Uma caixa com todos os livros da coleção Vaga-lume. Completa, todinha. Presentão inesquecível no meu aniversário de 12 anos. Foi meu tio Lauro quem deu, me entregou numa embalagem de papelão, sem enfeites, sem frescuras. Rasguei a caixa e fiquei horas babando sobre as capas novinhas do Caso da Borboleta Atíria, Spharion, O Escaravelho do Diabo, O Mistério do Cinco Estrelas, A Ilha Perdida, Cabra das Rocas e de mais uma meia dúzia.
Naquele aniversário ganhei também um relógio bacana, dourado, coisa fina. Fiquei feliz e devo ter usado durante algum tempo, mas foi a caixa de livros que me encantou. Nunca havia ganho uma caixa inteirinha de livros antes, coisa que só foi acontecer 20 anos depois quando fui jurado do Prêmio Jabuti.
Tio Lauro foi um dos responsáveis pela minha intimidade com o mundo dos livros.
Cresci numa casa com poucos livros, ou melhor, até que eles existiam, mas estavam condenados a cumprir alguma pena severa no alto de prateleiras inacessíveis, juntando poeira e teias de enormes aranhas que viviam conosco na casa de Piedade, perto da praia. É preciso dar um desconto, eu era pequeno, então é possível que as prateleiras não fossem tão altas e as aranhas tão grandes.
Não sei com qual idade, calculo que antes dos 1o anos, escalei escadas e cheguei aos livros empoeirados. Lembro de uns grossos, de capa dura azul escura. Era a Coleção Menina-Moça, que, nem imagino quando nem porquê, minha mãe ganhou de presente. Duvido que ela tenha lido, duvido também que algum leitor do blog já tenha ouvido falar de sir Jerry, o detetive, personagem cujas aventuras sem graça foram publicadas nessa coleção. Li todas do sir Jerry. Resumindo: confesso que, um dia, li a Coleção Menina-Moça. Era o que tinha.
Acho que por causa dessa coleção de nome tão fresco, mesmo criança nunca tive receio de encarar livrões cheios de letras e nenhuma figura. Mas foi com os gibis do meu pai que aprendi a tomar gosto para valer pela leitura. Seu Lúcio nunca foi chegado a livros, mas todos os dias traçava Pato Donald, Zé Carioca, Mickey, Tex Willer e Fantasma, o espírito-que-anda. Aproveitando o embalo, acrescentava a Turma do Pererê no balaio de revistinhas que meu pai comprava numa banca enorme que ainda existe em frente ao Mercado de Boa Viagem.
Os livros que faltavam lá em casa, sobravam na casa de tio Lauro (foto). Na década de 70, ele vendia livros, representava uma editora e tinha sempre dezenas de pacotes de livros didáticos na sua casa. Havia caixas de paradidáticos também, que são aqueles livros de literatura infantil ou juvenil que os professores obrigam os alunos a lerem para fazer aqueles exercícios imbecis de interpretação de textos. Esses paradidáticos com o carimbo de “cortesia livro do professor” sempre caíam nas minhas mãos.
Depois, ele investiu na própria livraria, no centro do Recife. Adolescente, era voluntário para trabalhar vendendo livros para as madames na “época escolar”, os meses de janeiro a março, quando as livrarias e papelarias enchem de gente histérica procurando os livros exigidos pelas escolas. Vender livros foi meu primeiro trabalho. Em troca, podia levar para ler em casa os outros livros, best-sellers ou poesia, que tinham de ficar guardados no estoque para abrir espaço para as gramáticas de Cegalla ou a Matemática de Demétrio.
Dava duro de dia na livraria e lia em casa histórias como a de um romance sobre o cerco a Stalingrado, na II Guerra, escrita por um sujeito chamado Konsalik, que o Google informa ser o alemão Heinz Gunther Konsalik. Li também Fernando Sabino, Rubem Braga e uma Seleta em Prosa e Verso, de Drummond. Esse era difícil de vender e tio Lauro me deu.
Hoje, a livraria não existe mais. A degradação do centro arrastou para longe a clientela, mas Lauro França continua vendendo livros.
Não tenho certeza se, no meio da euforia, agradeci à altura pelo presente. Por isso, na dúvida, agradeço novamente quase 30 anos depois.
10 Comentários
Inácio
Todos nós ( da nossa geração) lemos alguma coisa da coleção Vagalume, eu tenho os meus, já que parece impossível jogar um livro numa lata do lixo que, como sabemos, nem será reciclado.
Quem sabe meu filho um dia gosta?
Mas… meu primeiro LIVRO foi “Ou Isto ou Aquilo” de Cecília Meireles, lindo lindo lindo, foi presente de minha avó Ofélia e eu devia ter uns oito anos, adoro-o até hoje.
Eu também cresci numa casa com livros herdados, mas tinhamos, eu e Lais o ‘quarto de estudos, com prateleiras cheias de Caldas Auletes, livros sobre mecânica e também sobre cães, Ah, na última prateleira de cima (só acessível com escada e ponta de pé) tinha uma Playboy com Madonna em preto e branco (hoje uma raridade), que era folheada por mim no maior segredo do universo.
O doador dos livros era meu avô Paulo que tinha a biblioteca mais linda do mundo, inclusive com ele dentro. Toda vez que eu perguntava algo do tipo: – vovô, o que é constituição? Ele me levava na prateleira de ‘O que é….’ da Primeiros Passos. Eu acho que ele tinha mais exemplares que a editora.
Bem, pra que dizer tudo isso?
Pra dizer que acho que conviver com livros ajuda as crianças a admirá-los, não é poesia não.
Então, vamos continuar com nossos filhos (a forma não importa) isso que aprendemos com nossa família.
Pode nem fazer bem mas, ofender não ofende.
Lea
Lá em casa meu pai era chegado às Obras Completas e Enciclopédias. Desde sempre lembro da Delta Larousse, Tesouro da Juventude,…., Obras Completas do Victor Hugo, Jorge Amado, Machado de Assis, Tolstoi, Dostoiewski, Monteiro Lobato…Comecei lendo tudo de Monteiro Lobato e achava um porre ler os livros que a escola mandava….nem lembro quando comecei a ler, mas foi antes de ir para o jardim…e deu no que deu…rsrsrs. Meus filhos: tem um que lê muito, outro mais ou menos e outro quase nada (acho que este quase nada só leu até o momento alguma coisa do Fante, Bukowski e Quintana). bj
Quanta responsabilidade temos nos presentes das nossas crianças, ao invés de armas, livros! Que história legal!
Comigo aconteceu algo engraçado: tive uma biblioteca como babá. Minha mãe trabalhava na antiga LBA, em Santo Amaro, e me deixava enquanto isso na Biblioteca do 13 de Maio. Coleção Vagalume é quaser como Monteiro Lobato: a gente não consegue ler um só… (Tua postagem evoca tantas lembranças…)
Rapaz, que presentão. Só de ver aquela reprodução com um punhado de capas da série, senti um tremelique de nostalgia. Lá em casa também não tinha livro não. Nem umzinho só. Mas a gente é um povo danado: quanto mais difícil, mais a gente corre atrás e valoriza. Tinha uma tal de biblioteca municipal que, uma vez descoberta, foi usada até o osso. Apesar de umas bibliotecárias bestas que não queriam que a gente chegasse perto das estantes de portas de vidro onde havia certos livros de um tal de Jorge Amado (justo ele, o mais vendido, digo, o mais emprestado). Até hoje, vez em quanto, compro no sebo um VagaLume dos velhos tempos.
Prezado Inácio,
Que inveja! Esse foi (e continua sendo) meu sonho. Lia Marcos Rey na adolescência. Depois, na juventude, depois de passar pelos clássicos, descobri o Marcos Rey para adutos. Foi fundamental juntar os dois momentos em minha vida. Falo de Marcos Rey na vagalume, mas adorava todos os outros autores.
Grande Abraço e parabéns pelo livro lançado.
Saulo Ribeiro
Que história bacana Inácio.Ler um livro da coleção Vagalume era obrigatório na minha escola, a cada 3/4 meses ” tinha que ler” um e responder a fichinha que vinha como anexo; Lembra?
Sempre adorei livros, gibis (a Turma da Mônica eram os preferidos) e como sou filha de educadores, dei sorte no visual da estante, mas um livro em especial foi um divisor de águas na minha vida e no meu gosto pela leitura Uma Rua Como Aquela, de Lúcia Junqueira de Almeida Prado – um livro que fala da transição entre a infância e a adolescência, de uma rua e seus personagens que tanto se assemelhavam com a minha história de vida entre a Rua Petrolina e a Rua dos Navegantes em Boa Viagem (onde se podia ainda ter infância de rua).Ah! Lembrei da Barraca do Mercado de Boa Viagem, a dona era Meri, lembra dela???Comprava sempre um gibi e um chokito.
Boas lembranças amigo.
E por falar em coleção Vagalume, VIVA MARCOS REY.
Devo muito a ele a curtição pelos livros.
É uma dívida impagável.
E depois, li tudo o que ele escreveu.
Mas isso renderia um outro comentário.
É dos meus autores favoritos.
Amém.
Arsênio,
acredita se eu disser que tive a sorte de entrevistar o Marcos Rey ao vivo cara-a-cara, em 1998?
Inácio, brincadeira…
Tu podias escrever sobre esse acontecimento.
Chegaste a ler “Maldição e Glória”, a biografia dele, com uma revelação sobre ele incrível,que não digo pra não estragar o prazer de quem não leu?
É um dos meus ídolos.
Abraços