Os Detetives Selvagens

detetivesselvagensPara falar de Os Detetives Selvagens, do chileno Roberto Bolaño, pego carona num trecho publicado dia desses na Carta Capital pela jornalista Rosane Pavam. Em artigo que não tem nada a ver com Bolaño, ela comenta que o romance é um gênero surgido no século XIX, durante o processo de consolidação do poder burguês. Antes, creio eu, os literatos se dedicavam à poesia, teatro e filosofia. A jornalista explica também que a fragmentação do mundo no século XXI pede um novo romance, um novo gênero.

Esse comentário me ajudou a entender a importância que os críticos literários dão a Bolaño, de que ouvi falar pela primeira vez pela boca do cronista tricolor Samarone Lima, sujeito que tem seus olhos voltados para a cordilheira dos Andes e para os Pampas.

Quem entende do riscado diz que Os Detetives Selvagens é o melhor livro de Bolaño, um dos milhares de chilenos que não tinham como viver no próprio país durante a ditadura de Pinochet e que perambulou pelo México e Europa. Morreu com 50 anos, em 2003, esperando um transplante de fígado que nunca veio. Não sei dizer se foi cachaça muita. Parece que não.

Dele, já tinha lido Putas Assassinas, um livro de contos publicado ano passado aqui no Brasil, com histórias saborosas e algumas chatices. Na primeira categoria está “O retorno”. Na segunda, “Fotos”.

“Fotos” é um conto intragável, mas remete a Detetives Selvagens. O conto poderia fazer parte de algum capítulo do romance. Não faz, mesmo assim é um fragmento dele, que por sua vez é composto de dezenas de outros fragmentos. O leitor, por sinal, chega na última linha do romance com a sensação de que não leu a história toda. Essa impressão é confirmada quando se encontra outro pedaço das andanças do personagem Arturo Belano num livro de contos. Ou quando a experiência de uma personagem do romance serve como ponto de partida para outro romance, mais curto, chamado Amuleto, que foi lançado por esses dias em português.

Vou tentar explicar melhor falando da estrutura da obra. Trata-se da história de dois poetas que, nos anos 70, fundaram um movimento literário no México, o real-visceralismo, por sua vez inspirado em outro movimento com o mesmo nome 50 anos antes. Nem um nem outro tiveram grande importância na história literária no México. Os caras, Ulises Lima e o tal Belano, são sensíveis, nada eruditos e meio perdidões. E cercado por outros porra-loucas, paridos pelas ditaduras espalhadas pela América. Aliás, Bolaño se tornou ídolo dessa geração que se espalhou pelo mundo por conta dos Pinochet, Videla, Stroessner e Médici da vida. Ou da morte.

Em tudo quanto é artigo e resenha que li sobre ele, sobram referências sobre isso. Aliás, Bolaño é um ícone para muita gente, mas só agora cheguei nele. Curiosamente, ícones e monstros sagrados da literatura eram as vítimas preferidas do seu deboche.

Sim, o homem era debochado, mas, para mim, isso não é o essencial. O que me chamou atenção em sua escrita foi seu domínio da técnica de contar, de narrar. A história de Os Detetives Selvagens é contada por vários personagens e de várias maneiras. É o que os entendidos chamam de “romance polifônico”, um romance composto por várias vozes. Nenhuma novidade até aí. Só para ficar na América Latina, Crônica de Uma Morte Anunciada, do ícone sagrado García Márquez, também é polifônico.

O que torna Detetives um livro extraordinário é o fato do mosaico de depoimentos e as anotações do diário de um dos personagens não revelar tudo, nem mesmo apresentar completamente os personagens principais, que você acaba conhecendo, mas não conhece de todo. Mais ou menos como na vida, em que a gente conhece muito das pessoas que estão ao nosso redor, mas não conhece tudo. E só captura pedaços ou aspectos da personalidade das pessoas que passaram ou continuam passando pelas nossas vidas.

Como já escrevi lá em cima, a sensação de que não se leu a história toda é a certeza que, na fragmentação do século XXI, só dá para perceber minúsculas parcelas do mundo. E, mesmo assim, não é recomendável ler esse mundo de forma linear.

Sobre o escritor

roberto_bolano

Bolaño já debilitado pela doença que o matou

Roberto Bolaño era chileno e morreu em Barcelona, em 2003, com 50 anos. Pouco dias depois do golpe que instalou a ditadura de Pinochet, escapou de um campo de prisioneiros, graças a um carcereiro, um antigo colega de escola que o reconheceu. Viveu no México e, já exilado na Europa, se virou como pôde para sobreviver, até 1996, quando sua literatura conquistou a crítica.

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5 Comments

  1. Nem sempre se morre por problemas hepáticos causados por cachaça, muitos até estão condenados a isso, mesmo sem querer admitir, mas a verdade é que o grande escritor do chileno Roberto Bolaño se tornou um grande imortal.
    Ãbraços do amigo biriteiro,
    Urêia

  2. Nem sempre se morre por problemas hepáticos causados por cachaça, muitos até estão condenados a isso, mesmo sem querer admitir, mas o fato é que o grande escritor do chileno Roberto Bolaño, se tornou um grande imortal.
    abraços do amigo, tricolor e biriteiro,
    Urêia

  3. samarone disse:

    O pior é que nem foi por causa de cana.
    “Os Detetives” não canso de reler.
    Samarone

  4. André Raboni disse:

    Inácio,
    Também coloquei teu link lá no desterritorio. Valeu!

    Aproveito pra sugerir uma leitura aos dispostos. Tô acabando de ler esse livro e é muito interessante. Chama-se “O Vendedor de Passados”, do escritor angolano José Eduardo Agualusa.

    Reproduzo a sinopse do liro que consta do site de Agualusa:

    “O Vendedor de Passados”

    Vencedor do Independent Foreign Fiction Prize 2007

    Félix Ventura escolheu um estranho ofício: vende passados falsos. Os seus clientes, prósperos empresários, políticos, generais, enfim, a emergente burguesia angolana, têm o futuro assegurado. Falta-lhes, porém, um bom passado. Félix fabrica-lhes uma genealogia de luxo, memórias felizes, consegue-lhes os retratos dos ancestrais ilustres. A vida corre-lhe bem. Uma noite entra-lhe em casa, em Luanda, um misterioso estrangeiro à procura de uma identidade angolana. E então, numa vertigem, o passado irrompe pelo presente e o impossível começa a acontecer. Sátira feroz, mas divertida e bem humorada, à actual sociedade angolana, O Vendedor de Passados é também (ou principalmente) uma reflexão sobre a construção da memória e os seus equívocos.

    http://www.agualusa.info/

    Abraço!

  5. André,

    também recomendo O Vendedor de passados. Li numa longa viagem de ônibus do Recife até o norte do Mato Grosso, em 2006. Realmente é uma ótima história. A lagartixa que vive nas paredes da casa de Ventura é uma ótima sacada.

    Se quiser, escreva sobre esse livro para o Caótico. Se não, acho que vou aproveitar a sugestão mais adiante.

    abraço

    Inácio

  6. [...] de parágrafos e mais parágrafos de polimento.Reconheci nesse livro de Tezza alguns elementos de Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño e de certa literatura argentina, principalmente textos de Ricardo Piglia lidos [...]

Um trackback

  1. [...] de parágrafos e mais parágrafos de polimento.Reconheci nesse livro de Tezza alguns elementos de Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño e de certa literatura argentina, principalmente textos de Ricardo Piglia lidos [...]

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