O estratagema da lista largada ao relento

C 062Quem acompanha esse blog desde o início, lembra do acordo que eu e minha consciência fizemos de não voltar a comprar livros novos enquanto não aqueles que tenho nas estantes de casa não fossem lidos (foi isso que contei no post Os sebos e a fraqueza de caráter do blogueiro).

Essa decisão não significa que não quero novos livros. Pelo contrário, continuo a desejá-los avidamente, compulsivamente, irracionalmente. Por essa razão, me danei a encontrar subterfúgios para me driblar, ou melhor, para conseguir os livros que pretendo ter sempre perto de mim sem necessariamente desrespeitar o compromisso assumido comigo mesmo.

Deu pra entender? Se deu, continuemos. Além de encontrar uma brecha no auto-acordo que me permitiu comprar livros usados em sebos (a restrição trata apenas de livros novos), dia desses o Samarone desembolsou R$ 33,00 para comprar A Divina Comédia na Livraria Cultura, depois fui até o caixa eletrônico do Paço Alfândega, tirei o dinheiro e entreguei para ele. Fiquei com o livro, mas quem comprou foi meu amigo cabeludo, numa manobra absolutamente legal.

O problema é que o 4 de outubro estava se avizinhando e eu precisava dar um jeito de não ganhar perfumes de presente de aniversário, afinal não dava para perder a oportunidade de ganhar livros novos.A opção de recomendar à minha Geórgia que revelasse aos amigos e parentes que eu queria livros foi logo descartada. Aposto que ela iria considerar uma indelicadeza da minha parte – e deve ser mesmo -, além disso, corria o risco de algum desavisado comprar um livro de Paulo Coelho ou a última cafajestada daquele diretor da Globo que tem nome árabe (toc toc toc na madeira).

Como minha viagem para o Tocantins estava marcada para o último final de semana de setembro, meu prazo era ainda menor, porém o que parecia ser um problema acabou se tornando a solução. Com frieza de calculista e presença de espírito de artilheiro matador, imprimi um arquivo que mantenho sempre atualizado aqui no meu lépi-tópi, com uma lista dos livros desejados. Sim, pelo menos em matéria de livro sou um cara todo organizado.

Antes de viajar, escolhi um local do quarto para “esquecer” a lista impressa, na esperança dela ser encontrada pela pessoa certa. Deu certo. De minha mulher (que já escreveu no Caótico sobre Reich um texto reproduzido no site do Libertas),  ganhei um exemplar de uma edição novinha de A Invenção do Nordeste, do professor Durval Muniz, obra que eu julgava esgotada. Da minha sogra, a tricolor Ana Rita, ganhei uma belezura de Mário Benedetti: Primavera num Espelho Partido.

Infelizmente, a lista não foi xerocada nem passou de mão em mão. Mesmo assim, faturei outros dois livros que prometem. Do meu cunhado, uma reportagem sobre os bastidores do escândalo Watergate, A Vida do Garganta Profunda. Do mestre-cuca Breno Bueno (ele não tolera o uso do termo chef, diz que é invenção para agradar a classe média), ganhei um livro de nome ao mesmo tempo curioso e sugestivo, A Vida Sexual dos Alimentos, minha próxima leitura.

Lá em Tocantins, ganhei da minha filha Júlia uma edição de bolso de A Dama do Cachorrinho e outras histórias, de Tchecov, e uma coletânea de crônicas de João do Rio. Aliás, só ganhei esses dois porque salvei uma bola em cima da linha aos 42 do segundo tempo, pois Pedro, o primogênito, havia contado para a mãe que eu havia decidido que não queria mais livros, numa versão distorcida da minha jura.

Ela achou esquisito, deve ter se perguntado se um sujeito poderia mudar tanto com menos de cinco anos de separação e, se sentindo sem opções para comprar algo que minha menininha pudesse me presentear, perguntou se a história era verdadeira. Fiquei estarrecido coma repercussão dos fatos e neguei, é lógico. O resultado é que a ex-, discretamente, pôs uma cédula na mão de Juju, que me chamou para ir até uma livraria e pediu que eu a ajudasse a escolher meu presente de aniversário de 41 aninhos.

A lista largada ao acaso meu deu a ideia de criar uma página aqui no Caótico no qual os leitores possam deixar sua lista de livros desejados, como aquelas listas de presentes de casamento que os noivos deixam nas grandes lojas. Não sei quando vou viabilizar isso, pois dependo do meu ocupadíssimo webmaster Anízio Silva, mas em breve o Caótico oferecerá esse serviço de utilidade pública.

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4 Comentários

  1. Publicado 6 de outubro de 2009 em 8:18 | Permalink

    Ótima idéia, Inácio. Colocaremos nosso desejo por livro, já que sou uma pessoa apaixonada por leitura e raramente ganho livros de aniversário.
    Espero que agora que não escreverá mais para o blog do santinha escreva um pouquinho mais aqui, só não deixe de escrever.

    Abraços

  2. ducaldo
    Publicado 13 de outubro de 2009 em 8:08 | Permalink

    Inácio, você e o Caótico estão dificultando minha vida.
    Também fiz a mesma promessa, mas, com as obras divulgadas por aqui, tá difícil cumprir a promessa.

    Acho que vou usar o truque da lista no meu próximo aniversário.

  3. Inês
    Publicado 24 de novembro de 2009 em 12:42 | Permalink

    Inácio!
    tudo certinho?
    adoro seus escritos! e estou bem em dia com o caótico…
    creio que já ouvisse ao menos falar…
    Diário de Fernando, de Frei Beto
    dá uma olhada…
    bj

  4. Publicado 24 de novembro de 2009 em 13:34 | Permalink

    ô Inês,

    E por que tu não escreves sobre esse livro de Frei Betto para o Caótico?

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