O poeta inseguro e o leitor voraz

Samarone Lima é um escriba com razoável experiência acumulada, causa e conseqüência de quatro livros publicados. A prosa não o intimida. Ao contrário, ele sente-se seguro entre parágrafos, orações intercaladas e períodos extensos. Com a poesia é diferente. O escritor autoconfiante é um poeta tímido, inseguro.

Há anos, mantêm dois blogs, no Estuário estão suas crônicas e um público cativo. Quemerospoemas.blogspot.com é quase clandestino. Se ele não o esconde, pelo menos não o divulga. Na falta de alguém capaz de pesar e repesar seus versos, de afirmar com sinceridade o que dava ou não para ser publicado, um livro de poesias parecia um projeto impossível.

Arsênio Meira Júnior lê poesia desde criança. Sua mãe, uma jovem cheia de sonhos dos anos 60, o apresentou a Drummond, Maiakovski, Vinícius e, principalmente, Ferreira Gullar. Adolescente, sonhava em escrever, escrever e escrever sem parar. Quase cursou Jornalismo, mas o pragmatismo falou mais alto aos 17 anos e decidiu pelo Direito, herdando, além do nome, parte da credibilidade construída pelo pai,

Sujeito reservado, caseiro, se dá ao direito de poucas piadas, todas fartas de uma autoironia impiedosa. Afirmar que sua maior contribuição foi queimar os poemas que cometeu na juventude é a anedota mais recorrente do seu repertório. Desde então, lê poesia quase sem interrupções, sonhando com a vida entre letras, o universo que abdicou. Lembra até o primeiro livro que ganhou – Barulhos, de Gullar – e o primeiro que comprou – A rosa do povo, de Drummond.

A internet juntou o poeta inseguro ao leitor ávido.

Eles jamais tinham se visto, mas foi Arsêrnio quem ajudou a selecionar e a organizar os poemas do livro de estreia do poeta Samarone, A praça azul/Tempo de vidro, prestes a sair da gráfica nos próximos dias, mas com lançamento previsto para o início de março por sugestão minha, afinal janeiro e fevereiro não é mês de lançar livro que se preze.

O leitor colocou um pé no mundo dos livros, o poeta encontrou o olhar crítico capaz de enxergar suas próprias qualidades e as inevitáveis deficiências.

“Nunca entendi a insegurança de Samarone. Ele é do ofício. Além do mais, não conheço nenhum poeta novo, do século XXI, com o ardor, a potência lírica expressa, por exemplo, em Tempo de vidro”, questiona-se Arsênio.

Samarone responde: “A poesia é, para mim, ficar exposto em grau máximo. Meus poemas são autobiográficos e eu não gostaria de expor minha história e minha família em versos ruins. E tem mais: detesto poesia ruim, então não suportava a ideia de publicar um livro ruim de poesia”.

De blog em blog, Arsênio descobriu a página dos poemas semi-clandestinos do escritor. O ponto de partida foi uma consulta ao Google com a palavra-chave “Maigret”, o personagem dos romances policiais do belga Georges Simenon. “Cheguei a um texto escrito por você, Inácio, no Caótico, de lá esbarrei no Estuário de Samarone, então finalmente achei o site de poemas”.

Arsênio deixou rastros. Em todos os sites, comentou os textos publicados. Samarone seguiu as pistas:

“Os comentários dele nunca eram simplesmente ‘gostei’ ou ‘não gostei’. Ele sempre fazia ligação com outros referências. Percebi que ele estava lendo poemas antigos, publicados assim que criei o blog. Era um leitor que lia poesia, que poderia separar, selecionar os poemas, opinar com isenção e sem melindres, já que nem amigos éramos, aliás sequer nos conhecíamos”.

Trocaram e-mails e o convite foi feito. O leitor topou na hora.

O método de trabalho foi desenvolvido com a ajuda da internet, do gosto pelo futebol e muita sinceridade. Arsênio comentava os poemas, explicava as razões das escolhas e dos descartes, mas a opinião final sempre foi do autor.

“Nossas discussões por e-mail sempre foram debates francos, com opiniões claras e sem constrangimentos. Quando ele queria deixar alguma coisa boa de fora, eu escrevia coisas do tipo: ‘Sama, você vai deixar de fora o artilheiro do time e o goleiro paredão. Não faça isso, a torcida te mata’.”

Samarone diz que, um dia, iria criar coragem para publicar, mas os conhecimentos, a sensibilidade e, mais do que isso, a disposição de Arsênio em atuar como organizador (ou curador) foram fundamentais para adiantar o livro em, pelo menos, uma década.

O resultado da parceria leitor/autor recebeu tratamento gráfico e visual da Paés. São, a bem da verdade, dois livros em um só volume. A praça azul reúne 33 poemas dispersos. Tempo de vidro é um poema longo, com teor autobiográfico bem mais nítido. Segundo Arsênio, é um poema que “justifica um livro só para ele, onde as fraturas estão expostas de modo que só o poeta pode expor. Ezra Pound bate palmas”.

 

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8 Comentários

  1. Antonio Gueiros
    Publicado 16 de janeiro de 2012 em 13:54 | Permalink

    O livro de Sama já foi publicado? Fui a leitura feita pelo autor na Bienal do Livro e fiquei muito emocionado. Os poemas, especialmente o Tempo de Vidro, mexeram muito comigo. Estou ansioso, aguardando a publicação.
    Abraço!

  2. samarone
    Publicado 16 de janeiro de 2012 em 15:27 | Permalink

    Antonio, o livro está nos finalmente. Achei mais um lote grande de poemas velhos e falidos, mandei para Arsênio, que está depurando. Diz que achou quatro publicáveis, mas precisamos dar descontos. A mulher dele está grávida e meu amigo está muito emotivo.
    Samarone

  3. J.
    Publicado 16 de janeiro de 2012 em 17:05 | Permalink

    aguardar!!!

  4. ducaldo
    Publicado 16 de janeiro de 2012 em 19:40 | Permalink

    Com a dupla de área Samarone e Arsênio só pode sair goleada. Vou reservar meu lugar na fila.

  5. Arsenio Meira Junior
    Publicado 16 de janeiro de 2012 em 22:14 | Permalink

    Antonio, não vai na onda do nosso Sama, kkkk.
    Embora esteja um pouco emotivo (afinal esperamos eu e minha esposa, o primeiro filho) procuro sempre não me deixar levar por sentimentalismos.

    Sama, essa semana a gente se fala.

    Ducaldo, penso que, para qualquer escritor, um leitor do seu naipe é uma garantia.

    Grande abraço para todos e para o autor do artigo, o nosso França.

  6. Antonio Gueiros
    Publicado 17 de janeiro de 2012 em 11:58 | Permalink

    A onda de Sama é fruto do “poeta inseguro” tão bem delineado pelo Inácio França. Nessa insegurança, a produção só faz aumentar! Então, continue assim, Samarone, inseguro e profícuo. Parabéns pelo filho a caminho, Arsenio.

  7. Édien Pantoja
    Publicado 17 de janeiro de 2012 em 13:32 | Permalink

    Linda história. Fiquei curiosa e com muita vontade de ler o livro de poemas do Samarone. Quando eu estiver no Brasil vou comprar.

  8. Publicado 26 de janeiro de 2012 em 21:29 | Permalink

    Conheço o Samarone cronista e poeta. Conheço o Arsênio leitor sensível e crítico. Enfim, sou mais uma no aguardo, pois não sou besta.

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