Os caminhos de Mandela

por Laércio Portela

mandelaChris Hani era um líder impetuoso de 51 anos, chefe do braço armado do CNA (Congresso Nacional Africano), o mais importante grupo – e agora partido – de resistência negra ao apartheid. O segundo político mais popular da África do Sul naquele ano de 1993. Se Nelson Mandela fazia o discurso da conciliação entre negros e brancos, pedindo ao povo que superasse os horrores do passado para construir um futuro de paz e união, o comunista Hani pregava a retaliação.

Foi com preocupação que Mandela, aos 74 anos, recebeu na manhã de 10 de abril daquele ano, após sua caminhada matinal em Transkei (zona rural onde cresceu), a notícia de que Hani tinha sido morto a tiros. Aquela morte podia ser o estopim de uma guerra civil. O clima de confrontação estava nas ruas desde a libertação de Mandela há pouco mais de três anos. Latente, podia agora tomar forma e gerar a morte de milhares de sul africanos.

Mandela sabia que o discurso de Hani falava alto aos corações de milhões de negros que durante décadas viviam sob o jugo dos brancos. Ele mesmo sempre fez questão de manter Hani por perto para monitorar seus movimentos e ouvir suas considerações que, afinal, eram parte importante do sentimento das ruas. E era imprescindível para Mandela conhecer os argumentos e a capacidade de mobilização daqueles que se opunham à sua política de reconciliação.

Quando observava Hani, a impressão que Mandela tinha era a de estar em frente a um espelho que o levava de volta ao passado. Mandela via em Hani a mesma fúria e impaciência que ele carregava dentro de si quando era um jovem líder. Sabia, portanto, o potencial belicoso do companheiro. Assim, ele sempre pedia a seus assessores que convidassem Hani para suas viagens, reuniões e cerimônias pelo país.

Mandela queria-o sempre por perto. Segurava sua mão em público (costume entre os homens africanos, do qual Mandela não era pessoalmente muito adepto). Essa deferência sensibilizava Hani, que mantinha sempre um obsequioso respeito ao líder mais velho. Ainda assim, Mandela temia o modo emocional como Hani atuava na política, mais com o coração do que com a razão. A imprevisibilidade de seus atos mantinha Mandela vigilante.

Naquela manhã de 10 de abril, Mandela falou por telefone com seus assessores mais próximos e viajou de volta a Johannesburgo. À noite, ele e não o presidente  Frederik De Klerk entrava em cadeia nacional de rádio e TV para falar à nação.  Horas antes do pronunciamento, a polícia divulgou que o assassino era um migrante polonês. Disse também que ele pôde ser identificado porque uma mulher bôer (etnia branca da África do Sul formada por calvinistas descendentes de colonizadores holandeses, alemães e franceses) tinha memorizado a placa do carro do criminoso e avisado aos policiais.

Mandela iniciou assim seu breve discurso:

“Esta noite estou me dirigindo a cada sul-africano, negro ou branco, do mais profundo do meu ser. Um homem branco, cheio de preconceito e ódio, veio ao nosso país e cometeu um ato tão hediondo que nossa nação inteira agora oscila à beira do desastre. Uma mulher branca, de origem bôer,  arriscou sua vida para que pudéssemos conhecer este assassino e fazer justiça. O frio assassinato de Cris Hani chocou todo o país e o mundo. Nosso pesar e raiva estão nos consumindo. O que aconteceu é uma tragédia nacional que tocou milhões de pessoas além da divisão política e de cor”.

E finalizou sua fala com as seguintes palavras:

“Este é um divisor de águas para todos nós. Nossas decisões e ações irão determinar se usaremos nossa dor, nosso pesar e o ultraje para caminharmos em direção à única solução duradoura para o nosso país – um governo eleito pelo povo, do povo e para o povo”.

A história é relatada pelo jornalista americano Richard Stengel, editor-executivo da Revista Time, que colaborou com Mandela na redação de sua autobiografia Longa Caminhada até a Liberdade (Editora Nossa Cultura, 2012). Em 2010, Stengel lançou Os Caminhos de Mandela, Lições de Vida, Amor e Coragem (Editora Globo).

Segundo Stengel, naquela noite Mandela usou quatro vezes a palavra “disciplina”. Disse que Hani era um homem de “disciplina de ferro” e que os sul-africanos também deviam agir com disciplina para honrar a sua memória. Naquele momento, a poucos meses de sua eleição para presidente da África do Sul, Mandela consolidava sua posição de líder máximo do país.

A vida de Mandela é marcada por momentos decisivos como este. Momentos como aquele em 1986 quando ele, preso há 23 anos, decidiu sozinho dar início ao processo de negociação com o governo branco em favor de uma distensão. O CNA estava há mais de 70 anos lutando ininterruptamente contra o apartheid (regime oficialmente instituído em 1948 mas que existia de fato há bem mais tempo) e havia duas décadas optara pela luta armada. A política para todos naquela época, conta Stengel, era não negociar.

mandela-620Aquela decisão solitária de um preso, acusado a partir daí por muitos companheiros de traição, resultaria no fim do regime discriminatório na África do Sul com a primeira eleição de um presidente negro em toda a história do país (oito anos depois) e a consolidação da democracia: um homem, um voto.

Stengel trabalhou com Mandela por quase três anos, a partir de 1992, ajudando-o a escrever a autobiografia. Durante este tempo conviveu quase que diariamente com o líder sul-africano.  Neste período acumulou mais de 70 horas de gravações e produziu um diário de 120 mil palavras. Viajou pela Europa, os Estados Unidos e toda a África com Mandela. Acompanhou os bastidores da campanha eleitoral histórica de 1994.

No livro Os Caminhos de Mandela, Lições de Vida, Amor e Coragem, Stengel nos faz entender a grandiosidade política de Nelson Mandela. Esse senhor que agora agoniza aos 94 anos num quarto de hospital de Pretória, região norte da África do Sul. Não constrói a imagem de um líder perfeito e infalível. Ao contrário, fala dos pequenos “defeitos” e “vaidades” do ex-presidente. Mostra, contudo, a retidão de caráter do grande líder político.

Com a sequência de histórias da rotina de Mandela intercaladas com outras mais decisivas para o rumo do país (a exemplo da de Chris Hani), Stengel traça o perfil complexo de um homem maduro, extremamente ponderado, corajoso (mas temos que entender que coragem não é ausência de medo), que às vezes assumia a liderança das ideias e às vezes liderava na “retaguarda” (dando protagonismo aos aliados). Um homem que preferia sempre enxergar o lado bom dos outros (aliados ou adversários), confiar que este lado bom iria mover politicamente seus interlocutores.

Um líder que nunca subestimou seus inimigos e estudava suas vidas e costumes para enfrentá-los no seu campo de batalha. Um líder que buscava a proximidade, mas sabia dizer não. Que preferia manter seus adversários sempre por perto (nomeou para seu ministério alguns rivais para garantir que eles não estariam distantes na oposição, minando seus esforços de conciliação e governança).

Um líder que compreendia que a política e a própria vida são um jogo demorado, que os resultados devem ser construídos e colhidos no seu devido tempo. Um homem complexo, como podemos ver. Mas que sempre se guiou por um profundo senso de justiça.

Numa parte do livro, Stengel diz que observando diariamente Mandela percebeu que ele viveu acima de tudo em função de um princípio fundamental: direitos iguais para todos, independentemente de raça, classe ou gênero. O resto, sentencia o escritor norte-americano, foi tática.  Nas palavras de Stengel, a melhor definição para Mandela é a de um homem intolerante à injustiça. Viveu e agiu por este princípio.

As últimas palavras públicas de Nelson Mandela durante sua defesa no Julgamento de Rivonia, em 1964, já guardavam a força do seu destino:

“Durante a minha vida, dediquei-me a essa luta do povo africano. Lutei contra a dominação branca e lutei contra a dominação negra. Acalentei o ideal de uma sociedade livre e democrática na qual as pessoas viviam juntas em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal para o qual espero viver e realizar. Mas, se for necessário, é um ideal para o qual estou preparado para morrer”.

Condenado à prisão perpétua, entrou na cadeia aos 44 anos e saiu aos 71 para mudar a história do seu país e do continente africano.

 

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4 Comments

  1. Juliana disse:

    Esse livro é uma inspiração.

  2. Esequias Pierre disse:

    Excelente texto Laercio, Mandela é uma figura inspiradora sem dúvidas, um homem que marcou bem sua passagem pela vida publica e estará sempre marcado na história.

  3. Arsenio Meira Júnior disse:

    Laércio,

    Bacana demais o seu artigo.
    Muito.
    Recorte e guardei.
    Mandela é – para mim – a única referência política viva, digna de ser louvada para sempre.

  4. Laércio Portela disse:

    Arsenio,

    Você tem razão. Mandela é uma referência indiscutível no mundo da política. Um homem e político fora de série. Cada vez que eu leio sobre ele e fico conhecendo os detalhes de sua vida (política e pessoal) mais admiração eu sinto.

    O esforço de toda uma vida para criar uma democracia na África do Sul, apesar de todos os obstáculos no caminho, é uma prova de que esse regime pode sim ter futuro no continente africano.

    Mandela é o exemplo vivo de que a política pode combinar com honradez, coragem e princípios inquebrantáveis.

    Grande abraço.

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