Esse blog é comum-de-dois-gêneros. Vou das mulheres sábias de Geórgia para as mulheres peruas, vedetes, sonsas, traídas e traíras de Sérgio Porto. Do Dia Internacional da Mulher para o machismo de Stanislaw Ponte Preta.
A bem da verdade, foi um erro reler as crônicas de O Melhor de Stanislaw Ponte Preta. Stanislaw e Sérgio Porto são a mesma pessoa, ou melhor, Stanislaw é criatura, a um só tempo, personagem e pseudônimo. A releitura desfez a impressão que tinha preservada há mais de 20 anos e consolidada nos anos 90: passei esse tempo todo jurando que Porto era um gênio. Agora, sei que estava muito longe disso.
Porto era um extraordinário contador de histórias e sabia como poucos levar para o papel a linguagem das ruas, o ritmo e o vocabulário das conversas do povo na mesa de bar, na conversa descontraída. Isso não faz dele um craque, mas não um gênio. Explicarei o porquê da minha decepção tardia.
Relendo O Melhor…, uma coletânea de crônicas de sete dos seus nove livros, descobri que muito daquilo que publicou nos primeiros livros ficou velho e sem graça. Não é de espantar. A maior parte da obra de Porto foi publicada originalmente nos jornais cariocas, principalmente o extinto Diário Carioca, em colunas diárias. Ou seja, com prazo de validade curtíssimo, como quase tudo o que sai nos jornais.
Assim, suas crônicas traduziam o dia-a-dia da vida nos botecos, quintais, praças e subúrbios do Rio de Janeiro. Aquelas publicadas em seus últimos livros – os dois Febeapá e Na Terra do Crioulo Doido – poderiam ser adjetivadas de geniais, são literatura viva, não sofreram o desgaste do tempo. Provavelmente, porque foram escritas por um homem maduro, com mais intimidade com a escrita e mais à vontade com seu universo temático.
As dos primeiros livros, não, aquelas mofaram. Em seu esforço para transformar em crônica a perplexidade diante dos novos costumes de um Brasil cada vez mais urbano, de uma mulher em busca da autonomia, de novas noções de sexualidade, Porto não escapou do preconceito. Cinquenta anos depois, o espanto diante de tantas bichas (gay ainda não era uma palavra conhecida na época) e lésbicas, por exemplo, tornam seus textos um tanto ridículos, eu diria bestas mesmo.
Aqui, eu usaria como contraponto um contemporâneo de Porto, Nélson Rodrigues, esse sim, um gênio. No teatro, na crônica ou no romance de Nélson, os mesmos temas ainda possuem uma vitalidade extraordinária. Sobreviveram e sobreviverão.
Essas são as limitações da obra de Sérgio Porto. Vamos às qualidades, porque o sujeito as possuía em fartos volumes.
Muitas das suas histórias, contadas como na “vida real”, são recontadas por aí como piadas anônimas, de tão concretas que são. Os leitores do Caótico talvez lembrem do caso do tio aposentado e solteirão que pediu para ser enterrado junto com suas economias. Todo mundo na família doido para botar a mão na dinheirama que ia no caixão, mas ninguém se atrevia a fazer, todos vigiavam todos. Até que um sobrinho vai no caixão, recolhe todas as notas e deixa um cheque no bolso do paletó do tio morto, avisando que, em caso de necessidade, era só trocar no banco. Pois bem, essa é uma crônica de Stanislaw, ou melhor, de Sérgio Porto.
Dou o maior valor a quem consegue fazer literatura com a língua do cotidiano, com a gramática não-oficial do povo. Essa é uma das minhas obsessões.
Outro fator que ajudou muitos dos seus textos chegarem fresquinhos no século XXI foi a publicação em livros de português e provas nas salas de aula dos anos 80. Minha geração, à beira ou ultrapassando os 40 anos pouquinha coisa, cansou de fazer exercícios de interpretação de textos de suas crônicas, afinal ele era um dos poucos autores cuja obra passava sem problemas pelos militares, pois tratava do cotidiano sem tocar em política. No máximo, resvalava em queixas sobre falta de luz ou buraco na rua, coisa que qualquer um faz e em qualquer lugar.
Sobre o escritor
Sérgio Porto escreveu sete livros sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta e criou outros personagens lendários, como a ótima Tia Zulmira, uma velhinha cheia de contradições. Ele trabalhava como um condenado: escrevia para jornais, fazia roteiros para TV, scripts e dizia que só levantava os olhos da máquina de escrever para botar colírio. Resultado: em 1968, morreu de enfarte aos 45 anos, cinco dias antes deste escriba que vos fala nascer.

9 Comentários
Inácio
Senti um pouco disso quando li recentemente Melhores Crônicas…
É isso mesmo, dá uma tristezinha quando uma literatura sai de moda.
Mas tudo bem, em compensação existem muitos textos que quanto mais se demora a ler mais parecem que são novos, cito o brasileiro, curto, fácil, dinâmico e crítico, ‘O Cortiço”, impressionante.
Lea
isso tudo é nuito legal mas ia ser mais legal ainda se eu entendesse alguma coisa
eu queria ler a cronica o homem do telhado
eu que ria ler o homem do telhado. Eu gostari voceis passa se para mim E-mail cavalo@hotmail.com
adoro as cronicas do stanislaw,gostaria de obter um livro dele, se alguem souber como posso obter agradeço.
Não conhecia esta gema de blogue tão sincera; enxergo nele o prazer verdadeiro com que o leitor se relaciona com o que lê. Confesso que, depois ter lido essas suas impressões, ora mais acuradas (e reavaliadas), do livro de Stanislaw, fui tomado por interesse maior de conhecer as outras postagens do blogue. Li, na parte em que se define e diz suas intenções com o blogue, que busca traçar as sensações legítimas que os livros lhe causam, sem os juízos (às vezes estreitos) do crítico literário, do ensaísta douto, que faz questão de cansar a leitura lhe dando feições matemáticas. E, mesmo antes de ter sabido de suas intenções, ao primeiro contato, tive aquela sensação gostosa de caminhar por terrenos saudáveis, arejados, em que a literatura é tratada sem todos os atavios técnicos e sem discussões aguerridas sobre um ou outro livro. É, definitivamente, o blogue de um leitor…
Parabéns, novamente.
Abraço.
Obrigado Gustavo! Seja benvindo e volte sempre por essas bandas.
adorei
nunca tinha visto nada igual ,
adorei ficou barbaro , maravilhoro