O Maior Crime da Terra & Canibais

20002449É preciso dar um desconto para o título, coisa de gaúcho, que é um povo bem parecido com o pernambucano no ufanismo e na mania de grandeza, mas O Maior Crime da Terra é um livro sobre um crime tão grotesco que é difícil crer que tenha ocorrido mesmo. Só dá para acreditar porque o autor, Décio Freitas, era um historiador respeitado tanto no Sul quanto pelas bandas de cá.

Peço perdão para quem entrou no site hoje pensando em ler mais um texto sobre algum clássico latino-americano, mas é que eu tenho um fraco por literatura policial e sobre histórias de crimes misteriosos. O tempo que trabalhei como repórter de polícia do extinto Diário Popular, em São Paulo, reforçou meu gosto por esse tema, que nos coloca diante dos extremos do ser humano.

Voltemos ao que interessa.

Até o ano de 1996, a história das lingüiças de carne de gente, quitute preferido de nove entre dez moradores da Porto Alegre do século XIX, era considerada pelos gaúchos como uma lenda urbana, algo como a “perna cabeluda” aqui no Recife. Até que Freitas escacavilhou documentos da Justiça e arquivos dos jornais para comprovar que, realmente, o açougueiro José Ramos, um homem educado e culto para os padrões da época, existiu e matava os homens que sua mulher gostosa seduzia para sua casa, desossava cada um deles e fazia deliciosos embutidos de carne levemente adocicada. Os fregueses – e também candidatos a matéria-prima – faziam fila na frente do açougue.

É preciso considerar sempre que O Maior Crime… é um livro escritor por um historiador, ou seja, a linguagem e o ritmo nem sempre são muito envolventes, mas se minha memória não falha, é isso que o torna mais interessante: as notas de rodapé e as citações dos documentos históricos nos fazem lembrar, a todo instante, que aqueles absurdos não foram imaginados por algum roteirista maluco.

O que mais me intriga nessa trama é o seu forte ingrediente erótico. A mulher do açougueiro, Catarina, era uma loira natural, de fechar comércio. Ela era a isca. A macharia perdia a cabeça – desculpe pelo trocadilho óbvio, mas foi inevitável – e se arrastava atrás dela em sua casa na rua do Arvoredo, que mudou de nome e hoje fica no centrão da capital gaúcha.

Aí vem o mais instigante. Primeiro, os homens comiam metaforicamente Catarina, depois eram abatidos a machadadas para serem comidos literalmente.

Que vínculo unia esse casal? Qual dos dois teve a ideia de armar esses crimes? Como convenceu o outro a topar a empreitada? Será que o primeiro crime foi casual, depois que o açougueiro flagrou um chifre ou os dois planejaram o negócio? Quaisquer que sejam as respostas para essas interrogaões, decididamente, não dá para dizer que a história é fraca.

canibaisComo não sou o único tarado confesso em atividade, oito anos depois que o historiador Décio lançou seu livro, um jornalista do Zero Hora chamado David Coimbra, editor e colunista de esportes, pesquisou os costumes da sociedade da época, acrescentou um personagens ficcionais e escreveu um romance a partir dos fatos reais, misturando verdades históricas e verdades imaginadas.

Dias desses encontrei esse romance lançado no formato de bolso e, inicialmente, pensei se tratar do outro livro em nova edição, com um novo título, mas dei uma folheada e descobri nas páginas finais que o Coimbra mencionava muito respeitosamente o volume do Décio. Comprei na hora.

O título do romance de Coimbra, Canibais, tem tanto apelo comercial quanto o de Freitas, mas é de leitura mais atraente, afinal de contas nivelar a linguagem mais ao gosto do leitor médio é uma coisa que jornalista sabe fazer.

Apesar de Canibais ter sido escrito com mais cuidado e recursos técnicos, gostei mais de ler o livro de Décio Freitas, provavelmente por causa da atmosfera realística criada pelo texto quase acadêmico. Na verdade, confesso minha inveja, pois aposto que escrever (ou reescrever) a história dos crimes do açougueiro devem ter sido tão prazeroso para o autor quanto foi para José Ramos matar suas vítimas.

Sobre os escritores

Décio Freitas

Décio Freitas era historiador e advogado. A militância no Partido Comunista Brasileiro o levou para o exílio no Uruguai após o golpe militar de 1964, onde começou a escrever o livro Palmares, a Guerrilha Negra, que o tornou respeitado pelo Movimento Negro, pois reuniu informações e documentos que comprovam a existência de Zumbi dos Palmares. Morreu em Porto Alegre, há cinco anos.

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David Coimbra (na foto acima, é o que está sem chupeta) é colunista e Diretor de Esportes do jornal gaúcho Zero Hora. Além de Canibais escreveu livros-reportagens como Atravessando a Escuridão, livros de crônicas e sobre a história do clássico Gre-Nal. No portal do ZH, mantêm um ótimo blog com histórias muito bem escritas sobre futebol.



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10 Comentários

  1. Raphaela
    Publicado 9 de setembro de 2009 em 19:36 | Permalink

    eu vou de Canibais.

  2. Julio Vila Nova
    Publicado 10 de setembro de 2009 em 9:59 | Permalink

    Inácio, já vi que tu vais ser responsável por mais um motivo de dispersão no meu trabalho, quando estiver conectado, por causa deste Caótico. Dispersão caoticamente necessária, diga-se. Só agora tive tempo de dar uma paradinha com um pouco mais – porém nem tanto – de calma. Então, parabéns pela inciciativa!. Vou lhe pedindo licença para adotar como uma espécie de consultoria, aceitando as sugestões de leitura.

  3. Julio Vila Nova
    Publicado 10 de setembro de 2009 em 10:07 | Permalink

    Sim, e por falar em sugestão (se você permite), vai a dica para incluir aí uns títulos para criança. Coisa (palavrinha nefasta!) de pai que gosta de dar livros de presente. É que me lembrei de Menina Nina, de um autor dos mais óbvios, que é Ziraldo. É desses livros que dá vontade de você sair escrevendo pra todo mundo, sugerindo que leia. Mas como não maluco a ponto de ter um blog sobre leitura, pego carona na doidice alheia.
    abraço!

  4. Publicado 11 de setembro de 2009 em 0:54 | Permalink

    Me empresta rs rs rs…

  5. Publicado 11 de setembro de 2009 em 0:56 | Permalink

    me empresta rs rs rs

  6. Luis Oliveira
    Publicado 6 de outubro de 2009 em 23:50 | Permalink

    Como pernambucano morando em Porto Alegre já há quase 3 anos, essa historia me é muito familiar. Alias, meu primeiro ano na capital gaucha passei num hotel pertíssimo do epicentro do caso, no centro da cidade (que é bem agradável de morar, ao contrario da nossa querida capital das águas). Não li o primeiro livro, mas vou procurar nos sebos daqui. Agora o David Coimbra é desses cronistas raros, geniais, q escreve de sexo e futebol com a maior desenvoltura, sem q o leitor saiba qual o assunto principal. Recomendo q anotem o seu nome e vejam as historias em seu blog. É uma das coisas que prestam no Zero Hora.

  7. Publicado 29 de outubro de 2009 em 13:48 | Permalink

    Essa historia de canibais e demais adorei
    rs rs rs rs rs rs rs rs rs rs rs….

  8. zeck
    Publicado 31 de maio de 2010 em 15:15 | Permalink

    to loko atras dese livro ouvi a historia e kero ler!!!!
    david agente se ve na fera do livro^^

  9. Vagner
    Publicado 19 de janeiro de 2011 em 12:56 | Permalink

    Só um esclarecimento, não é “coisa de gaúcho” mas “O Maior Crime da Terra” foi o título dado a notícia publicada em um jornal francês da época. Este crime/fato da Rua do Arvoredo chegou a repercutir no Uruguai e na França na época, segundo o próprio autor do livro.

  10. jamile
    Publicado 20 de fevereiro de 2011 em 14:34 | Permalink

    já fui de Canibais, ando a procura do outro, não é fácil de achar.

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