De Mia Couto, li apenas dois livros de contos, mas passou da hora de mergulhar em seus romances. Tomei a decisão ao concluir a leitura de O Fio das missangas, devidamente devorado durante o período em que o blog ficou fora do ar contra a minha vontade. Dele, já conhecia as histórias curtas de Cada homem é uma raça e fui apresentado ao universo dos dialetos e da gente moçambicana.
As resenhas críticas que li sobre esse escritor sempre relacionam sua prosa poética ao mineiro Guimarães Rosa. O próprio Mia confirma a influência do brasileiro, mas nem precisava, pois os belos neologismos que ele cria em suas histórias e o molejo da língua portuguesa na sua terra reforçam esse vínculo.
Como eu ainda era menino quando li alguma coisa de Guimarães Rosa, percebo mais semelhanças entre o moçambicano e o poeta Manoel de Barros. Moçambique está para o primeiro do jeito que o pantanal mato-grossense está para o outro.
E ambos brincam e reconstroem o idioma de modo parecido: transformam substantivo em verbo, misturam palavras, ampliam seus significados a partir das experiências dos seus povos. O moçambicano em prosa, o brasileiro em versos.
As primeiras histórias de O Fio… são um tanto melancólicas. A dor e o sofrimento dos personagens estão em primeiro plano, transbordam das páginas do volume e tocam o coração de quem lê. A tristeza toma conta, assim como a certeza de que o autor é um baita contador de histórias.
O livro dá um salto no nono dos 29 contos, A Despedideira, a história em primeira pessoa de uma mulher que refaz a despedida do seu homem. Em meu exemplar, muitos trechos desse conto estão marcados a lápis, reflexo do meu entusiasmo. Exemplo? A constatação da protagonista de que sua alma é feita de água. Ou a comparação entre a noite e a avestruz, a tarde e os felinos e entre a manhã e o caracol.
Em O mendigo Sexta-Feira jogando no Mundial e O novo padre, o autor deixa bem claro de que lado ele está na luta do dia-a-dia para se fazer justiça. É para ninguém ter dúvidas de que, depois de ter participado da guerra pela independência contra Portugal, sua sensibilidade continua empenhada para melhorar as coisas no seu país.
Na história O menino que escrevia versos, o uso que ele faz de um dos personagens, o médico, é outro do talento narrativo desse sujeito. Não conto mais para não estragar o que Mia construiu com tanta delicadeza.
Ao menos um dos contos é coisa de gênio. O título da história é Os machos lacrimosos. A partir de uma alegre confraria de homens que bebem e se divertem num bar num local chamado Matakuane – mas que poderia ser em qualquer local do mundo -, ele põe o dedo na ferida dos valores do universo masculino. Foi quando entendi a razão dele tentar me fazer chorar nos primeiros contos.
Esse conto serviu de chave para abrir outra porta de sua literatura. Se no primeiro livro que li, Mia Couto é africano ao traduzir Moçambique, nesse livro ele é universal, pois suas histórias estão centradas nas dores, desejos e fantasias de todos os homens. Elas se passam em aldeias ou cidades africanas, mas poderiam acontecer em qualquer bairro de qualquer cidade de qualquer país de qualquer planeta onde exista seres humanos.
É por isso que agora quero ler seus romances.
Sobre o escritor
Mia Couto tem 55 anos e seu nome verdadeiro é Antônio Emílio Leite Couto. Filho de imigrantes portugueses, na guerra contra Portugal, não vacilou e militou na Frelimo (Frente para Liberação de Moçambique). Como é branco, não pôde pegar em armas, então ficou na retaguarda. Escreve como um artesão das palavras, mas é biólogo.

9 Comentários
AVISO AOS NAVEGANTES
ATUALIZEI O BLOG, MAS A VOTAÇÃO DO LIVRO DA RECORD CONTINUA ATÉ SEXTA-FEIRA.
Inácio, acredite ou não, ia te mandar alguns apontamentos sobre Mia Couto.
Tenho fé nesse cidadão.
Mia é criador da linguagem. Tanto quanto Joyce.
Ou, conforme a sacada que você teve sobre a afinidade que a obra dele tem com a obra do nosso Manoel de Barros.
Mia vai produzindo sua literatura, que é uma epifania de palavras, cores, sentidos e tramas. Dá-nos um senso de que o destino é inexorável, e de alguma forma, seus contos extasiam.
Esse escritor concebe tons musicais , numa cantata de reinvenção da língua. Mas a construção e o som são únicos. Os temas, bem, você já dissecou-os para o leitor.
Confesso que antes de conhecer a obra dele, visualizava uma caricatura ou epígono de Guimarães Rosa (que tem uma prosa bonita, mas chata.)
O preconceito, inimigo eterno de qualquer forma de conhecimento, é mortal.
O leitor inteligente não pode deixar Mia Couto de lado.
Ainda que em ‘UM RIO CHAMADO TEMPO, UMA CASA CHAMADA TERRA”, o autor ceda a um excesso na dosagem do chmado universo místico, que o torna pouco palatável ou crível.
Os contos citados no post são essenciais.
Vou indo.
Vou à leitura dos contos do autor Moçambicano, mas a influência anunciada de Guimarães Rosa não me anima.
Achei meio sacal, e sabe-se lá como cnosegui terminar Grande Sertão.
Numa das resenhas que li sobre o livro “O fio das Missangas” a jornalista abordou que o ambiente rural predominante nos contos do Autor, e as doidices de alguns personagens, afastam qualquer tentativa de cartesianismo, causando no leitor uma inquietação que tanto pode ser boa ou má.
É verdade.
Na verdade, prefiro romance ou novelas, aos contos.
Acho a brevidade do conto mortal.
Muitos discordam.
Dizem que os contos, captando com rapidez fragmentos de nossas vidas, marcam mais pontos que os romances, cuja extensão, às vezes, cai numa logórreia difícil de digerir.
Mas um contista genial foi Marcos Rey e Zé Rubem Fonseca. “O Pêndulo da Noite” e “O Enterro da Cafetina” do primeiro, são duas coletâneas bacanas.
Vale a pena deixar os romances de lado, temporariamente.
* Leiam: “Mas dois contistas geniais foram …’
Fiquei instigado para ler o conto “Os machos choram”. Vou correr atrás.
Favor botar no alforje o meu Pushkin.
Samarone
Inácio, o livro Cada homem é uma Raça do Mia Couto é extraordinário. Feito um idiota, não li O Fio das Missingas. Como não pretendo continuar na idiotice, vou ler.
Muito bom esse post.
E os comentários idem.
Quando fui ler esse livro, também fui sem entusiasmo, porque fui obrigada a ler já que ele é exigido em uma tal prova de vestibular seriado local. Bem, depois eu simplesmente me apaixonei pelo livro, acabei de lê-lo e já quero recomeçar. Muito bom mesmo!
E parabéns pelo seu post, muito bom! (:
Rosaline – Repeat After Me! and Text Alert Tones – Oooh A Text and Richie Mcdonald – The Christmas Song and Illa J – All Good and Daphne Rubin Vega – Let Go Of The Past
Um Trackback
[...] prometi ao concluir os excelentes contos de O Fio das missangas, em outubro enveredei pela leitura do romance que é considerado a principal obra do moçambicano [...]