Os demônios

Estou ficando íntimo de Dostoievski. Viciado também. O problema é que tamanha intimidade implica em mais responsabilidade: sinto o peso de conseguir expressar o quanto eu gosto do que o russo deixou escrito e, o mais importante, o porquê eu gosto tanto dos seus romances.

No caso de Os demônios, há mais ou menos quatro anos planejava lê-lo, mas “os acontecimentos se precipitaram” (perdão, mas estava querendo muito usar esse clichê) quando resolvi embarcar junto com Samarone num projeto que mistura jornalismo e literatura. Esta decisão tornou imprescindível o mergulho na leitura do livro que, durante décadas, ficou conhecido no Brasil como Os possessos, por causa das traduções que eram feitas a partir de edições francesas e não diretamente do original em russo.

Como sempre, a experiência de ler mais um Dostoievski foi arretada, apesar do início meio travado, pois a primeira das três partes ele apresenta o perfil de alguns personagens, dá algumas pistas sobre o contexto social da Rússia na segunda metade do século XIX e retrata o ambiente rural de um lugarzinho chamado Skvoriéchniki.

A sensação de tédio que toma conta da leitura parece ser proposital, pois não creio que exista algo casual em Dostoievski. Com o cuidado de um pintor de pinceladas lentas e cautelosas, ele vai retratando o lugar pequeno, os intelectuais da província, vidinha sem novidades, gente que vem do exterior, blá-blá-blá sem fim de saraus que não levam a lugar nenhum. Rotina.

É preciso ter paciência. Acredite: é uma beleza a arquitetura desse romance e o leitor paciente será recompensado lgo depois.

A primeira parte, aliás, me fez lembrar um texto menor que li do russo, uma novela chamada A aldeia de Stiepanchikov e seus habitantes, escrita 12 anos antes de Os demônios e cujos elementos parecem ter sido usados como matriz para compor o cenário do romance, tanto que um dos personagens principais se chama Stiepan e é um sujeito meio pateta, que posa de grande intelectual, mas que nunca produziu nada de interessante. Um tantinho assim parecido com o personagem principal da aldeia de Stiepanchikov.

Dostoievski não oferece nada de graça para o leitor. Dois parágrafos acima usei a expressão “dá algumas pistas”, um jeito bom para definir o que ele faz o tempo todo ao longo do romance. Os confusos e incompletos diálogos da primeira parte contêm indícios do papel que cada personagem irá representar no desenrolar da trama.

A prosa muda de rumo e velocidade a partir do início da segunda parte. Aos poucos, a confusão de falas, ataques histéricos e a multidão de personagens começam a fazer sentido e o leitor vai montando o quebra-cabeça. Quem já leu Nélson Rodrigues vai identificar fácil fácil o que impactou e influenciou o nosso melhor reacionário.

A história contada pelo barbudo Fiodor com seu arsenal de recursos técnicos, seu estoque de imaginação e sua genialidade expõe os grupelhos radicais e de escassa ideologia que se espalharam pela Rússia nas décadas finais da monarquia czarista. Em alguns momentos, como no diálogo que transcrevi nos Trechos Arretados ele também recorre ao humor, elemento raro em sua obra.

Mesmo sem perder o foco na história e da sociologia do seu tempo, Dostoievski desce à esfera dos indivíduos, vai direto no coração, na alma das pessoas que se mobilizavam para mudar a Rússia, o mundo, alguns por convicção, outros por idealismo, outros mais por revolta. E muitos por ambição, mesquinharia ou sede de poder.

Seus personagens revelam as extremidades do idealismo. E como um sujeito pode manipular os idealistas, os convictos, os ambiciosos e os revoltados para que se cometa um crime em nome de uma etérea “causa comum” que nada tem de causa e pouco tem de comum.

Não falta sangue em Os demônios. Dostoievski não economiza realismo quando o assunto é assassinato, ele não poupa personagens nem leitores do sofrimento.

Sobre Os demônios as resenhas e textos críticos – como o ótimo texto do ótimo tradutor Paulo Bezerra, no final do volume – costumam dizer que o livro antecipou as ideologias totalitárias que justificaram os crimes de Stálin, de Hitler, dos generais latino-americanos, de Bush, de Israel e dos fundamentalistas islâmicos. É verdade, mas o barbudo faz isso com enorme talento, identificando na aldeia, aquilo que é universal. Ou melhor, o que ainda viria ser universal.

Sobre o tradutor

Paulo Bezerra é paraibano, mas especializou-se em tradução na Universidade Lomonossov, em Moscou. Hoje é professor de literatura da Universidade Federal Fluminense, no Rio. A tradução de Os demônios lhe rendeu um Prêmio Jabuti, em 2005. Antes, já havia sido responsável pela primeira tradução direta do russo para o português “brasileiro” de Crime e Castigo. Spaciba, Paulo.

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5 Comments

  1. Arsenio Meira Junior disse:

    Essse russos realmente viciam. (Tostoi, Tchecov, e por aí vai).

    Dos Livros de Fiódor Mikhailovich Dostoiévski que li, a obra resenhada perde apenas para ‘Crime e Castigo’, ‘Recordações da Casa dos Mortos”, e claro, “Os Irmãos Karamazov”.

    Valeu, Inácio. E concordo contigo.
    O Romance analisado demora um pouco, mas engrena.
    No início titubeia, se o leitor vacilar pode perder o embate, mas depois… Bom, você já escreveu.

    E o nosso indefectível Nelson Rodrigues bebeu dessa fonte fartamente.
    Dostoiévski influenciou-o tanto, que Nelson passou a vida inteira reconhecendo essa influência.

    Aliás, Dostoiévski (especialmente em “Crime e Castigo”), traduz toda a filosofia de Nietzsche de um modo acessível e dramático.
    E vai além.

  2. Luis Carlos Monteiro disse:

    Dostoievski é leitura essencial. Por todos os séculos. Na minha opinião.

    Vou reler Os Demônios. Muito bom esse artigo. A releitura é, não raro, melhor do que a leitura. Porque o verbo desvendar ainda move o ser humano.
    Abraços.

  3. Yvette Teixeira disse:

    “Certa vez, um erudito resolveu fazer ironia comigo. Perguntou-me: ´O que é que você leu?´ Respondi: ´Dostoievski´. Ele queria me atirar na cara os seus quarenta mil volumes. Insistiu: ´Que mais?´. E eu: ´Dostoievski´. Teimou: ´Só?´. Repeti: ´Dostoievski´. O sujeito, aturdido pelos seus quarenta mil volumes, não entendeu nada. Mas eis o que eu queria dizer: pode-se viver para um único livro de Dostoievski. Ou uma única peça de Shakespeare. Ou um único poema de não sei quem. O mesmo livro é um na véspera e outro no dia seguinte. Pode haver um tédio na primeira leitura. Nada, porém, mais denso, mais fascinante, mais novo, mais abismal do que a releitura”. Nelson Rodrigues
    Grande Dostoievski! Grande Nelson Rodrigues!

  4. Arsenio Meira Junior disse:

    Grande Yvette!

  5. Silvio Neto disse:

    Dostoievski é inigualável.
    Todos devemos render ao velho Russo homenagens diárias.

    Os Demônios – como romance de afirmação – não tem nada de causal, como bem anotou o Inácio.

    Cada linha tem um propósito, e final é exatamente o desenlace da genialidade do escritor russo.

    Excelente texto.

  6. [...] Mais uma vez, cito aqui o importante site do Inácio, que transcreve trecho igualmente interessante do romance: www.caotico.com.br/trecho de Os Demônios além de tecer comentários sobre a obra: www.caotico.com.br/Os Demônios/ [...]

Um trackback

  1. Por Os Demônios de Dostoiévski – Parte I « verbologia em 2 de abril de 2011 às 20:41

    [...] Mais uma vez, cito aqui o importante site do Inácio, que transcreve trecho igualmente interessante do romance: www.caotico.com.br/trecho de Os Demônios além de tecer comentários sobre a obra: www.caotico.com.br/Os Demônios/ [...]

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