O Romance da Pedra do Reino

pedradoreinoPassei anos ouvindo falar do Romance da Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, conhecido por ser a obra-prima de Ariano Suassuna, mas por muito tempo o livro permaneceu fora de catálogo e, só uma vez, cheguei a folhear um exemplar de uma edição antiga num dos sebos da Corredor do Bispo. O livreiro pedia uma pequena fortuna. Fiquei na vontade.

Há uns quatro anos, a José Olympio lançou uma nova e bonita edição. Comprei um exemplar ainda na primeira semana. Fosse um pão, a capa ainda estaria morna.

Gosto do seu teatro, já gargalhei um bocado em várias aulas-espetáculo, admiro seu posicionamento em defesa da cultura brasileira, adorei entrevistá-lo para a Caros Amigos, há uns anos atrás. Gosto muito da pintura de Dantas, filho dele, com quem já tomei umas cachaças boas. Enfim, sou fã do sujeito. Mas não gostei da Pedra do Reino. Me arrastei pela leitura, penei para chegar ao final, só para poder dizer “já li esse aí”.

Não tenho o menor conhecimento teórico para explicar as minhas razões. Simplesmente não gostei.

Conheço bastante os sertões da Paraíba, Rio Grande do Norte, Bahia e Pernambuco. Mesmo assim, não consegui reconhecer no romance o jeito de andar, comer, vestir e cantar do povo do Semi-árido.

Por conta disso, acredito que o que me falta é bagagem de leitura para enfrentar esse livro. Não conheço quase nada do sebastianismo , menos ainda sei das tradições medievais de Portugal cristão ou mouro.

Fui pego de surpreso pela complexidade da Pedra do Reino. Conhecia o teatro de Ariano (Fernando e Isaura, A Farsa da Boa Preguiça e o Auto da Compadecida) e sua conversa bem-humorada. Esperava que ele tivesse trilhado os mesmos caminhos no seu romance maior, mas acabei me enroscando em suas longas descrições da caatinga, na filosofia atrapalhada dos personagens Samuel e Professor Clemente, nos detalhes das caçadas de onça fantasiadas por Quaderna, o personagem principal.

Muitos trechos foram enfadonhos para mim. Pensei muito antes de escrever essa última frase, tanto que evitei a definitiva e categórica “muitos trechos são enfadonhos”, optando por uma construção na qual o autor da frase (este que vos fala) seja o único responsável pela própria ignorância.

Tanta cautela tem razão de ser. Estou em Pernambuco, lugar onde esse livro foi lido por 100% dos freqüentadores cabeça dos bares da moda, das sessões de arte do Cinema da Fundação e das redações de jornais e TV. Pelo menos é que todos garantem.

Sobre o escritor

cAriano

Ariano, magnífico contador de histórias

Ariano Suassuna já andou totalmente nu, pelado mesmo, pelo Palácio da Redenção, sede do governo da Paraíba. Afinal, foi lá onde nasceu, pois era filho do governador (“presidente”, como se dizia na época), em 1927. Tinha três anos quando o pai morreu assassinado por conta das disputas políticas no estado. Ariano passou a infância em Sousa, no Alto Sertão paraibano, e, depois, em Taperoá, na região dos Cariris. Aos 15 anos, sua família mudou-se para o Recife. Para o teatro, escreveu várias tragédias e comédias, além de romances. Criou o Movimento Armorial, no qual a literatura de cordel mistura-se a rabecas e pífanos, sob forte influência ibérica e moura. Vive no Poço da Panela, em Recife. É secretário Especial de Cultura de Pernambuco.

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2 Comentários

  1. Publicado 26 de julho de 2009 em 11:22 | Permalink

    Oi Inácio. Também não conhecia o Caótico. Bela descoberta, essa.
    (Aliás, já está linkado!)
    Abraços

  2. Eduardo Lúcio
    Publicado 22 de agosto de 2011 em 21:41 | Permalink

    Quixadá, Ceará, 22 de agosto de 2011.

    Honestíssima sua opinião. Gostei.
    Permita-me recordar uma experiência análoga: passei cinco ou seis anos da minha vida tentando ler “Grande Sertão: Veredas” (Guimarães Rosa) e não conseguia. Não passava sequer da terceira página.
    Depois, percebi que eu estava tentando “domar” o texto, ou seja, povoá-lo com minhas expectativas, minhas experiências e meu conhecimento literário.
    Passei, então, a me deixar levar. Rendi-me. Fui levado no turbilhão.
    Quando dei por mim, quatro dias depois, havia lido todo o texto.
    Foi uma das mais belas e incríveis experiências pelas quais vivi.
    Conselho dado, conselho n’água: evite tentar relacionar o texto literário à sua experiência imediata dos sertões. Não ligue pra isso. Não tente entender. Leia. Deixe-se levar. Se for enfadonho, creia que isso pode ser um artifício do escritor para te dobrar e te imedir de ir além (sim, há desses).
    Um abraço nordestino
    Eduardo Lúcio Guilherme Amaral.

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