O Anjo Pornográfico

nelson_anjoO autor que mais li foi Nélson Rodrigues. Tenho um orgulho danado de conhecer praticamente toda a obra dele, tanto o que foi reeditado pela Companhia das Letras nos anos 90, em livros de capas coloridas, quanto o teatro completo da Nova Aguilar em papel-bíblia, coisa fina.

A coleção da Cia. das Letras foi puxada pelo sucesso comercial de O Anjo Pornográfico, a biografia escrita por Ruy Castro, que ressuscitou Nélson e era uma leitura quase obrigatória para os metidos a sabichões dos idos de 1992. Quem não leu, dizia que tinha lido.

Eu só li a biografia ano passado, nos dias em que fiquei de molho depois da vasectomia que pôs fim a uma bem sucedida carreira de reprodutor. O que me impulsionou a me arremessar de cabeça na obra de Nélson foi o primeiro volume da tal coleção, o romance O Casamento, um livro que me deixou de queixo caído. Não imaginava ser possível tanta crueza, tanta força e tanta intensidade em páginas impressas.

Quem me apresentou a esse livro foi Édson, um dos subeditores na editoria de Polícia do finado Diário Popular. Carioca criado no subúrbio de Marechal Hermes, louco pelas coisas que Nélson escrevia desde os tempos em que o conheceu em alguma redação do Rio, ele me deu o primeiro volume da coleção de reedições. Lembro que estávamos perto do fechamento do jornal, já de noite, quando ele me empurrou o livro de capa verde-clara com uma frase bem meiga do tipo: “Lê essa porra! Esse filho-da-puta é do caralho”. Édson é assim, um doce.

Nessa época, era O Anjo… que estava nas páginas dos cadernos de “cultura” dos jornalões, era Ruy Castro que dava entrevista no Fantástico, mas depois de ler O Casamento decidi que só iria abrir a biografia depois de ler tudo que caísse em minhas mãos com a assinatura de Nélson Rodrigues. Não sei exatamente a razão disso, acho que foi para fazer de conta que não me deixava enganar por modismos. Frescura. Mais uma.

De todo jeito, depois de ler o primeiro livro da coleção, devorei com ansiedade tudo que foi lançado nos dois ou três anos seguintes, Engraçadinha, Confissões, A Vida como ela é, À Sombra das Chuteiras Imortais…. Sempre que uma das edições chegava à livraria da editora Brasiliense na rua Barão de Itapetininga, no centrão de São Paulo, um vendedor baixinho e gente fina chamado Rubens me ligava. O telefonema era um chamado para que eu fugisse da redação do Diário e voltasse rapidinho, com o livro novo na sacola.

Devo ter enchido a paciência da minha mulher, pois lia em voz alta trechos que tinham acabado de me encantar, repetia frases marcantes, essas coisas de tiete.

Se tivesse lido a biografia antes, teria sido pior.

Ruy Castro come a bola contando a história da vida de Nélson. Além de escrever de forma a não deixar o leitor parar nem para respirar, ele contextualiza todos os momentos da vida do biografado, detalhando o ambiente familiar e urbano no qual ele cresceu, reconstruindo a força das relações entre os irmãos, entre pai e filhos, sem deixar escapar nadada conjuntura da primeira metade do século XX e de como os Rodrigues circulavam na sociedade ou entre as forças políticas

A leitura de O Anjo Pornográfico me ajudou a entender um pouco melhor meu próprio interesse pela literatura de Nélson, a quem chamo pelo primeiro nome, por conta da intimidade gerada depois de tantas leituras. Mais do que o desnudamento das entranhas da classe média, o que me atrai mesmo em sua obra é a intensidade com que ele desnudou suas próprias taras e fragilidades.

Mais do que as traições e sacanagens alheias, ele transforma em linguagem as suas traições, reais ou imaginárias, as taras que poucos têm coragem de compartilhar, só gente corajosa e verdadeira como ele. E quando fala de si mesmo, consegue atingir uma sociedade inteira, consegue tirar o lençol de símbolos e discursos que colhe igrejas, famílias, clubes recreativos, teatro, televisão. Pelo menos, foi isso que fiquei pensando depois de ler o livro de Castro (com ele não tenho intimidade, aí uso o sobrenome).

O fato de Nélson ser católico, conservador e reacionário assumido o torna ainda mais interessante e complexo. Afinal, seria meio redundante o sujeito revelar suas taras (e, em conseqüência, a dos outros) o tempo todo e ser também esquerdista, libertário. Creio que o conservadorismo era seu porto seguro, seu vínculo com o mundo em que foi criado.

Além do mais, era um reacionário honesto, culto e inteligente, com um amplo arsenal de ironias e sarcasmos. Os reacionários do século XXI, moralistas, hipócritas e com escassa leitura, não aprenderam coisa nenhuma com Nélson Rodrigues.

Para mim, Nélson Rodrigues é um dos autores mais importantes da língua portuguesa, pelo menos do português falado nos grandes centros urbanos brasileiros, traduzidos por ele com paixão e sem pudor. O Anjo… é importante porque tenta traduzir o tradutor.

Sobre o escritor: Ruy Castro e as vidas alheias

ruy_castro

Ruy Castro foi repórter de todos os grandes jornais cariocas. Sem medo do imprevisível e das surpresas que as ruas oferecem, dá para perceber a alma de bom repórter nas biografias que escreve (Nélson Rodrigues, Garrincha e Carmem Miranda,  gente que ajudou a definir o País). Ele se define como um sujeito que não tempo para escrever romances porque está muito ocupado para prestar atenção na vida alheia.

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6 Comentários

  1. Samarone
    Publicado 15 de outubro de 2009 em 15:23 | Permalink

    Do carai. Me orgulho de ter assistido umas 10 peças do Nelson, em montagens diferentes, no Recife, Rio e São Paulo. Vestido de Noiva é uma das grandes peças da dramaturgia brasileira.
    Saludos,
    sama

  2. Publicado 16 de outubro de 2009 em 18:20 | Permalink

    Cara,
    Conheço pouco a obra. Mas quero e acho que preciso resolver isso.
    abraço

  3. Publicado 20 de outubro de 2009 em 14:01 | Permalink

    Sou sabichão não…mas li….faz tempo;;;

  4. Publicado 20 de outubro de 2009 em 18:33 | Permalink

    Vixe! Além de tricolor, também gosta do gênio. Sou rodriguiana até o osso. Ninguém neste país retrata melhor a hipocrisia da classe média, ninguém! Morei quase trinta anos num prédio onde antes era a casa que Nelson nasceu. Rua João Ramos, 285, nas Graças. João foi feito lá. Vai ver que é porisso que o danadinho é tão irreverente. Vai saber!
    Beijo
    Naire

  5. Paulinha
    Publicado 21 de outubro de 2009 em 12:43 | Permalink

    Oi Inácio,

    tenho sempre entrado aqui para ler seus posts. Como estás?? Saudades, Olhe, estou indo pro Brasil em dezembro para um mês de férias. Vamos se ver, né? Li Anjo Pornográfico há uns 5 anos, acho, e foi um dos livros mais maravilhosos que experimentei. Brilhante.

    Bjs
    Paulinha

  6. Arsenio Meira Junior
    Publicado 25 de junho de 2010 em 21:57 | Permalink

    Inácio, em 1995 assinei um artigo sobre Nelson no JC. Tinha pouco mais que vinte anos. Graças a Ruy Castro puder conhecer Nelson Rodrigues, e essa dívida é eterna.

    Li tudo de Neslon, menos as peças.
    Vi algumas.

    E Nelson, continuarei relendo até o fim dos tempos.
    Aliás, foi fundamental conhecer o próprio Ruy.
    Gostaria de escrever como ele.

    Discordo de algumas posições radicais dele – referentes à música – pois acho possível a convivência dos Beatles com João Gilberto.

    Mas li todos os livros do Ruy, incluindo-se aí suas duas tentativas de romance. (BILAC VÊ ESTRELAS – (BOM) – e Era no tempo do rei (mais ou menos).

    Após ler seu post, que gostaria de assinar, declaro solenemente que tenho orgulho de ser seu leitor.
    Essa artigo aqui, que cascavilhei, pois estou conhecendo o blog aos poucos, foi da porra. Definitivo.

    Lá em Cima, Nelson – vaidoso e cabotino como era – aplaudiu e numa baforada interminável, agradeceu a você.
    Não sou espírita, mas penso que deve ter sido assim.

Um Trackback

  1. [...] cerveja em Marechal Hermes, subúrbio em que meu subeditor Édson, o sujeito que me apresentou ao universo de Nélson Rodrigues, tinha um apartamento. Vivi um inesquecível reveillon de 1993 em Marechal. Também andei muito [...]

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