem. A imperfeição que deixa o leitor meio insatisfeito reside exatamente no fim das estórias.
Acho que escrevia os contos mais para faturar algum por fora. Afinal, Chandler enxugava bem uma garrafa e edipiano, fez farra até o fígado pedir a conta.
Ps 2 – Inácio, não resisto e escrevo: ontem, um dia triste para nós.
Mariana, boa leitura e parabéns. Aguardaremos suas impressões.
Bacana demais esse concurso.
Ps – Mas – além da resenha a ser escrita por Mariana – o Editor do Blog há de escrever, um dia, uma resenhazinha sobre “O Vingador” e sobre “A Maldição e a Glória”, do grande Marcos Rey… ehehehe
Eles merecem.
Já eu acho os contos uma boa opção. Chandler não deve nada nesse quesito, e como Inácio escreveu “Chandler está longe de ser um cronista da porrada e do sangue. Em sua prosa, há a certeza de que a humanidade tem jeito e que, mesmo em ambientes onde a bala corre solta, o que tem de prevalecer é a esperança de que o ser humano pode ser melhor”. É isso.
França, meus prediletoe estão aqui, na mini-estante que fica em cima da mesa:
“Para sempre ou nunca mais”;
“O longo adeus” (fantástico);
“Encrenca é meu negócio”.
Estou na metade de “Não contem com o fim do livro”, mas já tem gente encarregada. Aguardo então o meu Pushkin.
Vamos que vamos.
samarone
Meus “prediletos”, pois.
Mas o autor também escreveu “Não contem com o fio do livro”, estou desculpado.
sama
Na minhas estantes, Chandler é um dos favoritos. O livro abordado é indicação das boas. Puro Noir, e como Inácio escreveu: não vemos somente um mundo sombrio, de crimes, mortes e tentativas de homicídio. Chandler não se curva, e nos deixar Existe uma nesga de luz.
Corrigindo: ” e nos deixa enxergar uma nesga de luz”.
Sinceramente….
Confesso que depois do colunista Arsênio Meira Júnior entra no blog fiquei acanhada.
Preciso treinar muito pra comentar nesse nível.
Sei lá, de repente estou enciumada. hehehe
Lea
Mas Lea, deixe disso!
Tudo, mas tudo mesmo é um aprendizado constante.
A gente não pertence à USP!
(Sei lá, depois alguém daqui faz parte da USP ou fez… é brincadeira, viu?)
Abraços
Diz aí Lea: Chandler passa ou não, em sua opinião.
O mais importante é a participação das pessoas. E lógico, a generosidade do Editor, e sua boa condução deste blog, cuja essência é única: incentiva e compartilhar o prazer da leitura, o amor pelos livros.
Ps – No breve artigo que fiz sobre Vinicius, por exemplo, antes de publicá-lo, submeti o texto ao crivo do Ináci e Samarone.
Samarone deu umas dicas legais e acatei todas elas. Ou em bom português: cortei algumas partes – como um Jack tranquilo. Ficou bem melhor com as sugestões que ele deu.
não li
não quero ler
e tenho raiva de quem leu
brincadeirinha…
Depois de Caim, não quero ler tristeza.
Preciso de um Mariopratazinho ou Xiquinhosá, pra relaxar.
Lea
kkkk
Mas Chandler não é triste…
Embora Prata seja mesmo relaxante.
Tá bom, falarei a verdade… é que não gostei da cara de Chandler, tenho dessas coisas. Aliás, acho que já escrevi aqui no blog sobre rostos e obras e as suas (quer dizer minhas) associações do tipo: Neruda não tem cara de Pablo Neruda, ele deveria trocar de cara com Mainardi, por exemplo; e Drumond, que já nasceu velhinho, só poderia ter aquela carinha comprida e o corpinho magrinho.
Lea
PS: eu adoro ponto e vírgula; acho lindo; de vez em quando eu uso; mesmo sem saber;
Eita Lea, kkkkk
O velho Neruda com o rosto de Mainardi. (O Poeta deve estar aos berros lá de cima, kkkkkk)
E Drummond… Interessante a sua ideia.
Realmente, não me escapa outra cara pra ele.
Lembro de João Cabral.
Ele tem o rosto de.. João Cabral mesmo. Concreto e estático, e o olhar onde o cão sem plumas flue como um rio, para sempre.
Mas pense em nosso Nelson Rodrigues (uma cara meio buldogue). Ou Dostoiévski (com aquela fuça de Padre da Igreja Católica Ortodoxa Russa).
São imperdíveis.
Abraços.