De dois em dois meses me mandam do sul a revista Norte. Quem incluiu meu nome e endereço na mala direta da publicação foi o editor Tito Montenegro, um ex-repórter da Época que se mandou de volta para seu Rio Grande do Sul e montou uma editora, a Arquipélago. Hoje, Tito vive de lançar livros, um negócio que deve ser bem mais interessante que o moribundo jornalismo.
A revista funciona como instrumento para divulgar os livros da pequena Arquipélago, mas revela também a generosidade do seu editor. Mesmo publicada por uma editora, abriga resenhas, dicas de leituras e trechos dos livros da concorrência. Com uma proposta mais ampla do que apenas alavancar as vendas dos livros da editor, a Norte trata de cultura a partir do ponto de vista de quem mora no sul da América do Sul, mas procura encontrar “um norte” a partir do olhar da diversidade e do estímulo ao diálogo. Sintetizando bastante, foi esse o tom do editorial do seu primeiro número.
A partir desse ponto de vista “sulista”, separei o principal artigo da edição número 6, do final do ano passado. O texto, assinado pelo jornalista e professor de Comunicação Vítor Necchi, demonstra como a elite local construiu o mito da superioridade, da valentia e da capacidade do gaúcho para justificar seu próprio domínio.
Pelo jeito, Necchi possui cacife intelectual, porém ainda mais importante é sua coragem de dizer o que diz nesse artigo. A maioria dos seus conterrâneos deve ficar de cabelos em pé ao ler que é preciso ter “lucidez” para compreender o ufanismo, a presunção e a autoconfiança que do gaúcho. Ainda bem que é um deles que está dizendo isso.
Os argumentos do jornalista são expressos com clareza, como, por exemplo, ao defender que a defesa das famosas tradições gaúchas indica o racismo e o preconceito do pessoal que só consideram válidos ou autênticos os elementos culturais que se enquadram no padrão “gauchesco”. A contribuição dos escravos negros e dos índios guaranis valem nada ou pouquíssima coisa na visão branca e européia dos tradicionalistas .
Necchi é um sujeito que escreve de modo elegante, mas, com palavras bem mais educadas, ele afirma que aqueles sujeitos vestidos de bombachas nas festas dos centros de tradição gaúchas são uns babacas que se metem a definir o que é legítimo ou ilegítimo na cultura local.
A história da bombacha, aliás, surpreende gente que, como eu, do Rio Grande do Sul só conhecem o Inter, o Grêmio, chocolate de Gramado e as piadas de viado. Mesmo considerada pelos tradicionalistas como a mais popular dos trajes típicos brasileiros, na verdade aquelas calças folgadonas só vieram parar nos Pampas na segunda metade do século XIX e, assim mesmo, porque a Guerra da Criméia acabou antes do previsto.
Explica Necchi: as fábricas inglesas produziram milhares de uniformes para vestir os soldados do exército turco, mas o conflito contra os russos acabou em pouco tempo e o encalhe dos “pantalones” adotados pelo exército do Sultão ficaram encalhados. Os ingleses desovaram a mercadoria inútil no Rio Grande do Sul e Uruguai. Acho engraçado o sujeito sentir um orgulho danado porque usa a sulanca da Turquia.
2 Comentários
Inácio!
isso não é um comentário sobre o post. Acho que podia haver, no teu blog, um espaço só para que as pessoas sugiram livros e autores.
Aproveito para te sugerir, se é que ainda não conheces, Milton Hatoum, que considero excelente.
Beijo,
Tatiana
Tati,
ideia arretada! Só vai demorar umas semanas para botar em prática porque Anízio, o webdesigner tá sobrecarregado com outros serviços.
Quem viver, verá!