O prazer da escolha

escolhalivrosConheço gente que cheira o livro antes de ler a primeira linha, cheira a capa, aspira a contracapa e fica folheando e cafungando. Quem faz isso, não pode ser asmático, senão morreria de falta de ar e de muito espirrar. Nunca vi estante isenta de poeira, a não ser as da Livraria Cultura, que chegam brilham de tão limpinhas, mais assépticas que corredor de hospital particular.

Eu não cheiro, fico só olhando a capa e a contracapa. Leio a orelha e aqueles inevitáveis parágrafos da última capa. Dou uma passada de olho em todos os penduricalhos, incluindo a ficha catalográfica, antes de começar a ler à vera, coisa que só acontece horas depois desse ritual todo. Coisa de gente maluca.

Mas, pra mim, o gozo da leitura começa antes mesmo dessa etapa. Eu já começo a sentir prazer no momento em que vou para a prateleira em busca do próximo título a ser debulhado. Teve vez, não faz muito tempo, peguei uns três livros e fiquei um dia todo olhando pra cada um deles, lendo e  relendo as orelhas até me decidir.

Foi o que aconteceu na segunda-feira passada, último dia de agosto. No final de semana retrasado (esse que passou não, o outro), cheguei ao ponto final do livraço de Robert Fisk, já muito citado aqui e condecorado com cinco estrelas de ouro. Decidi reler o livro de Samarone, Viagem ao Crespúsculo, desta vez já editado, com o objetivo de ajudar meu amigo a localizar e corrigir os muitos erros de edição que deixaram passar.

Assim, a releitura da Viagem foi quase uma tarefa, um trabalho. Li o livro todinho com um lápis de ponta mal-feita ao lado, rabiscando os defeitos e anotando as possíveis alternativas para cada problema. Quase nada de prazer.

Mesmo cansado da viagem pela Bacia do Capibaribe e com uma otite desgraçada de chata, na segunda-feira pela manhã peguei o tamborete e fiquei remexendo nas estantes. Pensei no O Segredo de Joe Gould, de Robert Mitchell, e Nação Crioula, de Agualusa. Ao vivo do Calvário bateu na trave, seria meu primeiro Gore Vidal, mas fica pra depois.

No final das contas, me atraquei com Um Sonho Americano, de Norman Mailer, numa edição de bolso da L&PM. Já tinha lido um livro de Mailer o ano passado, O Evangelho Segundo o Filho, que, assim como na obra de Saramago, é uma espécie de “relato autobiográfico” de Cristo, porém sem grandes novidades. Com muito favor, ficaria na categoria meia-bomba e olhe lá.

Logo no início da leitura, quando o protagonista mata quatro soldados alemães numa batalha da II Guerra, percebi que minha escolha está ligada à leitura anterior. Fisk faz uma tremenda análise da imensa responsabilidade dos Estados Unidos nas guerras e massacres do Oriente Médio. Mailer mostra a sociedade norte-americana por dentro, usando como recurso um herói de guerra que faz o caminho inverso dos super-heróis ianques: vai da glória à merda mais fedida em largas passadas.

Mesmo desconfiado por causa da leitura insossa do tal Evangelho, me dá o troco nesse livro. Nas primeiras páginas, ele me conquistou com construções como essas: “mas viveu sua vida e morreu com ela”. Ou então: “agora, conviver com Deborah era como sentar para jantar em um castelo vazio tendo como anfitrião apenas um mordomo e sua maldição”. Não lembro de ter visto definição tão crua e pesada para um casamento destruído.

Por enquanto, acabei apenas o primeiro capítulo. Depois, falo do resto.

Enviar por email - Imprimir

3 Comentários

  1. samarone
    Publicado 3 de setembro de 2009 em 18:13 | Permalink

    Aguardo os apontamentos sobre meu livro cubano.
    sama

  2. Publicado 4 de setembro de 2009 em 11:25 | Permalink

    Cada um tem seu ritual. Cheirar pra mim está fora de cogitação, estando na categoria dos asmáticos… Mas leio páginas esparsas pelo meio, antes de começar à vera. Não me pergunte por quê…

  3. Marta
    Publicado 10 de setembro de 2009 em 15:01 | Permalink

    Sou uma cheiradora confessa. Morri de rir com o post.
    bjs.
    Martinha.

Comentar

Seu email nunca será publicado ou distribuído. Campos obrigatórios estão marcados com *

*
*